Pais felizes

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Os pais andam enganados. Não pelos filhos mas pelos outros pais. É uma espécie de pós-verdade paternal: os pais perdem imenso tempo e dinheiro com coisas que fazem pelos filhos e que não servem para nada só porque os outros pais também as fazem. É o chamado populismo paternal. É preciso, pois, repor a racionalidade e alertar os pais para um dado fundamental: as crianças têm uma memória tipo Dori. Elas esquecem-se de tudo. Caros pais, poupem-se: a criançada não se lembra do que fizemos no verão passado por isso não vale a pena palmilhar quilómetros e gastar rios de dinheiro para lhes mostrar isto e aquilo quando elas apenas se vão lembrar da parte da viagem de carro em que vomitaram. Outro sintoma do populismo, outra pós-verdade paternal, é a guerra, a campanha difamatória, aberta contra a televisão e que faz que nós pais tenhamos a preocupação de arranjar programas alternativos à televisão. Errado. Os programas alternativos à televisão são sempre mais barulhentos, mais dispendiosos e acabam sempre com alguém a limpar, a arrumar e a gritar: nós. A televisão é como o chocolate: em excesso faz mal, mas é uma substância com enormes qualidades emocionais. É preciso ainda que os pais tenham consciência das coisas que os desgastam e não deviam. A comida, por exemplo. Até à data, a medicina não registou qualquer caso de uma criança saudável que tenha padecido de fome com um prato de comida à frente. Ou seja, se as crianças virem televisão e não comerem a sopa não estão em risco de vida. Elas são como nós: às vezes não têm fome. O mesmo com a chucha, as fraldas, o medo do escuro e essas coisas que nos fazem perder horas de sono. É preciso alertar para a evidência de o sono dos pais ser muito mais importante que tudo isso: ninguém vai para escola com chucha ou com fraldas e o medo do escuro é perfeitamente sanável ligando uma luz no quarto. Ide dormir, portanto. Outro mito é o dos programas culturais. O melhor programa cultural para uma criança pequena é saltar e chafurdar na lama e ouvir histórias sem sentido sobre animais. Um concerto de música clássica na Gulbenkian, acreditem, tem o mesmo efeito para os miúdos que tem para nós um debate no Parlamento: é chato que se farta e não nos torna mais cultos. Pelo contrário, revolta. Quanto à escola, é urgente que os pais se protejam da escola. Os pais perdem anos de vida por causa de coisas como a divisão, a leitura dos números por classes, as dinastias, as equações, etc.. É preciso ter muito cuidado e estabelecer um contacto atento mas distante com estas matérias. Se possível, evitá-las. Só assim a felicidade é possível. Longe do populismo.

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