Desde que, há mais de 500 anos, se escreveu pela primeira vez sobre as mulheres brasileiras, a sua cotação tem andado em alta. As relíquias são amplamente celebradas no imaginário global - as bundas do Posto 9, as mulatas do sambódromo, as modelos da Victoria"s Secret com asas endiabradas e pernas de asfixia erótica. Se Pero Vaz de Caminha se estreou no assunto elogiosamente, mas com alguma reserva - "Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que, assim nuas, não pareciam mal" -, os anúncios da Reef, com bundas douradas e formidavelmente redondas, bem como a poesia de Vinicius de Moraes, exprimiram plenamente, cada um à sua maneira, o magnetismo da mulher brasileira. .Só que, no Brasil de hoje, a beleza nada tem que ver com garotas de Ipanema ou sequer com a imagem batida da mulher com pouco peito, bunda empinada e uma sexualidade incendiária. Em primeiro lugar, porque não há um cânone da beleza brasileira. Se é verdade que, nas revistas de moda, ainda se veem, exclusivamente, as mesmas modelos galgazes e internacionais, que deslizam com lascívia e facilidade para dentro de uns skinny jeans, também é verdade que novos padrões se tornaram mais populares, contagiosos e duradouros do que o Ai seu eu te pego, do Michel Teló..Peito.Cresci a ouvir que as mulheres brasileiras tinham pouco peito. Era uma verdade tão incontroversa como a genialidade supersónica e os cojones de Ayrton Senna. Talvez tenha sido assim um dia. No Brasil de hoje, que ultrapassou os Estados Unidos enquanto país onde se fazem mais cirurgias estéticas, é normal oferecer uma operação plástica às filhas adolescentes pelo aniversário. Rinoplastias estão entre as mais escolhidas, tal como o aumento de peito. Há até um tamanho oficioso, supostamente popularizado pelas atrizes da TV Globo: 250 ml para cada mama, o que parece uma frugalidade se tivermos em conta os peitos propagandeados - e disseminados com sucesso - por vedetas de reality shows, cantoras de funk e mulheres-fruta. Pouco importa a proporção ou a aparência ciborgue da caixa torácica: estão na moda as mamas com formato de balas de canhão de desenho animado. .Bunda .As mulheres-fruta, exageradamente redondas, ícones sexuais desejados e imitados, enchem literalmente as primeiras páginas dos jornais populares. Com bundas entre a melancia e a bola de pilates, estas mulheres têm em fartura o que as bundas da Reef tinham em equilíbrio, contenção e resistência à força da gravidade..A Playboy, antes acostumada a cativar leitores com atrizes de telenovela, fez uma produção na favela da Rocinha, com a estrela do funk Valesca Popozuda - 970 ml de silicone no peito e 1100 ml na bunda. Por causa do seu sucesso Beijinho no ombro, Valesca já superou o estatuto tabloide de mulher-fruta e entrou com estrondo, coxas musculadas e stiletti na cultura popular. .Coxas.Jenny Barchfield, jornalista americana, definiu assim um novo estilo de beleza, muito popular no Brasil, após ter conversado com um personal trainer em São Paulo: "[Ele] descreveu o seu ideal de beleza feminina e parecia o resultado da experiência do doutor Frankenstein, aos 12 anos, equipado com um maçarico, uma Barbie e um boneco G.I. Joe: "feminina e elegante da cintura para cima, músculo sólido das ancas para baixo".".Mulheres com pernas que parecem pénis musculados entraram no mainstream. O consumo de esteroides aumentou e entre os inúmeros problemas de saúde causados pelas injeções está a hipertrofia do clitóris - o que se ganha em tamanho, no entanto, perde-se em sensibilidade num genocídio de células nervosas. .O peito nem sempre é pequeno, a bunda não é necessariamente empinada e o apetite sexual perde agora para um reflexo musculado no espelho..O doce balanço .Uma das coisas que mais aprecio no Brasil é a descontração e a aceitação do corpo, a forma como negras imensas, em biquínis míni, caminham triunfantemente pelo areal - mais confiantes do que estrelas pop apuradas por estilistas, dietistas e maquilhadoras. O Brasil tem mulheres lindíssimas e de todos os géneros, mas custa-me que muitas se mutilem na busca de um padrão homogéneo - as mesmas coxas, o mesmo peito, as mesmas caras repuxadas e botoxadas, entre o travesti e o lagarto. Será hoje a uniformização - e a masculinização - o que as gorduchinhas eram para Botticelli e as heroinómanas para Calvin Klein? .Sem meninas que vão e que vêm num doce balanço a caminho do mar, talvez as músicas, no futuro, façam juras de amor a implantes de glúteos, imortalizem personal trainers e declarem amor eterno - "enquanto duro" - aos clitóris culturistas.