Para lá do fio da navalha

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A frase Rest in Peace, niggs é o epitáfio escolhido para os jovens da Cova da Moura que viveram no fio da navalha e acabaram por tombar para o lado errado Angói, Cuca, Americano, Ozerbadas, Pibox, Kabalo, Celé, Nelson e Garibaldi. Estão imortalizados num memorial à dimensão local: um pilar junto ao café Palhota, ponto de encontro dos mais novos. Mas o bairro tem outras vidas, outras histórias, que o Projecto Sabura pretende dar a conhecer em visitas turísticas.

O lado de cá do fio do bairro da Cova da Moura, um morro entre a Buraca e a Damaia (Amadora), tem imigrantes que trabalham de sol a sol na construção civil (os homens) ou em serviços domésticos e limpezas (as mulheres). Tem pessoas empenhadas em actividades associativas, como a Associação Cultural Moinho da Juventude, a Igreja da Buraca, a Santa Casa da Misericórdia e o Clube Desportivo da Cova da Moura, entre outros. Tem a azáfama de um qualquer bairro da periferia - mas com grandes diferenças.

As pessoas começam a sair mais cedo de casa. As crianças espalham-se pelas ruas depois das aulas. Os adolescentes, jovens e inactivos surgem em pequenos grupos, já o Sol vai alto. Por isso, às 10.00 de um dia de semana, a Cova da Moura transmite uma paz quase conventual. É um bairro clandestino, com poucas ruas alcatroadas, mas aparentemente com melhores condições que outros idênticos, como 6 de Maio e o Estrela de África (Damaia de Baixo).

As ruas são largas e há vivendas de rés-do-chão e primeiro andar, decoradas com azulejos e jardins, ao lado de paralelepípedos de cimento, cubículos de tijolo, habitações inacabadas. Uma mistura desordenada de gostos e de meios, revelando as origens geográficas dos residentes.

Os primeiros moradores chegaram na década de 60, migrantes do Centro e Norte do País que ali encontraram terra, tratando-a como se fosse de ninguém (o terreno é privado, com uma pequena parcela da Câmara da Amadora). Construíam as casas ao fim-de-semana e durante a noite colocavam cortinas, cama e mesa, fingindo que há muito eram habitadas. Procuravam evitar que as autoridades as reduzissem a tijolo e cimento. Muitas foram abaixo, e logo a seguir de novo erguidas.

Migrantes. "Moro naquela casinha há 26 anos. É aquela com flores, que diz 'Vivenda Cerdeira'. Quando a construí havia duas ou três casas. Era um sossego, agora é um inferno, mas é mais lá para cima. Aqui, na Rua do Alecrim, é calmo", conta Maria de Lurdes, da Sertã (Castelo Branco), empregada de limpeza.

Muitas outras casas foram surgindo e, àquela rua com nome europeu e cheiro a flores, juntaram-se outras com dizeres e sabores africanos. Após o 25 de Abril, e com a independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), o bairro recebeu alguns dos portugueses desprovidos de meios que lá viviam, em especial em Angola e Moçambique. Por último, vieram os naturais desses países, fustigados pela guerra e pela pobreza.

Estávamos na década de 80 e os oriundos de Cabo Verde foram os primeiros imigrantes a chegar em massa a Portugal, espalhando-se preferencialmente pelos bairros clandestinos da Amadora. Aqui construíram a maior cidade cabo- -verdiana no estrangeiro, estimando-se que sejam 20 mil os residentes, mas este é um valor subavaliado.

Aquela imigração mudou a face do País e, tal como a emigração, fez--se de laços familiares e de entreajuda, em que o amigo chama o amigo. Além disso, ainda hoje um negro tem dificuldade em alugar ou comprar casa, e muito mais quando não está legal. A Cova da Moura era o poiso inicial em Portugal que se transformou em permanente.

