O QUE VAI ACONTECER aos fãs de Paulo Coelho quando lerem a biografia que Fernando Morais escreveu sobre um dos maiores autores de best-sellers no mundo?.Há duas respostas possíveis, uma positiva e outra negativa. Mas seja qual for a categoria em que o leitor se inclua prepare-se para engolir em seco todas as esperanças que tinha posto na humanidade e, logo em seguida, para uma grande desilusão perante o ser humano que lhe é relatado..Paulo Coelho não é aquele mito que se pretende encontrar numa biografia nem surge aureolado deste livro intitulado O Mago, que a editora Planeta vai publicar esta semana em Portugal. O retrato que sai deste grosso volume de mais de 650 páginas mostra realmente que estamos perante um mago, sim, mas da aldrabice e do tudo-vale para atingir os fins. Está tudo documentado nesta biografia que se lê de um fôlego e só se pode interromper para um vómito impossível de conter ou para relaxar o pensamento daquilo que se está a ler..PODERÁ CONTRAPOR-SE que esta biografia está recheada de falsidades, mas essa não é a verdade. Foi autorizada pelo próprio Paulo Coelho, que permitiu ao autor Fernando de Morais coscuvilhar num baú secreto que o famoso escritor mantivera consigo. E o que estava nesse baú? Um diário muito completo da vida de Paulo Coelho e documentos que provam que o livrinho de apontamentos de uma vida não poderia ter sido forjado como foi quase tudo o que ele fez na vida..Como é que Fernando Morais teve acesso a esse baú? Foi o próprio Paulo Coelho que permitiu a sua consulta depois de o biógrafo ter descoberto a sua existência. A história que se conta desta revelação é simples: um dia Fernando Morais ouve falar dessa caixa mistério e questiona Paulo Coelho sobre a sua existência. O escritor não nega mas informa que só possibilitaria a sua consulta se Fernando Morais descobrisse quem era o agente da polícia política que o interrogara durante a prisão no DOI-CODI na época da ditadura militar no Brasil. E o biógrafo pôs-se em campo nos meandros dessa espécie de PIDE à brasileira e acabou por descobrir o nome que Paulo Coelho pretendia. Revelado o polícia, diz-se, Paulo Coelho nunca quis falar com ele nem retaliar a sua detenção, situação de que ninguém entendeu o porquê. Mas facultou o referido baú a Fernando Morais..E o que este vai descobrir faz que toda a sua investigação anterior, que já ia em duzentas páginas, vá directamente para o caixote do lixo porque era uma inverdade quando comparada com a realidade descoberta..Ainda poderá o leitor desconfiar deste trabalho biográfico, mas vale a pena saber que Fernando Morais e Paulo Coelho são amigos e que não deixaram de o ser após a publicação de O Mago. Parece que Paulo Coelho teve alguma dificuldade em assumir a sua própria vida, mas nunca impediu a publicação do volume nem negou nada do que aí estava impresso..Chegados aqui, vale a pena avisar o leitor que admira Paulo Coelho: prepare-se para tudo e mesmo assim não estará pronto para o confronto sobre uma vida de mentiras, embustes, droga, negócios escuros, mau profissionalismo, inveja, burlas e ambição, entre outros aspectos do carácter de Paulo Coelho, aqui revelados. Uma coisa é certa, lê-se como um romance de ficção porque nada disto era passível de se pensar existir na vida de um alquimista da aldrabice a troco do sucesso..ANTES DE LER a biografia, o autor que recentemente atingiu o excepcional número de cem milhões de exemplares vendidos escreveu a Fernando Morais uma carta onde dizia: «Não sei qual será a minha reacção ao ler o que estará escrito ali. Mas na capela que neste momento está diante do meu campo de visão existe uma frase escrita: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Verdade é uma palavra complicada – afinal de contas, em nome dela foram cometidos muitos crimes religiosos, foram declaradas muitas guerras, muitas pessoas foram banidas por aqueles que se dizem justos. Mas uma coisa é certa: quando a verdade é libertadora, não há o que temer. E, no fundo, foi por esta razão que aceitei ter minha biografia escrita: para que eu pudesse descobrir outra face de mim mesmo. E isso me fará sentir mais livre.».CONSCIENTE que iria confrontar-se com uma realidade inóspita, acrescentou nessa carta o seguinte: «Como qualquer escritor, sempre namorei a ideia de uma