Por estranho que pareça, bendita Ómicron. Evoluiu para se espalhar mais, matando menos. Sempre Darwin. Claro que o melhor era que não houvesse este vírus na comunidade humana, mas as nossas decisões de agressão à biodiversidade têm um risco. E os vírus cá andam - um parasita regulador do ecossistema, a vida em tamanho ínfimo a evoluir à frente dos nossos olhos. Os humanos... esse breve fenómeno na história do planeta..Damos luta. Conseguimos a vacina e a vida está a voltar lentamente ao normal. Entre vacinados e imunizados pela doença, o pneumologista Filipe Froes dizia esta semana que chegaremos em Portugal quase aos oito milhões no final de fevereiro. Ou seja, transformou em números o que muito bem disse em dezembro o nosso melhor cientista nesta crise, Manuel Carmo: não podíamos segurar o tsunami Ómicron com medidas e mais medidas. A China e a sua política de contágio zero é neste momento uma caricatura do que a política pode fazer quando ignora a ciência..Dinamarqueses e ingleses, sempre na frente, abandonam as medidas todas - incluindo as máscaras. Há quem ache que é por terem melhores sistemas de saúde para aguentarem estes tsunamis. Talvez não seja apenas isso (no caso inglês, o NHS é bastante caótico), mas sim a noção clara de que, desta vez, e porque não há uma gravidade extrema, quanto mais depressa a sociedade se imunizar, mais rapidamente pode regressar à vida, ao trabalho, à festa. Sem festa, encontros, concertos, celebrações, de que serve uma vida de trabalho?.E por isso mesmo estivemos muito bem em não encerrar as escolas no meio destes números caóticos de 2022. Com mais ou menos aulas, piores ou melhores computadores, resistir era importante. Só falhamos ao não vacinarmos o máximo de crianças. Isso contribuiu para tornar casos infantis muito mais graves do que seria de esperar, como se torna evidente na comparação entre o esmagador número de crianças não vacinadas internadas versus crianças vacinadas..A teoria de que os pais estavam a pensar mais em si mesmos do que nos filhos andou por muito lado. Os cálculos apontam para que quase metade das crianças não tenha sido vacinada. Muitas destas pessoas eram também as que queriam as escolas abertas a todo o custo em janeiro de 2021, numa altura em que a situação era radicalmente diferente - ainda não tínhamos vacinas e a escola era o corredor de passagem entre filhos de confinados com filhos de não confinados. Manuel Carmo Gomes afastou-se nessa altura das reuniões do Infarmed, porque era a voz sensata que ia contra a corrente. Em consequência disso, fechámos as escolas apenas a 22 de janeiro, com as consequências de mortes conhecidas. Nessa altura - lembram-se? - ainda vigorava a tese de que a covid não era significativa nas crianças. Era mesmo o único vírus que não ia à escola....Chegamos agora ao início de fevereiro, a União Europeia já aconselhou os países a pedirem certificados de vacinação nas fronteiras, em vez de testes, e mesmo assim Portugal ainda não atuou, apesar de 1 de fevereiro ser já na terça-feira. Talvez o Ministério da Saúde o faça amanhã, mas é urgente agir para finalmente a aviação e o turismo poderem funcionar sem tantos sobressaltos..A "pandemia" não acabou no mundo, mas felizmente tem um enorme intervalo à vista por cá. Temos uma população imunizada ou vacinada até ao próximo inverno. Precisamos de acelerar. É certo que há sempre riscos em tudo, mas, como dizia Pessoa, navegar é preciso..Jornalista