Pai emigrante, filho ministro .O pai foi para o Brasil nos anos 40 à procura de oportunidades.A história do português José Temporão, de 84 anos, já era de sucesso. Emigrou para o Brasil em 1947 e venceu..Ao chegar, José Temporão foi trabalhar no modesto Bar e Restaurante Ceará, no centro do Rio de Janeiro, que pertencia a três conterrâneos. Com uma rotina diária de 18 horas de trabalho duro, ele impôs-se e, em menos de um ano, os donos - mais velhos e já cansados - propuseram-lhe ficar com o empreendimento, em troca de pagamentos nos anos seguintes. O que foi feito. Em 1951, voltou a Portugal, para saldar dívidas da família com o dinheiro conseguido no Brasil, mas por pouco tempo. Voltou a atravessar o Atlântico no ano seguinte com a família - a mulher Sara e três filhos. E novamente para ter sucesso. Hoje, tem nove netos, três bisnetos e um dos seus três filhos, também José, com 56 anos, é o ministro da Saúde do Governo Lula..Ao voltar ao Brasil, em 1952, o pai Temporão trabalhou como empregado e em pouco tempo já era sócio de um pequeno bar. Depois, entrou para a construção civil e chegou a construir dois pequenos prédios, até que, em 1964, deu o grande passo: comprou a casa de massas Via Roma, em frente ao Mosteiro de São Bento - tendo como principal incentivador Dom Lourenço, provedor do Mosteiro de São Bento e assíduo cliente. Com poucas letras, mas muito tino comercial, Temporão logo viu que a casa tinha condições de receber a elite do Rio - à época a cidade era capital do país. O restaurante tornou-se o Mosteiro, casa de encontro de políticos e empresários. Até hoje, um cliente com mesa cativa é o ex-presidente da FIFA, João Havelange, de 96 anos. Outros clientes habituais são António Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio, o ex-ministro da Fazenda Ernane Galvêas e o maior exportador de café do Brasil, Jair Cosero.O filho José Gomes Temporão fala português com sotaque brasileiro. Afinal, veio de Portugal com um ano, no navio North King. "Aprendi a andar no navio e a minha família diz que eu chorava muito, pois com o balanço da embarcação sempre caía. Aprendi a falar no Brasil." Embora se fale muito mal do ensino público brasileiro, José nunca estudou em colégios particulares. Saiu do Colégio Federal Pedro II para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UJRJ), onde se formou (em Medicina com especialidade de Saúde Pú- blica), fez mestrado e o doutoramento. .Filho, ministro.Sobre eventuais dificuldades por ser português, o pai responde de pronto: "Eu e ele encontrámos um ambiente totalmente receptivo. Eu, mesmo como imigrante no Brasil, sempre fui respeitado e o meu filho também. O único problema é que o meu filho não pode ser presidente da República, mas nada o impede de ser prefeito ou governador..." Para ele, não há problemas para portugueses no Brasil..A trajectória do filho está ligada à política. Como especialista de saúde pública, uniu-se a gente de esquerda. Entrou para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), depois passou para o PDT - do falecido Leonel Brizola - e agora está no centrista PMDB - que dá o principal suporte ao Presidente Lula, que é do PT ( Partido dos Trabalhadores). Foi indicado para o ministério pelo governador do Rio, Sérgio Cabral - que é do PMDB -, mas já era admirado pelo Presidente Lula. Quando se descobriu a corrupção no Instituto Nacional do Cancro, coube ao actual ministro "varrer a sujeira", como director-interventor, com plenos poderes..A história dos dois portugueses é hoje ressaltada por muita gente da colónia. Afinal, o pai é um vitorioso: começou do nada e hoje tem um bom património. O filho, nascido como o pai em Monção - Viana do Castelo -, antes de ser ministro da Saúde já ocupara o cargo de secretário estadual de Saúde. Embora tenha estado por cinco anos no atendimento directo a pacientes, a paixão de José Gomes Temporão sempre foi a saúde pública.."Meu sucesso vem de trabalho árduo, respeito obtido na área, um pouco de sorte, simpatia do Presidente da República e do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e à formação rígida de minha família portuguesa, que me ensinou bons valores.".O jovem ministro é casado com Liliane e tem quatro filhos, todos homens: Guilherme, Fernando, José Eduardo e Gabriel e não deixa de prestar homenagem ao pai, por ter deixado a terra natal, em busca de melhor destino, e ter dado uma boa educação a todos os filhos. "Ele [pai] sempre frisava que nós tínhamos de estudar para não dependermos apenas do esforço excessivo, como ocorreu com ele.".Polémico.Há dias, o jornalista Walter Diogo, do Jornal do Brasil, apelidou o ministro de "o mais polémico" do Governo Lula. Afinal, José Gomes Temporão enfrentou a Igreja Católica por querer discutir o aborto; indispôs-se com empresas de bebidas, por desejar limitar publicidade a cervejas na televisão; teve problemas com laboratórios, por se recusar a pagar direitos para produção de certos remédios contra a sida. José Gomes Temporão ainda criticou o músico popular Zeca Pagodinho - grande amigo do Presidente Lula - por fazer propaganda de cerveja e, obviamente, recebeu uma dura resposta. .Mas nem só de trabalho e polémica vive o ministro, especialista em Música Popular Brasileira (MPB). Violonista desde a adolescência, tem uma colecção de dois mil LP em vinil (os velhos discos redondos) e 3500 CD.