autobiografia. Mas é impossível escrever sobre si mesmo sem terminar justificando os erros e engrandecendo os acertos – faz parte da natureza humana. Daí a ideia de o seu livro ter sido aceite com tanta rapidez, mesmo sabendo que estou correndo o risco de ver reveladas coisas que, no meu entender, não são necessárias. Porque, se elas fazem parte da minha vida, precisam ver a luz do dia. Daí a minha decisão, de que em muitos momentos ao longo destes três anos eu me arrependi, de abrir os diários que escrevo desde que era adolescente. Mesmo que eu não me reconheça no seu livro, sei que ali está uma parte de mim. Enquanto você me entrevistava, e eu era obrigado a rever certas partes da minha vida, ficava sempre pensando: qual seria o meu destino se eu não tivesse experimentado as coisas que vivi?».TUDO COMEÇA com uma descrição de Paulo Coelho na actualidade: «Indiferente à curiosidade dos demais passageiros, e sempre com o olhar parado no mesmo lugar, ergue os dedos indicador e o médio da mão direita, como se estivesse abençoando, e fica estático por instantes. Quando se levanta para tirar do bagageiro a mochila, com o avião parado, dá para ver que está todo de preto – coturno de lona, calça jeans, camiseta, tudo preto. Alguém já disse que, não fosse pelo brilho malicioso do olhar, ele poderia ser confundido com um padre. Por um detalhe de seu paletó de lã, igualmente preto, os passageiros – os franceses, pelo menos – percebem que o colega de viagem não é um mortal comum: preso à lapela, o minúsculo broche de ouro esmaltado em vermelho, pouco maior que um microchip de computador, revela ao gentio que seu portador é um Chevalier da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais alta e cobiçada condecoração da França, criada em 1802 por Napoleão Bonaparte e só concedida por decreto pessoal do presidente da República. A comenda, atribuída ao escritor por determinação de Jacques Chirac, porém, não é o seu único sinal exterior de singularidade.».Depois, conta um pormenor de como o autor lida com a fama: «Ao cruzar a vidraça depois de passar pela alfândega, descobre, visivelmente desapontado, que o seu nome não está em nenhuma das placas exibidas pelos motoristas e agentes de turismo à espera dos passageiros daquele voo. E, mais grave, também não estão à sua espera fotógrafos, repórteres ou câmaras de tevê. Não há ninguém.».Não era bem assim, os jornalistas e fãs estavam noutro lugar. Paulo Coelho sossega o ego: «Desliga sem se despedir, apaga o toco de cigarro numa lixeira, começa a fumar um terceiro e anda de um lado para outro com ar desolado. Já se passaram 15 intermináveis minutos desde o desembarque quando ele ouve um tropel familiar. Vira-se para o lado de onde vem o ruído e seus olhos se iluminam. Um enorme sorriso aparece em seu rosto. O motivo da alegria está a poucos metros dali: uma matilha de repórteres, fotógrafos, cameramen e paparazzi corre em sua direcção e grita seu nome, quase todos de microfone e gravador em punho. Atrás deles vem um grupo mais numeroso, os fãs.».NA VIAGEM seguinte depara-se com outra demonstração do seu poder de ilusão literária: «Quando o aparelho termina a descolagem, uma jovem e linda negra de cabelos repartidos em mil trancinhas aproxima-se dele, levando nas mãos um exemplar de O Diário de Um Mago em português. É Patrícia, secretária da maior celebridade de Cabo Verde, a cantora Cesária Évora. Com o característico sotaque dos antigos colonos portugueses da África, ela pede um autógrafo: – Não é para mim, é para a Cesária, que está sentada ali atrás. Ela é sua fã, mas é muito tímida.».E agradece a quem o ajudou: «Como milhões de seus compatriotas, Paulo também tinha um pedido a fazer, e não era pequeno. Ajoelhou-se no pequeno altar lateral, onde está exposta a imagem do Menino, fez uma oração e murmurou de forma inaudível até para Christina, que estava ao lado: – Eu quero ser um escritor lido e respeitado no mundo inteiro. Sim, ele sabia que era um pedido e tanto, e que o pagamento tinha de ser à altura. Enquanto rezava, condoeu-se das vestes comidas por traças que cobriam a imagem – cópias da túnica e do manto tecidos pelas mãos da princesa Policena Lobkowitz, em 1620, para a primeira imagem de que se tem notícia do Menino Jesus de Praga..