Para continuar uma paixão pela rádio

Em 2009 desapareceu uma voz ímpar da rádio portuguesa, António Sérgio. A sua mulher,  que recentemente reeditou uma biografia  sobre os Xutos &amp; Pontapés, falou ao DN sobre  o radialista e os 30 anos em que o acompanhou.<br />
Publicado a: 
Atualizado a: 

Ana Cristina Ferrão acompanhou durante 30 anos a vida daquele a quem muitos chamam ainda de "Mestre". António Sérgio, uma referência maior na rádio e na música portuguesa, foi um pioneiro com a sua assinatura em programas como o Som da Frente ou A Hora do Lobo, nos quais sempre defendeu "o direito à diferença". É também esse direito que Ana Cristina Ferrão chama para si nesta etapa naturalmente difícil: "Falar do Sérgio é uma festa, as boas memórias e as aventuras que passámos com ele, é isso que é realmente relevante e é isso que temos de lembrar. Este é também um direito à diferença, sermos pioneiros na forma como encaramos as coisas", disse a também radialista no final da conversa com o DN.

Actualmente trabalha em consultadoria informática: "A rádio, faço porque gosto, tal como escrevo livros porque gosto." Em 1990 escreveu Conta-me Histórias, uma biografia dos Xutos & Pontapés que foi este ano reeditada, e, na mesma década, Nirvana / Kurt Cobain e traduziu Carícias Distantes, biografia de Ian Curtis (vocalista dos Joy Division), escrita pela sua mulher, Deborah Curtis.

A ligação à rádio, no entanto, começou muito antes, devido à relação com António Sérgio: "Comecei a viver com o Sérgio tinha 23 anos e fascinou-me porque via-o a fazer aquilo com um empenho e um fascínio enormes. Foi um mundo que se abriu e houve desde logo uma paixão imediata pelo meio."

Durante os 30 anos em que viveu com o radialista colaborou constantemente nos seus programas, como são disso exemplo Hora do Lobo, Som da Frente ou Grande Delta. E apesar do seu desaparecimento, António Sérgio tinha preparado até Março de 2010 a rubrica diária SOS Radar, que mantinha na Radar. Até essa data será Ana Cristina Ferrão a dar voz ao programa: "Estou agora a escrever os textos dele a ouvir muitos SOS Radar antigos para ganhar aquela forma de dizer as coisas que ele tinha, estou a buscar as referências dele para os ouvintes perceberem que aquilo é algo que está a ser feito em nome dele", contou.

Ana Cristina Ferrão recordou a paixão com que António Sérgio fez os vários programas por que passou. Até mesmo na noite de Natal e na passagem de ano, o radialista falava aos seus ouvintes: "Várias vezes eu e os meus filhos levávamos os brinquedos e passávamos o Natal ou a passagem de ano na rádio. Até chegaram a ir os cães. E ele gostava imenso de fazer o programa nesses dias."

O radialista foi "uma pessoa que lutou sempre pela apresentação de novos músicos, e que tinha ao microfone uma capacidade de comunicação inata". Podia "trabalhar imenso", mas "não pensava muito nas coisas". Daí que a colaboração com Ana Cristina Ferrão na rádio tenha gerado bons frutos: "Eu gosto muito de produção e sou uma pessoa com espírito organizativo, daí que ele se desse bem a trabalhar comigo."

Ana Cristina Ferrão, que dá actualmente voz na Radar ao programa Tira Linhas, lembra várias das "lições" que aprendeu com o marido: "Algo que aprendi ao longo destes 30 anos foi a modéstia e o amor que ele tinha pelo meio, porque ele sempre disse que mesmo quando se faz um programa que não é de autor há sempre a capacidade de fazer algo de autoria, porque sempre que abrimos a boca para falar podemos dizer algo relevante."

Apesar de hoje António Sérgio ser considerado uma referência maior, "nos anos 80 houve muita gente que não o percebeu, por isso há que pôr as coisas em perspectiva", explica. Ana Cristina Ferrão confessou que no futuro "gostava que se mantivessem as emissões dele no ar" e deu uma ideia que, para si, seria uma boa homenagem a António Sérgio: uma bolsa com que se premiasse um estudante de rádio para que pudesse fazer um estágio numa rádio em Portugal ou até mesmo no estrangeiro.

Diário de Notícias
www.dn.pt