Pedro Tadeu cometeu plágio?

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A direção do Diário de Notícias informou-me que recebeu uma queixa onde sou acusado de ter cometido um plágio na última coluna que escrevi, na quarta-feira.

A acusação especifica este parágrafo:

"Dentro do PCP, espero que qualquer confusão que pudesse ainda existir tenha ficado desfeita e se conclua o seguinte: por muito que alguns procurem encobrir, a guerra na Ucrânia - uma guerra que urge parar e que nunca deveria ter começado - é expressão da escalada de confrontação dos EUA, da NATO, da União Europeia e da Rússia, em que a Ucrânia é usada como instrumento da estratégia do imperialismo".

A comparação, para sustentar a acusação de plágio, será com esta frase, dita na Conferência Nacional do PCP do último fim de semana:

"Por muito que alguns procurem encobrir, a guerra na Ucrânia - uma guerra que urge parar e que nunca deveria ter começado - é expressão desta escalada de confrontação dos EUA e da NATO contra a Rússia, em que a Ucrânia é usada como instrumento da estratégia do imperialismo norte-americano."

A acusação contra mim confunde, portanto, plagiar com glosar.

Plagiar é copiar ilegitimamente um texto, sem citar a fonte, assumindo a sua autoria. É condenável.

Glosar é repetir uma frase, modificando-a ligeiramente, para obter dela uma interpretação diferente. É lícito, é normal e foi o que fiz.

Vejamos as diferenças entre as duas frases:

Na frase original a Rússia não é colocada como protagonista ativa da confrontação com os EUA e NATO , mas apenas como recetora dessa confrontação. A minha frase coloca-a nesse patamar.

Na frase original a União Europeia não é colocada como uma das potências que contribui para a escalada da guerra. Na minha frase ela é alinhada nessa responsabilidade com Estados Unidos, NATO e Rússia.

Na minha frase, a Rússia é colocada no mesmo pé de igualdade de outras potências como responsável pela escalada da guerra. No texto original isso não acontece, apenas é referido que a guerra "nunca deveria ter começado", o que indiretamente critica a invasão russa da Ucrânia.

Na frase original é dito que a Ucrânia é vítima do imperialismo americano. Eu digo apenas que é vítima do imperialismo, admitindo, portanto, a existência de outros interesses imperiais para além do dos Estados Unidos.

São, portanto, quatro diferenças substanciais que modificam radicalmente a mensagem transmitida, apesar das semelhanças da formulação - e fiz isso intencionalmente.

A minha ideia foi, propositadamente, utilizar uma formulação clássica do PCP, o jargão e o fraseado que esse partido tem usado para definir a guerra da Ucrânia para, à luz das declarações recentes de Paulo Raimundo (o tema do artigo), feitas em duas entrevistas após a Conferência, reescrevê-la, introduzindo os recentes elementos políticos que, na minha interpretação, as declarações do novo secretário-geral do PCP corporizam, tal como explico no resto do artigo.

Note-se que, neste parágrafo sob suspeita, começo por dizer: "dentro do PCP, espero que qualquer confusão que pudesse ainda existir tenha ficado desfeita e se conclua o seguinte:...". Este interlúdio serve para, precisamente, indicar que o que se seguia era uma formulação que, seguindo o cânone do discurso habitual dos comunistas portugueses, introduzisse as nuances suscitadas pelas declarações de Paulo Raimundo, desfazendo confusões anteriores.

Para fazer esse exercício fui buscar uma frase de uma intervenção sobre o tema feita na parte inicial da Conferência que reproduzisse o discurso conhecido do PCP sobre este assunto. Não quis (nem quero), deliberadamente, dizer quem foi o autor por isso ser irrelevante, pois essa intervenção era a repetição de uma posição coletiva anterior e não de uma posição pessoal do orador. Achei que se indicasse o autor pareceria que queria de alguma forma estar a apontar algo a essa pessoa, quando a questão nada tem de individual.

Espero que este esclarecimento retire qualquer dúvida a quem me acusa, infundadamente, de plágio.

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