«Sempre sussurrando, prometeu o que, na hora, lhe pareceu mais grandioso: – No dia em que for um escritor lido e respeitado no mundo inteiro, volto aqui e trago um manto bordado com fios de ouro para cobrir o seu corpo..«A proposta de blitzkrieg era um pretexto para o verdadeiro motivo da sua viagem a Praga: quase três décadas depois, ele ia afinal pagar a graça alcançada.».A SUA VIDA enquanto está fora dos eventos de promoção é quase normal: «Pela rotina da casa, uma tarde da semana é reservada à leitura da correspondência em papel. A cada sete dias ele recebe pelo correio os volumes vindos do seu escritório no Brasil e da Sant Jordi, em Barcelona. Empilhados sobre uma mesa no gramado do jardim, os pacotes são abertos com um canivete de cabo de osso e as cartas organizadas em montinhos, separados por tamanho. De vez em quando o silêncio é interrompido pelo mugido de uma vaca ou pelo ruído distante de um tractor.».Apesar de a sua juventude ter sido recheada de pormenores pouco recomendáveis: «Até escrever O Diário de Um Mago, porém, o garoto magricela criado nos bairros do Botafogo e da Gávea, no Rio, percorreria uma trajectória mirabolante. Aluno rebelde e relapso, sob os rigores de um pai severíssimo e implacável, acabou sendo internado à força por três vezes num hospício, e submetido a brutais sessões de electrochoques..Confuso com a sua própria identidade sexual, tomou a iniciativa de ir para a cama com homens, para só então decidir que aquele não era o seu caminho. O jovem com tantas dificuldades para lidar com as mulheres na adolescência daria lugar, depois de adulto, a um coleccionador de conquistas amorosas – algumas das quais transbordariam para os media. Fez de tudo nesse terreno, como participar de orgias e praticar sexo com uma garota num cemitério.».A FREQUÊNCIA de um colégio católico onde ouviu os ensinamentos do padre João Baptista Ruffier tentou levá-lo para o bom caminho: «– Vocês estão aqui como máquinas que vão para a revisão. Procurem desmontar-se peça por peça. Não tenham medo de ver a sujeira que ficará. O mais importante é que remontem cada peça no lugar certo, com a mais absoluta honestidade. O sermão durou quase uma hora, mas foram essas primeiras palavras que ficaram repicando o dia todo na cabeça de Paulo, que passou a tarde solitário, caminhando no meio do bosque ao redor da casa. À noite, anotou no caderno: “Revi todos os meus pensamentos dos últimos dias e estou pronto para corrigir-me.” Rezou uma ave-maria, um pai-nosso e caiu no sono.».Os pais acordaram a tempo para o futuro de Paulo Coelho: «Pedro e Lygia voltaram arrasados para casa. Sabiam que o filho fumava escondido, com frequência o hálito dele denunciava o consumo de bebida alcoólica e alguns parentes chegaram a queixar-se de que Paulo estava virando um mau exemplo. “Esse garoto é uma ameaça”, cochichavam as tias, “vai acabar desencaminhando todos os primos mais jovens”.».E tentaram corrigir: «– Se eu vim aqui fazer exames da asma, por que reservaram um quarto para mim? Pedro não abriu a boca e Lygia tentou ser delicada ao explicar ao filho que ele estava sendo internado num hospício: – Você não vai mais à escola, não dorme em casa. Saiu do Santo Inácio para não ser jubilado e acabou reprovado no Andrews. Depois teve o atropelamento do garoto em Araruama....«O pai falou pela primeira vez: – Agora você passou da conta. Falsificar uma assinatura, como você fez comigo não é mais travessura, é crime.».Mas recuperou, apaixonou-se e exigiu provas de amor: «Perseguido pela insegurança e movido por um traço certamente doentio, deu um ultimato à namorada: – Eu não consigo acreditar que uma mulher com a sua beleza, o seu charme, com essas roupas tão lindas, possa estar apaixonada por mim. Preciso de uma prova de que você me ama de verdade..