Pássaros na política

A nova ministra do Ambiente chama-se Dulce Pássaro, o que pode ser considerado um bom presságio para alguns dos elementos da nossa fauna, nomeadamente para os seus supostos parentes alados. Como não será muito correcto referirmo-nos a alguém sem conhecer bem a sua família, proponho agora apresentá-la… Ou antes, apresentar a sua ordem, já que é disso que se trata como abaixo se verá.<br />
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Nas conversas do nosso dia-a-dia é costume cometermos uma imprecisão já que frequentemente nos referimos a todos os animais com penas e asas como sendo pássaros. Na verdade deveríamos chamar «aves» a este grande grupo ou «classe» e limitar a designação de pássaro aos membros de um clube mais restrito, os «passeriformes», que passo a descrever.
Para muito provável satisfação da sra. ministra devemos começar por dizer que os pássaros são considerados as aves mais avançadas dentro da sua classe. Esta é também a ordem que apresenta maior diversidade e maior número de sócios – cerca de 5400 espécies diferentes segundo o último recenseamento, o que corresponde a mais de metade das aves conhecidas no nosso planeta. Ou seja, a Dra. Dulce tem muitos, muitos primos.
A palavra «passeriforme» tem origem num dos seus membros mais emblemáticos, o pardal-comum, que foi baptizado pelo pai da taxonomia (Carl Linnaeus) como Passer domesticus. Para além destes e da senhora ministra, estão registadas neste grande clube outras aves famosas como o canário, o melro, a gralha, a andorinha ou o pintassilgo. É neste grupo que encontramos algumas das aves mais comuns, confiantes, destemidas e facilmente observáveis do nosso planeta, e a esta lista de características gostaríamos de juntar a de perseverante e mesmo a de teimosia, já que só assim poderemos manter a esperança de que o ambiente deixará de ser visto como o parente (muito) pobre da política e da governação portuguesas.
Os passeriformes encontram-se por todo o planeta excepto à volta dos pólos. Comparado com os membros das outras ordens são relativamente pequenos, sendo que os membros maiores são os corvos.
Como se poderá adivinhar, os critérios de admissão a esta ordem não são complicados, mas são relativamente rígidos. Por exemplo, todos os candidatos têm de possuir quatro dedos em cada pata, todos ao mesmo nível e com três virados para a frente e um para trás. Esta característica morfológica permite-lhes fechar eficientemente os dedos à volta de objectos e por isso ganharam a designação de «aves de poleiro». Mas atenção, o facto de serem muito eficazes a manter-se no poleiro não garante estabilidade infinita no governo.
O critério seguinte é terem uma seringe (órgão das aves responsável pelo canto) muito bem desenvolvida, o que proporciona uma voz eficiente e um discurso fluente. Esta faculdade, muito apreciada pelos políticos, garantiu-lhes o epíteto de «aves canoras», se bem que, na verdade não seja nem imprescindível nem exclusiva ao grupo. Nos próximos tempos veremos se a eloquência da ministra Dulce confirma esta qualidade.
Agora que estamos convenientemente apresentados acho que podemos passar ao período de requerimentos, ou seja, a listagem daquilo que os parentes e outros amigos esperam desta ministra. Deste pássaro espera-se que consiga enfrentar com coragem e veemência as medidas economicistas dos grandes falcões, que a longo prazo vão deixar este país mais pobre. É preciso que não se deixe impressionar pelos argumentos falaciosos que acompanham os PIN e que tendem a colocar em pratos opostos da balança a defesa do nosso património natural e o desenvolvimento económico dando a ideia de que não se pode ter ambos. Por favor, sra. ministra, não se deixe apanhar pela chantagem do desemprego que se resolve à custa de campos de golfe, marinas e aparthotéis mesmo no meio das mais importantes áreas da REN! Não consinta a destruição dos preciosos montes de sobro em troca de shoppings e estádios de futebol.
Não deixe a sua razão ser encadeada pelo brilho postiço do nuclear ou pela proliferação insensata das barragens, apresentadas como as únicas soluções para os nossos problemas energéticos. Certezas e estupidezes parecidas criaram esta nossa velhinha dependência dos combustíveis fósseis e o problema do aquecimento global. Tivessem os ministros do Ambiente do século passado (e terá alguns bem perto de si) apostado na investigação e investimento em alternativas energéticas renováveis e teríamos agora o problema resolvido.
E finalmente, reserve uns momentos de consideração pelas espécies que fazem um esforço sobre-humano para conseguir sobreviver ao nosso lado. Controle a febre cinegética que está a conduzir tantas espécies para o precipício da extinção, trave a invasão desordenada dos habitats mais frágeis e garanta protecção aos nossos parques e reservas. Reanime aqueles que lutam diariamente pela conservação dos nossos ecossistemas e da nossa fauna, pois nitidamente eles estão muito desanimados. Dê-lhes meios e, principalmente, recupere-lhes o orgulho de trabalhar pela preservação das nossas riquezas naturais.
Se conseguir fazer isto tudo ouvirá de certeza umas palavras de apreço das suas queridas amigas aves canoras.

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