A maioria socialista teve ontem a primeira censura presidencial. A lei da paridade foi o objecto da demarcação política, quebrando uma quase identidade algo perturbadora para alguns sectores que apoiaram a eleição de Cavaco Silva. O veto foi por isso recebido com regozijo pela direita e também pelo Partido Comunista, que igualmente discordava da lei..A decisão do Presidente da República não resulta de qualquer problema formal ou constitucional que a lei comportasse. É um claro gesto político. Cavaco Silva discorda da imposição das quotas nas listas eleitorais, considera excessiva e desproporcionada a proibição de candidaturas que não contemplem pelo menos um terço de indivíduos de cada sexo..Independentemente do que possamos pensar sobre o direito e as vantagens de impor quotas para obrigar a um desejável aumento da participação das mulheres na vida política, a verdade é que a lei da paridade restringia a liberdade de candidatura. Podemos pensar que é necessário forçar a realidade - e é - no sentido de mais rapidamente conseguirmos ter mais mulheres a partilhar o poder político. Mas é dificilmente tolerável que quem democraticamente tenha organizado listas de candidatura segundo qualquer outro critério seja impedido de se submeter ao voto do eleitorado. Esta não é uma questão "instrumental", como ontem o secretário-geral do PS afirmou, tentando desvalorizar o veto presidencial. O cerne do veto coloca-se precisamente na restrição da liberdade de escolha do eleitorado relativamente às listas de candidatos. Se o PS julga que remenda a lei tornando-a apenas menos imperativa vai por mau caminho. Desde logo porque andaria a brincar às quotas. Uma qualquer multa serviria para caricaturar o princípio. É o que acontece com a lei francesa..A paridade no poder político é uma preocupação séria que deve ser incentivada mais do que imposta administrativamente. A questão central da paridade passa pelos "custos de contexto" que a mulher enfrenta quando quer partilhar o poder político. A sua responsabilidade social exige que a montante da actividade política se criem condições mais propícias para que se possa sentir em pé de igualdade e de disponibilidade. De resto, a mulher dispensa paternalismos administrativos..Se o PS quer "acelerar" a mudança cultural e política deve dar o exemplo. Não tem que o impor a qualquer outra força partidária. Já o fez no partido, mas não o fez, sintomaticamente, no Governo. Alguém pensou, por exemplo, em tornar os horários das instituições mais compatíveis com a vida social? A que horas são as reuniões do partido? A promoção da igualdade política passa por aqui.