Há uma sensação de pânico no ar. Desde a possível saída do Reino Unido da UE e o efeito mimético que pode gerar, entrando nós numa outra União Europeia, mais próxima da desintegração ou pelo menos de uma inversão acentuada no rumo de integração das últimas décadas. Como é que isso se poderá processar? Ninguém sabe. Três dias depois do referendo britânico, Espanha regressa às urnas e Pablo Iglesias foi quem mais popularidade conquistou desde dezembro: a ideia de "venezuelar" a política espanhola é um bom condimento às insónias. Em França, o timing reformista de Manuel Valls estilhaçou o país, o PS e atirou mais um barril de combustível para a fogueira onde Marine Le Pen esfrega as mãos. Se as coisas se mantiverem acesas, as presidenciais do próximo ano descerrarão a lápide da UE. Entretanto, Juncker prova todos os dias por que nunca devia ter saído do Luxemburgo, Erdogan dita as regras europeias sobre imigração e refugiados, e vários líderes de Leste estão mais próximos do estilo de Putin do que da matriz liberal ocidental para onde era suposto encarreirarem. Na Alemanha, com legislativas no outono de 2017, os dois grandes partidos (SPD e CDU) estão hoje abaixo dos 50% nas sondagens, coisa inédita no pós-guerra. A principal clivagem que a Europa atravessa - falência das propostas moderadas e o crescimento dos extremos anti-integração - está longe de ser dirimida. E, ao que parece, nem com os americanos podemos contar para colar os cacos. Nos EUA voltou o protecionismo como bandeira bipartidária. Regressaram os casos nebulosos do passado para descredibilizar ainda mais os candidatos (Obama habituou-nos mal), a desconfiança social acentuou-se e a pulsão nacionalista também. O mundo nunca esteve tão globalizado e interligado, mas os principais Estados parecem querer refugiar-se entre muros. Talvez acordem quando a nova Rota da Seda chinesa lhes bater à porta.