«Fabíola respondeu com um “pode pedir o que quiser” tão firme que ele se encheu de coragem e propôs: – Se você me ama mesmo, deixe que eu apague este cigarro na sua coxa. Sem chorar.».OUTRA MULHER financiou e montou uma peça teatral: «Junto com o convite e o programa, jornalistas e críticos receberam um press release escrito em linguagem pretensiosa e hermética, mas que dava uma ideia do que seria a encenação de O Apocalipse. “A peça é um retrato do momento actual, da crise da existência humana, que perde todas as suas características individuais em favor de uma massificação mais cómoda, por ser dogmatizadora do pensamento”, dizia o texto de divulgação, que prosseguia sempre no mesmo tom incompreensível: “O Apocalipse é uma transcendência do presente tentando uma revalorização total dos arcaicos conceitos actuais. Segue uma linha evolutiva, partindo do clássico e chegando até uma forma de linguagem que atinge mais o sentimento que a razão.” E prometia, por fim, a grande revolução da dramaturgia moderna: a abolição total dos personagens, “permitindo que o trabalho do actor se circunscreva à pessoa que interpreta”.».E experimentou as novidades: «Definitivamente livre do controlo paterno, convertera-se em um legítimo hippie, alguém que não apenas se vestia e se comportava como tal, mas pensava como hippie. Deixara de ser comunista, sem nunca ter sido, ao receber em público um sermão de um militante do PCB por afirmar que adorara o filme Os Guarda-Chuvas do Amor – musical francês estrelado por Catherine Deneuve. Com a mesma ligeireza com que transitara do cristianismo dos jesuítas para o marxismo, agora era um devoto da insurreição hippie que campeava pelo mundo. “Esta será a última revolução da humanidade”, escreveu no diário. “O comunismo é passado, nasce uma nova irmandade, o misticismo penetra na arte, a droga é alimento essencial. Quando Cristo consagrou o vinho, consagrou a droga. A droga é um vinho de cepa superior.”».E os esoterismos que o vão marcar para toda a vida: «Em meio a essa salada de temas, períodos e autores, um género parecia começar a despertar o interesse de Paulo: os livros que tratavam de ocultismo, bruxaria, satanismo. Desde que pusera os olhos em Alquimia Secreta dos Homens, um livrinho escrito pelo bruxo espanhol José Ramón Molinero, tornara-se um devorador de tudo que dissesse respeito ao mundo intangível pelos sentidos humanos. Quando terminou a leitura de O Despertar dos Mágicos, best seller mundial do realismo mágico escrito pelo belga Louis Pauwels e pelo franco-ucraniano Jacques Bergier, ele já se sentia um membro dessa nova tribo.».Tal como uma forma especial de fazer jornalismo: «Sem nunca ser destacado para coberturas de maior relevância, passou a sair todos os dias à rua tal como os demais repórteres, sobre os quais parecia ter sempre uma vantagem: quase nunca voltava para a redacção de mãos abanando. O que os seus chefes não sabiam é que quando não encontrava entrevistados para cumprir as pautas, ele simplesmente inventava as reportagens – com todos os factos, depoimentos e personagens saídos da sua imaginação.».ATÉ QUE CHEGA ao primeiro degrau da inspiração para se tornar no Paulo Coelho que se conhece: «O que se passou nos minutos seguintes é algo que permaneceria para sempre coberto de mistério – alimentado sobretudo pelo personagem central, que, nas poucas vezes em que foi instado a esmiuçar publicamente o ocorrido, se emocionou a ponto de chorar copiosamente. Estávamos no meio de um campo de concentração, eu e a minha mulher, sozinhos, sozinhos, sem mais uma puta vivalma por perto! Nesse momento eu entendi o sinal: senti que os sinos da capela estavam dobrando por mim. Aí eu tive a epifania.».Segundo ele, a revelação de Dachau materializou-se na forma de um facho de luz sob o qual um ser de aparência humana pareceu ter-lhe dito algo sobre a possibilidade de um reencontro dali a dois meses. Não seria uma voz humana, mas, como afirma Paulo, «uma comunicação de almas»..E que sofre com o sucesso devido à indiferença da crítica: «A despeito da acidez da crítica, um ano depois de lançado, Brida tinha tirado 58 edições e continuava na cabeça de todas as listas com uma vendagem que, somada à dos livros anteriores, beirava o primeiro milhão de cópias, um marco que pouquíssimos autores brasileiros tinham conseguido atingir até então.».Referências lusitanas.Os leitores portugueses vão encontrar várias referências ao nosso país e até a personalidades nacionais. É em Lisboa que, através de um acto de beneficência, Paulo Coelho começa a sua regeneração espiritual. Teve como inspiração para as suas explorações astrológicas o mesmo astrólogo, Aleister Crowley, que ensinou a Fernando Pessoa os meandros desta «ciência». O Mago é uma biografia arrepiante mas muito bem escrita. Daquelas que dão significado a este género literário de investigação.