Entoada nas montanhas búlgaras de Ródope, Izlel ye Delyo Haydutin, canção do folclore local, narra os feitos do líder Delyo que, entre os séculos XVII e XVIII, lutou contra a presença do mundo Otomano. A canção de Delyo, na voz da intérprete búlgara Valya Balkanska, afasta-se do planeta Terra numa viagem iniciada em 1977. No caminho que as aproxima das estrelas, as sondas espaciais não tripuladas Voyager 1 e Voyager 2, depois de completarem um périplo no sistema solar, vogam presentemente no espaço interestelar, portadoras de dois discos fonográficos de cobre e ouro. A memória da Terra avança rumo a um hipotético encontro futuro com civilizações extraterrestres. As cápsulas do tempo encerradas numa jornada de milhares de milhões de quilómetros, albergam, entre outros registos, 115 fotografias da vida no nosso planeta e perto de 90 minutos de música e saudações em dezenas de línguas. Uma "carta" interstelar que inclui a mensagem do Secretário-geral das Nações Unidas, na época, o austríaco Kurt Waldheim; a voz do Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, a expressão em latim Per áspera ad astra ("por ásperos (caminhos) até aos astros") e a voz gravada de Nick, o filho de seis anos do astrónomo norte-americano Carl Sagan, figura cimeira do projeto Voyager. As sondas lançadas, respetivamente a 20 de agosto de 1977 e a 5 de setembro do mesmo ano, partiram na peugada das precursoras Pioneer 10 (1972) e 11 (1973). Sondas que rumaram ao espaço mensageiras de placas de alumínio e ouro com a representação de dois seres humanos e coordenadas sobre a localização do planeta Terra..Após mais de quatro décadas sobre o início dos programas Pioneer e Voyager, os esforços para entregar às estrelas uma memória eterna da Terra mantêm-se, não apenas como uma missiva para incertas civilizações extraterrenas, como também para a constituição de uma biblioteca para consulta futura da própria humanidade. A anos-luz das conquistas científicas encerradas nas placas de alumínio lançadas a 2 de março de 1972 a bordo da Pioneer 10, os atuais suportes de memória eterna para o espaço, implicam informação codificada capaz de resistir ao armazenamento por um tempo estimado em milhões ou mesmo milhares de milhões de anos..Embora as sondas da década de 1970 possam prosseguir as suas viagens interestelares por centenas de milhares de anos, terão de superar uma difícil corrida de fundo na preservação da informação, a de "combinar grandes distâncias com grandes períodos de tempo", sublinham os investigadores Melissa Guzman, Chris Welch e Andreas M. Hein. No trabalho que apresentaram em 2015 no 66.º Congresso Astronáutico, em Israel, subordinado ao tema Eternal Memory: Long-Duration Storage Concepts for Space (disponível para leitura online), os investigadores lançam luz sobre o conceito de memória eterna no espaço, não só sobre a gravação dos dados em novos dispositivos que imaginaríamos saídos de novelas de ficção científica (como no ADN de bactérias ou o armazenamento ótico de dados 5D), como também o seu armazenamento e eventual leitura num futuro longínquo.."Questões críticas para o conceito [memória eterna] incluem como será o conteúdo selecionado, como será este codificado e, depois, lido dentro de muitos anos; onde serão armazenadas as informações, como será protegido o dispositivo de armazenamento no ambiente espacial, onde ficará e como será encontrado", lemos no referido artigo. O trabalho parte da hipótese da colonização do espaço por humanos dentro de milhares de anos e da expectativa de compreender o comportamento do ambiente onde será deixada a informação. "Assim como um milhão de anos no futuro pode ser extrapolado a partir do passado geológico e astronómico, também um milhão de anos no futuro pode ser extrapolado a partir do passado da biologia", referem os autores..Longe dos confins do espaço, na Terra, dois projetos de cariz privado perspetivaram a possibilidade de entregar à Lua e a Marte parte da memória coletiva e particular dos habitantes do planeta azul..Em 2014, o Lunar Mission One, um projeto assente em crowdfunding (financiamento colaborativo) e liderado pela Lunar Missions Limited, propôs-se angariar 500 milhões de libras (perto de 570 milhões de euros), com vista ao lançamento de um módulo lunar em 2024, rumo ao Polo Sul do satélite natural da Terra. O módulo perfuraria até aos cem metros de profundidade para entregar ao leito rochoso uma cápsula do tempo, com um arquivo da biosfera da Terra e a história da epopeia humana, assim como milhões de "caixas" de memórias digitais dos humanos. Todos os que apoiassem financeiramente o projeto teriam a possibilidade de preservar na Lua o seu DNA num fio de cabelo..Por seu turno, em 2019, o projeto Lunar Mission One foi abandonado devido a irregularidades fiscais (o site com os propósitos da missão mantém-se online). O sonho de arquivo eterno distante da Terra tomou de assalto as plataformas de financiamento colaborativo no ano de 2014. Na época, um projeto sem fins lucrativos e multidisciplinar de um grupo de estudantes universitários norte-americanos, pretendia enviar, até 2019, vários satélites miniaturizados rumo ao Planeta Vermelho. O Time Capsule to Mars (TC2M) seria depositário de cápsulas do tempo com informação alojada em discos de quartzo. Uma arca de dados do quotidiano da humanidade para eventual descoberta de futuros terráqueos exploradores de Marte..Distante das aspirações terrenas para criar uma memória eterna no espaço, as Voyager 1 e 2 mantêm o seu rumo interestelar. Dentro de 300 mil anos a primeira sonda passará a um ano-luz (9.46 biliões de quilómetros) da estrela TYC 3135-52-1; a segunda estará à distância de 4,3 anos-luz da estrela Sírio, num futuro estimado em 296 mil anos. Como afirmou Carl Sagan no livro de 1978 The Murmurs of the Earth, será pouco provável que encontrem uma civilização avançada. A voz de Valya Balkanska manterá a sua longa viagem em silêncio..O Projeto Rosetta, uma versão contemporânea da histórica Pedra de Roseta, gerido pela Long Now Foundation, faz o arquivo de mais de 2500 línguas (algumas com menos de mil falantes). Uma iniciativa com o objetivo de criar uma plataforma única para pesquisa, recuperação ou revitalização futura de línguas em extinção. Entre os suportes de informação do Projeto Rosetta encontra-se um disco de níquel que comporta 13 mil páginas microgravadas, cada um com meio milímetro de diâmetro, a poder ser lido com um microscópio de 650X..dnot@dn.pt