O filme começa com uma criança, a protagonista, a espreitar um ritual mediúnico. Parece-me que há neste gesto algo primitivo do próprio cinema: uma vontade de ver o que não é suposto. Esta ideia diz-lhe alguma coisa? Diz muito. Essa é a imagem que resume quase todo o pensamento do filme: olhar para o que nos é proibido ver e contar. Pôr os olhos nesses rituais de bruxaria é como entrar num lugar de intimidade que não pode ser contado em público. Durante muitos meses questionei-me se teria legitimidade para trazer ao cinema este tipo de histórias, sobretudo histórias passadas nas aldeias, porque sempre que ouvia falar destas práticas de séances percebia que se tratava de um tabu. Então esse olhar da criança é o meu próprio olhar enquanto realizadora... Há um cineasta muito importante para mim, o [Maurice] Pialat, cuja forma de olhar para a realidade me parece resumir bem a minha obsessão quando faço cinema: tentar olhar para essa realidade sem sentir que estamos a fingir. É preciso entrar nela de forma total..E os olhos da criança possibilitam essa entrada... Quando comecei a escrever o argumento - demorou mais ou menos quatro anos -, durante os dois primeiros, a personagem era uma adolescente, e isso trazia, quase como um encargo, a necessidade de cair nas temáticas do teenage movie, como os amores de verão, o corpo a mudar, etc. Algo que me afastava do assunto principal: a herança mística, a transmissão de saberes entre uma avó e uma menina. O facto de ela ser adolescente impedia-me de traduzir a força do meu tema. E quando decidi pela infância consegui focar-me e entrar, de forma mais orgânica e onírica, naquelas crenças. A infância é o território dos primeiros medos, dos terrores noturnos, muitas vezes um território solitário, ao mesmo tempo que permite o espanto: ver o mundo de um ponto de vista mágico. Uma criança comunica naturalmente com este imaginário, pode inventar mundos e fazer com que o espectador aceite essa dimensão mais esotérica. Com uma adolescente passava a ideia de que ela estava próxima da loucura, de um distúrbio mental. Não queria nada disso. E depois, como realizadora, preciso de alimentar a minha parte infantil, porque contar histórias e fazer filmes estabelece uma ligação com algo primitivo e arcaico da humanidade..Se inicialmente a personagem era uma adolescente, isso quer dizer que a sua filha, Lua Michel, foi uma escolha mais tardia. É muito curioso... As premissas deste projeto surgiram-me quando eu estava grávida da Lua Michel, há 10 anos! Andava a pensar nas coisas mais biográficas, que no filme são as discussões familiares à volta da defunta... Os anos passaram, e quando comecei à procura de uma menina de 11 anos, alguém que falasse francês e português, dei-me conta de que são muito poucas as crianças dessa geração, filhas de emigrantes, que falam português. A língua já não se transmite de forma natural... Isso criou um impasse. Entretanto, a minha filha entrou numa curta [Palma] de outra realizadora amiga, que teve bastante sucesso - houve ali um reconhecimento dela como atriz -, e certo dia a diretora de casting perguntou-me porque é que eu não a escolhia. Nunca imaginei tal hipótese! Ainda mais tratando-se de um papel principal. Mas, então, arranjei maneira de a filmar sem ela saber que estava a ser avaliada, e só depois de olhar para as imagens é que percebi que estava tudo ali... Ela ficou super contente..Há aqui uma correspondência clara entre a bruxaria e a independência feminina. No fundo, abordar a primeira foi uma forma de chegar à expressão dessa independência no contexto de uma aldeia? A minha vontade mais intuitiva foi fazer retratos de mulheres de várias gerações que estão a querer emancipar-se num meio fechado, como é o das aldeias. São mulheres inspiradas noutras que conheci. É certo que na história já havia uma avó com capacidades mediúnicas ligadas à bruxaria, mas demorei algum tempo a assumir esse assunto. Como referi há pouco, não conseguia autorizar-me a entrar por ali... Ouvi aquelas histórias desde pequena, mas, ao mesmo tempo que me fascinavam, também metiam medo. Quer dizer, quando nos aproximamos desse tipo de crenças ou de práticas também podemos entrar em contacto com forças obscuras, podemos ser apanhados por elas. É o que acontece com a Salomé....Acredita nessas forças? Eu não posso contar aquilo em que não acredito. Ser artista é acreditar nas nossas personagens e nas nossas histórias. Foi muito importante, nesse aspeto, ter um coargumentista, Laurent Lunetta, que me ajudou a assumir o tema. Depois veio a