País de caguinchas

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Começaram quando eram muito pequeninos. Nem sabiam dizer estúpido como deve ser: "tupido". Era assim que tratavam os irmãos. "Tupido és tu!". Depois evoluíram. De palavras simples passaram para frases completas, insultos sem insultos. "Não me toques!", "Sai da frente que carne de porco não é transparente"; "Baza antes que leves". Há anos que é assim, férias assim. Depois embrulham-se à pancada, fazem queixas, choram e depois dormem melhor. Pelo caminho envelheço. Entre gritos e castigos tento explicar-lhes que é preciso ter respeito, ser educado, tolerante e aprender a encolher os ombros. A não ouvir: "Não respondam! Não provoquem!" Claro que eles não ouvem. Têm adrenalina e poucos anos, energia a mais e são caguinchas, como dizia a minha avó quando nos via a guinchar e a queixar. Adoram ofender-se, ter razão e queixar-se. Como se eu tivesse alguma coisa que ver com o assunto. Queixinhas, caguinchas. No meu tempo, que já lá vai, pior que o insulto eram as queixinhas. Eram os medricas que faziam queixinhas, os mimados . "Ele chamou-me parvo!" Respondiam os mais velhos: "Então sai de perto dele." E acrescentavam: não se faz queixinhas. Era tão mau como mentir. Aprendemos assim a não ser caguinchas. Os meus filhos já não são assim. Eu não sou como a minha mãe, está visto. Eles queixam-se, lutam e insultam-se à minha frente. O banco de trás do meu carro é um campo de batalha. Juro. E explicam porquê, racionalizam as discussões. Fazem queixinhas, meu Deus.

Portugal está como os meus filhos: caguincha. Aliás, está pior. A minha avó ficaria estupefacta perante tanta infantilidade, tantos caguinchas que pululam por aqui. É o país dos ofendidos. E o pior, o que faz que este tema não seja divertido, é que os ofendidos têm audiência. Ninguém lhes diz que é feio, que é como mentir; pelo contrário, dão--lhes importância, têm medo dos caguinchas. As queixinhas têm efeito, são levadas a sério. Já não há opiniões diferentes, agressivas ou até disparatadas, há insultos. Tudo é um insulto. Criticar Ronaldo por comprar filhos é um insulto, afirmar que a homossexualidade é uma anomalia é um insulto, associar determinada comunidade cigana à criminalidade é um insulto. Mas não é: é uma opinião. Até pode ser estúpida, errada, absurda ou ofensiva, mas antes de tudo é uma opinião. Portugal está como os meus filhos caguinchas: intolerante. Tudo justifica processo ou intimidação. Estamos assim a um passo de proibir, a um passinho apenas até que seja proibido opinar. Sobre o quê? Não interessa, basta ser sobre qualquer coisa de que a maioria ou uma minoria histérica discordem.

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