Oxalá não sejam gases

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Gás há de ser uma das palavas do ano, porque faz muita falta e, fechadas as torneiras da Rússia, o preço trepa na vida de todos, em particular os europeus e, entre estes, os mais pobres. Mas gás significa também barriga inchada, náuseas e flatulência, estado fisiológico aliás bem conhecido nos corredores de Bruxelas. Oxalá que as promessas de novo gasoduto, ligando a Península Ibérica ao resto da Europa e abrindo finalmente o caminho para uma Política Energética Comum, não sejam apenas manifestação passageira.

Mas vamos por partes. O acordo de que se fala, entre os presidentes Emmanuel Macron, Pedro Sánchez e António Costa para enterrar o gasoduto MidCat e construir um novo gasoduto submarino denominado BarMar entre Barcelona e Marselha é uma boa notícia tanto para os países envolvidos como para o resto da Europa. O objetivo deste novo gasoduto é transportar hidrogénio verde com a opção de também canalizar o gás, se então for necessário. O anúncio feito na passada quinta-feira em Bruxelas põe fim a uma disputa de anos envolvendo os governos de Portugal, Espanha e França, a propósito das interconexões de energia entre os países ibéricos e o resto da Europa.

Com o apoio de Lisboa e Berlim, os espanhóis defendiam a construção de uma infraestrutura que levaria gás da Península Ibérica (a partir de Sines) ao norte da Europa através dos Pirenéus. Paris, por seu lado, argumentava que a construção desse MidCat levaria muito tempo para responder à atual crise energética e, além disso, seria um investimento excessivamente caro e contrário ao combate às mudanças climáticas. Ora, a nova solução que saiu do acordo de quinta-feira também não pode ser imediata, sendo que os detalhes de prazos de construção, distribuição de custos e financiamento não serão clarificados antes da reunião tripartida marcada para 9 de dezembro. Até lá, o compromisso dos três reúne virtudes tipicamente europeias, ao melhor estilo da burocracia da União: ninguém perde a face e a Europa avança, fazendo valer a "teoria do ciclista" bem conhecida em Bruxelas, segundo a qual a integração europeia, tal como a bicicleta, tomba se parar de andar em frente. No caso, Costa e Sánchez cumprem o objetivo de quebrar o isolamento energético da Península: a nova conduta anunciada representa uma aposta nas energias renováveis e encaminha a solução de uma futura união energética em que ambos os países terão um peso específico que atualmente lhes falta. Macron, por sua vez, aceita os argumentos ibéricos e incentiva as perspetivas futuras do hidrogénio verde (uma aposta também portuguesa), apesar de a França ser um país historicamente protetor da sua indústria nuclear, cuja energia exporta em massa.

Alvitrada a solução que permitiu o acordo, o BarMar - gasoduto submarino - não deve transformar-se num daqueles projetos de longo prazo que nunca saem do papel. Agora, é urgente definir os detalhes técnicos e o calendário para a sua construção. E urgente, também, é garantir o financiamento solidário, uma vez que a conduta serve todos. Por mais que algumas oposições internas clamem pelo interesse meramente nacional, o acordo entre Costa, Sánchez e Macron é, por enquanto, um sucesso político para todos os envolvidos. Numa curva apertadíssima para a União, com uma guerra no continente e uma crise energética e económica que sobressalta as nossas sociedades, seria incompreensível que os países do Sul agissem de forma descoordenada. De fora, para já, fica a Itália de Giorgia Meloni, a nova primeira-ministra de extrema-direita, que não partilha com os seus vizinhos latinos a mesma visão sobre a construção europeia. Oxalá que a promessa dos três não seja apenas resultado da flatulência provocada pela guerra.

Jornalista

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