Pacífica e verde, Nanning é a nova plataforma chinesa

Entre o Vietname e Cantão, a região autónoma de Guangxi ganhou preponderância com a aproximação do país aos vizinhos do sudeste asiático e no seio da estratégia Uma Faixa, Uma Rota. A sua capital prepara-se para se tornar num centro logístico chave.
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Pelas ruas da capital de Guangxi (ou na forma aportuguesada, Quancim) há elefantes um pouco por todo o lado. Em estátuas, como ornamento da iluminação pública ou de outros elementos de mobiliário urbano. Proboscídeos de marfim e osso, porém, só no jardim zoológico. É na província vizinha de Yunnan, a oeste, onde vivem os últimos exemplares em estado selvagem na China. Pouco importa: é um símbolo de sorte, graças a uma lenda na qual é revelado em sonho ao primeiro imperador da dinastia Qin a forma para impedir inundações no sul da China: para tal tinha de reunir cinco elefantes em Yong (o nome de Nanning até ao século XIV, bem como do rio que serpenteia a cidade).

Desconhece-se se apareceu em sonhos de algum dirigente do Partido Comunista Chinês, mas o certo é que há cerca de duas décadas Nanning passou a ser vista não só como a capital da região autónoma da minoria Zhuang, mas também como um futuro centro de logística e de comunicações entre o resto do país e o sudeste asiático e mais tarde parte essencial da estratégia Uma Faixa, Uma Rota.

Estamos numa metrópole com mais de sete milhões de habitantes, mas no novo bairro financeiro de Wuxiang placidez é a palavra que salta à cabeça. À mistura de elevada temperatura e humidade típica da região subtropical, e que torna qualquer atividade fora de portas um desafio, o que interrompe o silêncio são as obras de futuros arranha-céus, enquanto outros se acumulam semiocupados ou vazios, à espera de melhores dias.

Segundo a classificação do site especializado Skyscrapercenter, Nanning é a 18.ª cidade mais alta no mundo, isto é, com mais edifícios de pelo menos 150 metros de altura. As ruas, largas, são enxameadas por toda a sorte de veículos de duas rodas que têm em comum a discrição sonora característica dos elétricos.

A noite pode até nem trazer alívio nas condições meteorológicas, mas é o período mais popular para visitar a zona antiga; Xingning, Minsheng e Jiefang e o Leão Dourado e o Leão Prateado constituem as três ruas e os dois becos onde habitantes e turistas deambulam e vão comer, mas também visitar lojas.

A gastronomia é um cartão de visita, uma vez que aos pratos regionais se junta a cozinha vietnamita e cantonesa. E para quem procura outros ambientes não faltam bares noutras áreas da cidade.

Nanning, cujo nome significa "Sul pacificado", é a casa da etnia Zhuang, mas também de mais de 30 outras que se entendem em zhuang, cantonês e mandarim. Para Pequim, este é um exemplo positivo de harmonia interétnica e religiosa, em contraste com o Xinjiang, por exemplo, região do noroeste onde o regime é responsável por "graves abusos de direitos humanos" sobre os uigures, de acordo com o relatório da anterior alta comissária da ONU Michelle Bachelet.

A capital de Guangxi também é conhecida como "cidade verde" graças às árvores e à vegetação luxuriante típica da região, as quais oferecem um contraponto à fria construção em altura, não só nas ruas e nos parques, mas igualmente nos viadutos carregados de trepadeiras, ou na montanha (na realidade um monte) Qingxiu. No seu alto há um pagode e daí contempla-se a paisagem. As paisagens naturais mais interessantes, como é de esperar, não estão na urbe. As cataratas de Jiulong, a oeste, e as de Detian, a leste, na fronteira com o Vietname - as maiores da Ásia -, são exemplos de paisagens excecionais, tais como Guilin, a norte e já mais afastada.

Destaquedestaque400 mil milhões é o investimento em moeda chinesa, ou 50,5 mil milhões de euros, no plano de obras em infraestruturas, vias de comunicação e em transportes, até 2025, para tornar Nanning numa plataforma logística.

Os três portos da região também estão relativamente longe, a mais de cem quilómetros. Fazem parte da zona económica do pan-golfo de Beibu, um corredor económico estabelecido em 2006 com outros seis países, e mais tarde reunidos sob a mesma autoridade, Porto do Golfo de Beibu, sediada em Nanning.

DestaquedestaqueO crescimento das trocas comerciais da China com a ASEAN foi de 15 por cento em 2022, num total de 866 mil milhões de euros.

A cidade ganha importância à medida que é vista como indispensável à cadeia de abastecimento e nesse sentido está em execução um plano quinquenal, a concluir em 2025, que elevará a cidade a plataforma logística nacional. O investimento, superior a 50 mil milhões de euros, inclui a construção de caminhos-de-ferro, autoestradas, parques logísticos e de armazenamento de forma a que a cidade passe a receber 12 milhões de toneladas no lugar de um milhão em 2020.

Esta aposta estratégica vai para lá da referida zona económica e tem como objetivo primeiro chegar à associação de dez países do sudeste asiático (ASEAN) e depois à nova rota da seda marítima. Considerada uma prioridade na sua política de vizinhança, a ASEAN é agora o maior parceiro comercial da China. Não por acaso Nanning é a sede da China-ASEAN Expo e da cimeira China-ASEAN. Além disso, desde o início do ano passado entrou em vigor um tratado de comércio livre ainda mais amplo, o qual inclui o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia.

cesar.avo@dn.pt

Os jornalistas do DN viajaram a convite da Embaixada da China.

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