Papa está 'sereno' mas há médicos a prever o pior

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"A operação não foi urgente, nem de emergência." Foi com estas palavras que o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls - ele próprio médico psiquiatra, antes de ter escolhido a vida epistolar com a Opus Dei -, se referiu à traqueotomia electiva a que o Sumo Pontífice foi submetido na noite de quarta-feira, pouco depois de ter sido internado de novo em Roma.

"O Papa não acusava nenhuma infecção bronco-pulmonar desde que voltara para o Vaticano, há dez dias", explicou Navarro-Valls, sublinhando, no entanto, que João Paulo II "estava sujeito ao risco de insuficiência respiratória aguda, por causa de uma estenose funcional [aperto] da laringe, que o levava a estar vigiado nos seus aposentos por um médico, pronto a intervir em caso de emergência".

Foi neste tom que o porta-voz do Vaticano se dirigiu ontem aos jornalistas, depois da intervenção cirúrgica de quarta-feira à noite.

"Dizemos que foi electivo porque se tratou de uma decisão tomada depois de o Papa ter tido vários episódios de insuficiência respiratória aguda, com espasmos que lhe provocavam sufocação, devido a esta condição pré-existente" declarou ainda Navarro-Valls. E garantiu que a respiração mecânica nunca foi utilizada e que o Papa respira autonomamente.

"Neste momento já respira muito melhor mas não poderá falar durante alguns dias. Dormiu bem e tomou um bom pequeno-almoço com os seus biscoitos preferidos e café com leite", disse o porta-voz do Vaticano. Mas, apesar da tranquilidade das palavras, percebia-se a comoção no rosto contraído e na voz de Vals, e na sua vontade de tentar dissipar dúvidas sobre o estado de saúde do Papa.

A sua posição não é, no entanto, partilhada pela opinião pública, desta vez muito mais preocupada, nem pela equipa médica, cujo apreensão também é maior do que no início do mês, aquando da primeira hospitalização do Papa. Alguns médicos consideram, inclusivamente, que a alta do hospital terá acontecido antes do tempo.

A crise que agora levou de novo João Paulo II ao hospital terá sido precipitada por um ataque de espasmos na laringe - contracções involuntária dos músculos da laringe, provocadas pela doença de Parkinson - que o impediam de respirar e de se libertar do catarro e ameaçavam sufocá-lo.

Um dos médicos, que exigiu anonimato, explicou que o risco correspondia às complicações da gripe e da doença de Parkinson. Ou seja, "João Paulo II não conseguia engolir nem expectorar, e cada ataque de tosse poderia provocar-lhe um bloqueio respiratório".

"É uma intervenção muito simples, mas, nas condições de saúde do Papa, qualquer coisa pode ter consequências muito graves", afirmou por seu turno Giorgio Ianetti, cirurgião facial da Universidade de Medicina de Roma, sublinhando que "a decisão de uma traqueotomia não é certamente um bom sinal. A doença de Parkinson, depois de todos estes anos, enfraqueceu- -lhe a musculatura, e portanto, também os músculos respiratórios", explicou Ianetti. Nestes casos, o doente perde a força para inspirar e expirar, o que acumula o catarro na traqueia. Com a traqueotomia, a respiração não passa pela boca e vai directamente para os pulmões. "Em alguns casos, o tubo não deve ser retirado e o doente não consegue mais respirar autonomamente. Nesse caso, também não pode mais falar", acrescentou o especialista.

Não foi anunciada nenhuma decisão sobre o Angelus de domingo e o próximo boletim médico está previsto para segunda-feira.

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