As habitações foram ampliadas à medida que a família crescia, os proprietários percebiam que o aluguer era boa fonte de rendimentos ou havia dinheiro para montar um negócio um café/restaurante, uma mercearia ou um cabelei- reiro. Os estabelecimentos começaram com nomes portugueses (Montanha), agora na maioria são africanos, em português ou crioulo (Flor África, Sanzala, Di nos, Afrolídia), e as ruas chamam-se Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Ilha Brava, São Nicolau...

"É tudo legal, pago contribuição à Câmara e tenho um projecto com as medições. Só o terreno é que não é meu. A casinha é muito boa - dois quartos, sala, cozinha, casa-de-banho, dispensa e uma varandinha para trás. É no sítio mais calmo do bairro, só tem aqui um café ao lado." Assim apresenta Dona Elisa a sua casa, um rés-do-chão que vende por 25 mil euros. Não pode fazer escritura, "mas a palavra das pessoas tem muito valor". Vive no bairro há 15 anos e quer regressar à Guarda.

Há sempre quartos e casas para alugar, variando entre 150/200 euros por mês (quarto) e 300 euros mensais (duas assoalhadas). Muitas delas foram recentemente habitadas por imigrantes da Europa do Leste.

Oficialmente vivem no bairro sete mil pessoas, 5500 das quais oriundas de Cabo Verde, chegadas depois de 1977. As casas têm saneamento básico desde 1992 e há estabelecimentos comerciais que cobrem praticamente todas as necessidades dos residentes. "Vivo num condomínio", ironiza Heidir Correia, um dos responsáveis pelo Projecto Sabura e "guia turístico" da Cova da Moura.

Estudantes. Sabura é uma palavra em crioulo que quer dizer prazer, gosto, para que os não residentes aprendam a apreciar o bairro. O projecto começou há um ano e a "visita turística" de um dia custa 12,5 euros, com almoço (cachupa, feijão-congo ou pedra, uma espécie de feijoada com carne e legumes). Visitam-se os cabeleireiros afro-look , as instalações e a quinta pedagógica do Moinho da Juventude, apreciam-se os graffiti, as danças e músicas africanas. O dia termina com a confecção de roscas e cuscuz para o lanche.

"Aqui, um outro mundo é possível se a gente quiser." É a frase de apresentação do projecto Sabura, que tem interessado sobretudo a universitários das áreas da Sociologia, Antropologia ou Política Social, como os que integraram a visita que o DN acompanhou 12 alunas e um aluno dos 2.º e 3.º anos de Política Social do Instituto Superior de Ciências Políticas e Sociais (ISCPS).

"O bairro tem uma imagem negativa, de violência, e era interessante ver a outra perspectiva." "Gostaríamos de trabalhar numa associação como o Moinho da Juven- tude", justificam os jovens.

Percebe-se o interesse, a associação faz um trabalho de gigante. Dinamiza o núcleo de apoio aos moradores; uma biblioteca, acções de prevenção do VIH/sida e da violência, cursos de alfabetização e de formação profissional, estes últimos com equivalência ao 9.º ano. Promove o projecto O Pulo (seis pais do bairro que acompanham ao domicílio 86 famílias), acompanha mães adolescentes, jovens (Espaço Jovem e Ninhos dos Jovens) e faz apoio escolar.

O agregado familiar do bairro possui, em média, 4,3 pessoas e há sempre falta de apoios para as crianças. Criaram a Árvore, uma creche aberta entre as 06.00 e as 20.00 e, para 60 meninos, um jardim de infância com 65 lugares, o ATL e colónias de férias, além de formarem 12 amas que acolhem quatro crianças cada.

Mas a preocupação maior são os jovens que o insucesso escolar atira para as ruas e a marginalidade 50% dos habitantes da Cova Moura têm menos de 20 anos. A associação fundou o núcleo Bem Passa Kú Nos (formação para adolescentes), os grupos de dança Ta Kai Ta Rábida e de batuque Finka Pé e os Kolá Son Jon. Têm nove equipas federadas.

