"Otelo [Saraiva de Carvalho] desiludiu-me muito", dirá Fidel Castro a Costa Gomes, durante uma passagem do antigo Presidente da República por Cuba, em 1977. Uma reacção natural, e até compreensível, da parte de quem tanto investiu nos ímpetos revolucionários do comandante do Copcon, sem que isso evitasse que Otelo viesse a juntar-se aos sectores político-militares que contestavam o PCP no Verão Quente de 1975, contribuindo para afastar Vasco Gonçalves do cargo de primeiro-ministro..De que serviram, afinal, os dez dias em que Otelo se passeou por Cuba, quando em Portugal se desenrolava já uma fase crucial do processo revolucionário (PREC) e as sedes do PCP eram objecto de ataques constantes, sem que o Copcon as protegesse como era sua obrigação?.A avaliar pela reacção de Fidel e pelos alinhamentos posteriores de Otelo Saraiva de Carvalho, a visita - que decorreu entre os dias 21 e 30 de Julho - terá servido de pouco. Salvo, talvez, para o afastar ainda mais dos sectores conotados com o PCP e com a esquerda militar, como os gonçalvistas eram designados. E que acabaria por fazer pender a balança da revolução para o lado dos moderados (Grupo dos Nove), que, meses depois, conseguiram neutralizar os revolucionários que ainda se agrupavam em torno do comandante do Copcon..Estratégia. Um cenário devidamente antecipado por alguns militares mais próximos do PCP, como o coronel Varela Gomes e o major Diniz de Almeida, que, ao longo de vários dias, se desdobraram em esforços para demover Otelo de visitar Cuba, fazendo-lhe compreender a inoportunidade da viagem, tendo em conta a deterioração do ambiente no interior dos quartéis. "Não há-de ser nada", garantiu- -lhes Otelo. "Fidel já disse que me punha um avião às ordens, quando eu quisesse.".Mas, nessa altura, nem Varela Gomes (que viria a publicar AContra-Revolução de Fachada Socialista) nem Diniz de Almeida (Ascensão, Apogeu e Queda do MFA) sabiam é que a iniciativa da viagem partira do próprio PCP..Uma estratégia ditada por razões de ordem prática, já que tanto Álvaro Cunhal como os comunistas tinham consciência dos poucos apoios de que o PCP dispunha entre as unidades mais operacionais das Forças Armadas, necessitando, assim, de atrair Otelo e o Copcon para o seu lado, como o historiador catalão Josep Sanchez Cervelló viria, alguns anos depois, a explicar em ARevolução Portuguesa e a Sua Influência na Transição Espanhola.."Os gonçalvistas", sublinha Cervelló, "tinham influência no campo ideológico, através do controlo que exerciam sobre a Comissão Dinamizadora Central (CODICE), a 5.ª Divisão, etc., mas não tinham força militar, que estava nas mãos do Copcon, e, portanto, tentaram, a partir de Julho, uma aliança mais estreita com os militares desta tendência. O primeiro passo tinha sido já a concordância com o Documento-Guia Povo-MFA, que aqueles tinham elaborado." E o segundo, acrescenta, passou pela visita que Otelo Saraiva de Carvalho fez a Cuba, num momento absolutamente crucial do PREC..Só assim se explica que Havana e o próprio Fidel não se tivessem poupado a esforços para receber uma das figuras mais representativas da Revolução dos Cravos. Ao ponto de Otelo ter sido um dos oradores das comemorações oficiais do 26 de Julho, data que assinala o assalto ao Quartel Moncada e o início da revolta contra a ditadura de Fulgêncio Baptista..Alinhamento. Um programa devidamente concertado com o PCP e que visava seduzir Otelo, que, à partida para Havana, não conseguia esconder a sua admiração pela pátria de Fidel "Vou a Cuba [para] tomar contacto com a revolução cubana a caminho do socialismo. Vou com os olhos e os ouvidos abertos para ver as experiências já adquiridas para, depois, (...) poder incentivar a nossa revolução.".Fidel fez-lhe a vontade. Durante dez dias, El Comandante, o seu irmão Raúl e o vice-presidente Carlos Rafael Rodriguez colaram-se ao convidado, que se fazia acompanhar por uma delegação, que incluía o capitão Marques Júnior (membro do Conselho da Revolução), além de três outros oficiais, em representação dos três ramos das forças armadas..Tudo isto numa altura em que o PS e Mário Soares mobilizavam já os portugueses contra o gonçalvismo, em estreita articulação com os sectores mais moderados do Movimento das Forças Armadas (MFA), agrupados em