relação com uma certa literatura feminista - Sorcières, de Mona Chollet -, e comecei a compreender melhor a função da chamada bruxa da aldeia. Isso foi essencial para um filme que não se pode dizer que seja feminista no sentido da militância, mas que contempla aquelas mulheres que ainda hoje são marginalizadas pela sua independência: viúvas que arranjam outros homens, mães solteiras que criam os filhos sozinhas, ou seja, mulheres que não correspondem ao destino que a sociedade lhes determinou..Um dos aspetos mais vigorosos do filme é o lado castiço da interação humana, uma rudeza misturada com afeto, que é muito visível no embate dos corpos, entre o trágico e o patético. Como é que trabalhou isso com uma maioria de atores não profissionais? Queria muito apontar essas contradições humanas. Estamos perante uma família que se ama com palavrões e abraços, que vive numa espécie de western constante com os vizinhos e dentro de casa. Essa dualidade das emoções estava nas minhas notas de trabalho, e mesmo a dualidade de géneros - comédia e tragédia - é qualquer coisa que tem que ver com a minha paixão pelo teatro. Alcançar os objetivos é que era mais complexo... Não foi bem pelo argumento que o conseguimos, mas pelas pessoas escolhidas e o seu acompanhamento; não gosto do termo "direção de atores". O mais relevante neste processo foi ter misturado atores profissionais com os não profissionais. A Ana Padrão e a Jacqueline Corado foram peças indispensáveis, com o seu carinho e paciência em relação aos não profissionais que, por sua vez, trouxeram a espontaneidade necessária, uma energia do momento: eles têm a inteligência do presente. Depois há aquilo que chamo de "milagre do olhar". Esses atores, depois de uma confiança estabelecida, quando sentem que há sobre eles um olhar com desejo de cinema, transformam-se! Por exemplo, estou a pensar na avó, a Ester Catalão, que, uns dias antes de começarmos a filmar, veio ter comigo dizendo que tinha uma surpresa para mim: fez uma tatuagem de propósito, aos 70 anos! Ela já sabia que os seios iam ser a sua potência no filme, e estava tão orgulhosa de poder mostrá-los, como gesto de força feminina, que se apresentou com este brinde..É muito bonito e possante o plano em que ela tem o peito exposto, enquanto está a ser lavada pela filha [Ana Padrão]... Isto foi uma prova de generosidade. Os atores profissionais são assim, dão tudo o que podem ao filme..As suas curtas anteriores [Sol Branco, Campo de Víboras e Herói Invisível] traçaram um caminho até Alma Viva. Chegada a este ponto, quer continuar a filmar a realidade "tocada" pelo invisível? Não sei se vou voltar a temas propriamente esotéricos, ligados ao misticismo, como o Alma Viva, mas com certeza que sim. Para mim, fazer cinema passará sempre por conjugar realidade e imaginário, dar uma certa visão do invisível: estar a cem por cento na realidade, nas suas situações ordinárias, e tentar dar a impulsão para que o extraordinário, o maravilhoso possa manifestar-se..Enquanto luso-francesa, o que é que a fez querer filmar até agora em Portugal, e de modo particular, em Trás-os-Montes? Espero um dia fazer filmes em França, e noutros países, mas o que quis primeiro foi perceber melhor a minha identidade portuguesa. Os meus pais emigraram nos anos 70, eu nasci em França, e sempre senti no meu pai uma certa culpa de ter fugido à guerra colonial. Daí eu ter começado o percurso de cinema em Cabo Verde e Angola... O que me trouxe a Portugal, para fazer as curtas, foi mesmo uma região, Trás-os-Montes, e a morte da minha avó. Costumo dizer que os mortos fazem dos vivos criadores de histórias..Como é que reagiu à escolha de Alma Viva como candidato de Portugal à nomeação para os Óscares? Para mim, o mais importante é o filme existir e poder ficar para várias gerações. Sempre achei que essa era a magia do cinema, poder parar o tempo no momento certo, que é o momento do filme. O resto é acessório... Mas, claro, eu não estava nada a contar com esta escolha. E talvez pelo facto de ser luso-francesa sinto uma certa dificuldade em "existir" no meio do cinema português, um meio também elitista, a que tive acesso através das curtas, mas não me sinto completamente legítima. Em parte porque tenho as memórias do complexo de inferioridade dos meus pais, aquela coisa de ter de fazer tudo melhor que os franceses, neste caso aplicado ao meio português. E sendo assim, é um grande reconhecimento, sobretudo com uma história de emigrantes. Sinto muito orgulho. Agora, ser nomeada ou não para os Óscares... seria uma loucura!