Os Oasis regressaram ao Sudoeste e, em vez de pedras, receberam aplausos, os LCD Soundsystem mostraram porque são banda vital no presente, Devendra Banhart transportou-nos para um universo onde só há espaço para a poética inocência do primeiro olhar e os Da Weasel congregaram à sua volta a maior multidão da noite..Assim foi a sexta-feira no Festival Sudoeste, dia que confirmou como mais valia as actuações simultâneas em três palcos - diversificam a oferta, garantindo aos festivaleiros ponto de interesse até ao encerramento de portas, dinamizam e tornam mais fluida a circulação do público no recinto..VITALIDADE. Cinco anos depois de um concerto desastroso neste mesmo espaço, os Oasis confirmaram aquilo que o último Don't Believe the Truth revelou. A banda que andou perdida nos últimos dez anos, ofuscada pelo seu próprio brilho, recuperou a vitalidade e ocupou o palco com a glória pop de que já poucos pensavam serem capazes. Alinhamento dividido entre clássicos e as aliciantes novidades do novo álbum, foram por hora e meia as rock'n'roll stars que já tínhamos esquecido serem. Tudo devidamente explícito em, precisamente, Rock'n'Roll Star. A banda entra na furiosa divagação psicadélica que lhe marca o final e, enquanto se intensifica a cadência do turbilhão sónico, olhamos para o centro do palco e lá está Liam Gallagher, imóvel entre a electricidade à sua volta, pose de ícone pop que oferece imagem ao "tonight I'm a rock'n'roll star" cantado no refrão..Num concerto em que se comprovou que neste momento, com Liam e Noel acompanhados pelo guitarrista Gem Archer, pelo baixista Andy Bell (ex-Ride) e pelo baterista Zak Starkey (filho do Beatle Ringo), os Oasis têm a sua melhor formação de sempre, a banda britânica passou por clássicos como Live Forever ou Champagne Supernova, atirou-se a novidades como a distorcida, stoogesiana, The Meaning of Soul ou Mucky Fingers - encontro perfeito entre os Velvet Underground e Bob Dylan - e despediu-se gloriosamente com uma versão da insuperável My Generation, dos The Who. Um regresso em grande onde as únicas pedras à vista tinham tradução em inglês rock'n'roll..Esse que, imediatamente antes da subida dos Oasis ao palco TMN, extasiava a população dançante que enchia o Planeta Sudoeste para ouvir o showcase da DFA Records, iniciado pelos LCD Sound- system (ver caixa). A sua hibridez, em que as mecânicas de pista de dança são alimentadas organicamente, representa como nenhuma outra o pulsar da actualidade. Foram apenas quarenta minutos, mas com Daft Punk is Playing at My House, Loosing My Edge ou Yeah, valeram por uma noite inteira. .Antes deles, e de uns Maximo Park que, apesar de seguidos por um público conhecedor e em número muito considerável, deixaram a impressão de serem banda demasiado colada ao presente pop - esse feito de new-wave e pós-punk e Wire e Joy Division - para que consigam sobreviver à inevitável mudança dos ventos estéticos, o Planeta Sudoeste recebeu um ovni admirável chamado Devendra Banhart. .Chamamos-lhe ovni, mas nada há de alienígena na sua música - pelo contrário, é humana, demasiado humana. Com Cripple Crow em carteira - o novo álbum, a editar em Setembro -, foi xamã de todas as feitiçarias, country-rocker, tropicalista, trovador sul-americano, cantor e poeta. Há em Devendra Banhart uma luminosidade reconfortante e uma ressonância poética, desarmante, que transborda para música que rodopia dançarina, que quase se silencia para lhe sorvermos as palavras uma a uma, que se harmoniza em coros da melhor folk, etérea e sonhadora. Num momento Devendra pede a alguém entre o público que suba ao palco para partilhar uma canção - e sobe um talentoso Sam aplaudido em histeria -, no fim dança a nova I Feel Just Like a Child livre, completamente livre como todos nós naquele momento, e um crepúsculo normal torna-se a visão mais bonita do mundo. .OS OUTROS. Antes de da folk americana, tinha havido samba à portuense pelos BoîteZuleika, com a competência do álbum mas sem rasgos que façam a diferença. Ainda sem disco, os Klepht, segunda banda da tarde, limitaram-se a explorar lugares estafados do rock FM em português, enquanto na abertura os You Should Go Ahead tiveram altos e baixos no seu rock pujante. Ainda nos portugueses, os Da Weasel contagiaram toda a gente com um espectáculo que já precisa de renovação e K-Os levou o hip-hop a outras paragens. Os Skank, que iniciaram o palco TMN, repetiram o efeito Los Hermanos do ano anterior, com muita energia em palco e indiferença no exterior. A encerrar o dia, os Kasabian conquistaram certamente mais fãs, com um concerto em que o rock n' roll se cobre de misturas electrónicas e fraseado hip hop de sotaque britânico.