Pedrógão Grande, Pedro, pequenino

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O suicídio é um ato pessoal. Tão de alguém consigo próprio que é mais fácil conhecerem--se as razões da eterna tragédia portuguesa dos incêndios do que saber o que leva um homem ao suicídio. Mesmo de gente que deixa explicações fica sempre a pairar a dúvida sobre o ato. Stefan Zweig, reclamando-se de fazer o que queria ("com minha mente lúcida"), matou-se, em 1942. Ele foi obrigado ao exílio e julgava (escreveu-o) que a "longa noite" totalitária iria durar. Na carta de suicida deixou esta última linha: "Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes." Foi há três quartos de século e ainda hoje se publicam livros e se fazem colóquios sobre o porquê do suicídio de Zweig. Ter perdido Viena? Estar velho? Ser judeu e não ter adivinhado Hitler? Lotte, a nova companheira, não ter feito esquecer Friderike, a velha?... Tão insondáveis são a fraqueza e a coragem que levam ao suicídio! Por seu lado, ontem, em Pedrógão Grande, Pedro Passos Coelho não teve dúvidas, disse: "Eu tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, pessoas que em desespero se suicidaram e que não receberam em tempo o apoio psicológico que deveria ter existido." Depois disso, soube-se que não houve suicida nenhum. Depois disso, Passos Coelho pediu desculpa. Não precisava, suicídio é tema demasiado profundo para ele, já sabíamos. Devia era culpar-se por, de forma tosca, tão dele, ter deixado a ideia de que dava jeito mais vítimas.

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