Outra vez os 'boches'

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Alemanha. Uma boa relação de séculos interrompida pela Primeira Guerra Mundial, que já lá vai há 90 anos

Desde o final do império romano, no princípio do séc. V, que bárbaros germânicos - os antepassados dos alemães - se guerrearam uns aos outros disputando o território que hoje é Portugal. Em 420, os vândalos, chefiados por Gunderico, combateram contra os suevos em Braga. A chegada dos visigodos deu início a uma guerra que durou mais de um século e terminou com a derrota dos suevos e a integração do seu reino, que chegou a incluir Coimbra e Lisboa, na monarquia visigótica (585).

A costela germânica do francês D. Henrique de Borgonha foi herdada pelo seu filho D. Afonso Henriques, que contou com a ajuda de cavaleiros alemães na conquista de Lisboa aos mouros. Para isso, fizeram um desvio na rota da 2.ª Cruzada, em 1147. Um deles, Vinando, escreveu uma carta sobre o acontecimento ao arcebispo de Colónia, Arnaldo. Outro cruzado alemão, Henrique de Bona, morto na batalha, foi sepultado no local onde veio a ser erguido o mosteiro de S. Vicente de Fora.

Na época dos descobrimentos, um cavaleiro chamado Henrique Alemão tornou-se grande proprietário de terras na ilha da Madeira. Esse cavaleiro está ligado a uma lenda segundo a qual ele era na realidade o rei Ladislau III da Polónia, desaparecido na batalha de Varna, em 1440.

Em meados do séc. XV, D. Leonor (1437-1467), irmã de D. Afonso V, casou-se com o imperador da Alemanha, Frederico III.

Na década de 1480, visitou Portugal outro alemão - o cavaleiro Nicolau de Popplau, natural da Silésia - que teve a ideia de escrever um livro sobre a viagem, onde traçou um retrato pouco lisonjeiro para os nossos compatriotas de há mais de cinco séculos: "Dados ao folgar, não gostam do trabalho (...) são grosseiros, gente sem bondade nem misericórdia." Já em relação às portuguesas, começou mal mas reparou em pormenores que acabaram por revelar-se intemporais: "Há poucas mulheres belas, que parecem mais homens que mulheres, porém têm olhos geralmente negros e formosos (...) trazem o vestido e a camisa decotados de maneira que se pode ver metade do seio; da cintura para baixo trazem muitas saias, por isso o revés do corpo parece garboso e grande como um ganso de S. Martinho, e tão volumoso que, deveras vos digo, não hei jamais visto coisa assim maior."

Poucas décadas depois deste relato que hoje seria classificado ambivalente - e politicamente incorrectíssimo -, em 1525, a princesa D. Isabel (1503-1539), filha de D. Manuel I, casou-se com o homem mais poderoso da época, o imperador alemão Carlos V. Foi mãe de Filipe II que, por essa via, herdou em 1580 a coroa de Portugal.

O império ultramarino veio pôr Portugal e a Alemanha em rota de colisão no início do século passado. O expansionismo do kaiser Guilherme II cobiçava as colónias portuguesas de África. Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Governo da jovem República Portuguesa teve conhecimento de conversações secretas entre ingleses e alemães em que fora posta a hipótese de a Alemanha se banquetear com partes de Moçambique e Angola.

Quando a Grande Guerra rebentou, em 1914, Portugal procurou entrar no conflito ao lado dos Aliados: por um lado, para defender a posse das colónias; por outro, para garantir o reconhecimento do novo regime. Mas só em 1916 a Inglaterra e a França entenderam ser oportuna a adesão. Para levar a Alemanha a declarar-nos guerra era preciso uma provocação. Foi simples: o Governo requisitou todos os navios mercantes dos Impérios Centrais atracados em portos portugueses. De um dia para o outro, a arruinada frota mercante lusitana ganhou 70 garbosos navios alemães e dois austro-húngaros. Até o nosso património cultural ficou a ganhar: um desse navios vinha do Egipto com os resultados de uma expedição arqueológica alemã, incluindo múmias - que foram enriquecer os nossos museus.

O kaiser declarou-nos guerra e os serranos portugueses (assim chamados porque muitos soldados vinham das serras do interior) partiram para África e para a Flandres lutar com os boches, a alcunha que os franceses puseram aos alemães. Milhares não voltaram. |

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