Contrariedades. Uma bola faz as delícias de muitos jovens e o desporto é uma aprendizagem de regras de convivência em grupo, mas as modalidades federadas têm um problema uma equipa só pode ter dois estrangeiros, mesmo as de infantis. Desde 1983, ano em que mudaram as regras da nacionalidade, os filhos de imigrantes são estrangeiros, o que fecha as portas a muitos jovens. "Ainda compreendia que a imposição fosse para os que têm mais de 18 anos, porque já podem pedir a nacionalidade, mas nas idades anteriores não faz sentido. Acabam marginalizados", protesta Lieve Meersschaert ( ver entrevista).

As crianças, jovens e adultos do Moinho da Juventude são convidados para muitas acções culturais e desportivas. Ainda recentemente o grupo de batuque Finka Pé actuou na Escola Gil Vicente, em Lisboa, mas, lamentava a mediadora, "não houve um lanche, nem uma água!".

Heidir Correia, que dinamiza o Espaço Jovem, esforça-se por realçar as maravilhas da Cova da Moura. "Todos se dão bem, há brancos que falam crioulo como eu", diz, mas reconhece que nem tudo é um mar de rosas. Garante que os culpados pela imagem negativa não vivem no bairro e as autoridades também têm culpa. "Vocês têm uma ideia da polícia. Nós temos outra."

As opiniões divergem e as grades nas janelas demonstram preocupações. "O bairro está melhor desde que a polícia faz as rusgas. Passam, brincam. Não fazem mal, nós também não", elogia Maria Filomena, 51 anos, empregada de limpeza, cinco filhos entre os oito e 20 anos. Ela e mais duas mulheres, sentadas em frente da taberna/mercearia Ginga Pinga, tomam conta de duas dúzias de linguiças penduradas numa cana. Está sol e os enchidos secam ao ar.

É na Rua Principal que dizem centrar-se os maiores problemas, uma artéria que atravessa o bairro e tem duas das quatro entradas locais. As pessoas aglomeram-se ao ritmo do passar das horas. Atentos, ociosos, perdem-se nos becos. E há quem apregoe, por mera provocação "Aqui vende-se droga!"

'Bronx português'. Raros são os filhos do bairro que completam o ensino obrigatório. Falta-lhes capital cultural, apoio permanente dos pais, condições para estudar em casa e um ensino que contemple as suas especificidades. E, como não querem ter o destino dos pais - operários nas limpezas ou construção civil -, vão-se arrastando pelas ruas.

As alternativas são as acções profissionais e com equivalência ao 9.º ano, como o curso Acompanhamento de Crianças, no Moinho da Juventude, que dura 15 meses mais estágio. A acção está no início e os 12 formandos, entre os 19 e 35 anos, fazem o levantamento de competências. "Para adequar o plano curricular às pessoas que frequentam o curso", explica Ana Cláudia, a psicóloga coordenadora da formação.

Heidir e muitos outros jovens do bairro sonham transformar a Cova da Moura no Bronx (berço americano de um certo estilo musical) português. Os potenciais cantores de rap já existem e há a promessa de fundos comunitários para a construção de um estúdio de gravação.

Os graffiti são outra das jóias locais, expostos em murais pintados pelo trio maravilha, os WC (World Complex) Oeith, Che e Tazy (este de apenas 15 anos). Uma arte, por vezes a três dimensões, e que, tal como a música, espelha os protestos juvenis. "Com ou sem apoios públicos", lê-se nas pinturas de um muro da Escola Secundária D. João V.

A visita chega ao fim e os "turistas" passeiam despreocupados no bairro. Os que confessaram ter levado o indispensável na mala já a poisam sem espreitar quem está à volta. Há cabeleiras que vão ficar às trancinhas por 15 euros. Há promessas de aparecer na festa de Kola San Jon, a 18 de Junho, com debate, dança, música, cachupa e um torneio de futebol com a PSP.

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