'70x7' tem 25 anos de emissão na RTP Horário actual é para quem não vai à missa.«Recordo em especial o programa em que o padre António Rego aborda a morte. Escolhe cenários do Norte, onde houve um grande incêndio, e vai falar para o meio do pinhal ardido, interiores de casas destruídas, e até no cemitério atingido pelas chamas. Explora toda uma linguagem simbólica, que se serve de metáforas, imagens e analogias.» Carlos Capucho, autor de uma tese de mestrado sobre a importância do simbólico, para a qual analisa quatro programas do 70x7 dos anos 80, lembra-se da abordagem poética usada no programa que sobreviveu ao tempo e celebra agora 25 anos de emissão em televisão, tornando-se no mais antigo «casamento», ainda intacto, com a RTP..Tudo começou em 1979. Enquanto Portugal aprendia os primeiros passos da liberdade, um grupo de padres amigos maravilhava-se com as potencialidades do audiovisual, realizando diaporamas, traduzindo o sacerdote e teórico dos media Pierre Babin e bebendo sofregamente tudo quanto vinha de Marshall McLuhan, o teórico da aldeia global. Foi neste «fermento» que nasceu, a 21 de Outubro de 1979, o programa 70x7. Passava no canal 1, às 12.30 de domingo, o que na época era quase um prime time. Nessa altura revolucionária os padres António Rego e Manuel Vilas-Boas percorreram como realizadores todas as dioceses do Continente e Ilhas, fazendo reportagens, numa linguagem sem tabus, sobre os pobres e marginalizados, crianças abandonadas, mães solteiras, prostitutas, presos, sem-abrigo, alcoólicos, toxicodependentes... .rebanhos. «Nós não estávamos no púlpito nem no templo. Vestíamos mangas curtas e falávamos no lameiro, da terra queimada, do azedume do trabalho, da tragédia da fome, da perturbação do silêncio», recorda Manuel Vilas-Boas, então realizador do 70x7, sugerindo que, eventualmente, tocavam «o eclesiasticamente incorrecto». Pela sua parte, os telespectadores predilectos eram «os que sociologicamente não pertenciam ao rebanho». .Foi assim que a Igreja se estreou na televisão (à excepção da missa) com as primeiras emissões do 70x7 a preto e branco. «O que marcou a diferença no discurso televisivo foi a introdução, na época, de uma nova linguagem simbólica», sublinha este jornalista da TSF, especialista em temas religiosos. .Manuel Vilas-Boas sai em 1990 para a TSF e, dois anos mais tarde, António Rego segue para a direcção de Informação da TVI, o então canal da Igreja. As privadas e a competição com novas rubricas de índole religioso fizeram com que o 70x7 deixe de ser «um programa de autores», e há quem ache que perdeu a sua pureza inicial. .António Estanqueiro, que passou a coordenar o programa até 2003, confessa que houve dificuldades. «Os realizadores, todos leigos, não podiam dedicar-se só ao 70x7 por falta de condições económicas. E a sua colocação na RTP2, às 10.00 de domingo, foi pouco estimulante. Mas não desanimámos.» E continuaram sem temas interditos, abordando assuntos «delicados» como o celibato dos padres, a ordenação de homens casados, ou o papel da mulher na Igreja Católica..2003 marca a última viragem, e lança o 70x7 para novo estatuto (ver caixa). O actual editor executivo, Paulo Rocha, diz que continua a ser um programa para «olhar as dimensões esquecidas da pessoa humana, como a religiosa, independentemente de ser católica, cristã ou outra», através de reportagens que descobrem «iniciativas anónimas em prol dos outros». Agora aos domingos, na 2:, pelas 9.30, Paulo Rocha acredita que o público do 70x7 que vê os seus 25 minutos,é o que «não está na missa e faz zapping logo pela manhã»..vidas. O padre António Rego faz um balanço positivo destas bodas de prata do 70x7. Em relação ao passado do programa, considera que «há sempre a nostalgia da distância», e salienta a actual limitação de recursos. .«O programa não faz mais porque não tem meios. A RTP restringiu as verbas e tivemos de contentar-nos com um orçamento menor. Mas continua a percorrer áreas interessantes do eclesial e cultural.» Prova disso, salienta o seu responsável editorial, foi o share conseguido no último domingo, de dez pontos, o mais alto da 2: entre as 9.30 e as 02.00. .«O que é preciso», frisa o padre António Rego, «é continuar com a entrega. Sem coração não se faz boa televisão religiosa»..Um privilégio extra tempo religioso.O '70x7' é editado pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja Católica, dirigido pelo padre António Rego que continua assim com responsabilidade editorial sobre o programa, depois de ter saído como realizador em 1992. Desde o ano passado que o 70x7 (número simbólico da Bíblia que significa o incomensurável) deixou de ser um programa da RTP concedido à Igreja e passa a ser considerado (só) juridicamente, no tempo concedido às confissões religiosas (mas sem o seu tempo ser deduzido aos católicos). O 70x7 está hoje integrado no estatuto da Ecclesia, um programa de TV diário na 2:. Continua a ser pago pela RTP. Nos anos 80 recebeu dois prémios internacionais, para reportagens sobre a Cartuxa de Évora (1982) e «A Cinza e a Morte» (1985).