torno de Melo Antunes, Vasco Lourenço e Vítor Alves, entre muito outros .Só que o PCP sabia o que fazia. Ou, pelo menos, pensava que sabia, tendo em conta as declarações que Varela Gomes viria a fazer, alguns anos depois, a Cervelló. "O PCP apostou forte nesta viagem. Pensaram que [Otelo] voltaria transformado num autêntico revolucionário. O próprio Fidel foi mobilizado para a tarefa de o converter. Acompanhou-o dia e noite, concedeu-lhe honras de Chefe de Estado e encheu-o de presentes, tantos que foi preciso um avião de carga para trazê-los. Foi uma aposta, não só do PCP, mas também do comunismo internacional. Pode, portanto, imaginar-se a frustração do PCP, quando Otelo traiu essas expectativas.".Foi um esforço razoavelmente inglório para convencer Otelo Saraiva de Carvalho, que passara, entretanto, a integrar o Directório, onde estavam também os generais Costa Gomes e Vasco Gonçalves, e que deveria passar a concentrar todos os poderes em Portugal, assumindo-se como a vanguarda da revolução. Sem o qual nada se poderia ou deveria fazer..A começar pelo novo Executivo que Vasco Gonçalves tentava formar num gesto quase desesperado, depois de PS, PPD e Melo Antunes terem feito cair o IV Governo Provisório, reduzindo o espaço de manobra aos gonçalvistas. Como Cunhal e o PCP acabariam por reconhecer pouco depois..Garantias. O que talvez explique também as razões por que Cuba e o PCP tentaram, sem sucesso, incluir Vasco Lourenço na comitiva de Otelo. Após uns momentos de hesitações, Lourenço acabaria por declinar o convite de Fidel Castro, envolvendo-se, então, em sucessivos confrontos e polémicas com os gonçalvistas no seio de exército..Amigo pessoal de Otelo, Vasco Lourenço tinha, no entanto, conseguido obter do comandante do Copcon duas garantias preciosas, numa altura em que os gonçalvistas tinham feito constar que o desejavam ter como vice-primeiro- -ministro do V Governo Provisório Otelo não aceitaria integrar esse Executivo; e só lhe daria o seu aval como membro do Directório depois de analisar a respectiva composição..Pelo sim, pelo não, tanto Vasco Lourenço como Vítor Alves acabariam por manter um contacto estreito com Otelo, durante o período em que o comandante do Copcon permaneceu em Cuba..Prova disso são os inúmeros telefonemas que lhe fizeram, e os faxes e telegramas que lhe mandaram ao longo desses dez dias, como revelou ao DN um dos elementos da comitiva que o acompanhou. .Mas nem Vasco Lourenço nem Vítor Alves tinham grandes razões para preocupações. Quanto mais não seja porque Otelo tinha ao seu lado Marques Júnior, um companheiro de armas do Grupo dos Nove, e que fez valer sempre a sua qualidade de membro do Conselho da Revolução para não o perder de vista. Como sucedeu quando Fidel, Raúl e Carlos Rafael Rodriguez arrastarem Otelo para a serra de Escambray, onde Che Guevara tinha andado a combater..Angola. Afastado da comitiva, Otelo fez-se acompanhar apenas por Marques Júnior, deixando algum espaço de manobra aos seus anfitriões..Terá sido nesta ocasião - como o DN e o jornalista José Manuel Barroso revelaram em 1994 - que os dirigentes cubanos aproveitaram um único momento a sós com Otelo para tentar perceber qual seria a reacção de Portugal, caso Havana viesse a envolver-se no conflito angolano, correspondendo ao apelo feito pelo MPLA. .De acordo com o relato que o colombiano Gabriel García Márquez fez deste episódio [Operação Carlota], o comandante do Copcon ficou de lhes dizer qualquer coisa, mal chegasse a Lisboa. O que nunca aconteceu, mesmo que Otelo garanta ter passado o "recado". Com ou sem relação directa, o certo é que Rosa Coutinho acabou por se deslocar a Havana, em meados de Agosto, tendo sido apenas nessa ocasião que Fidel terá conseguido obter a garantia de que as autoridades portuguesas dariam os vistos necessários para que os primeiros militares cubanos pudessem desembarcar em Angola..O que viria a concretizar-se dias depois, ajudando o MPLA a fortalecer as suas posições e a resistir às ofensivas da FNLA, da UNITA e, muito em especial, das forças sul- -africanas e zairenses que cercavam Luanda, tentando impedir que a independência fosse proclamada a 11 de Novembro. .À margem destas incidências do processo angolano, o facto é que o PCP teve a percepção do fracasso da sua iniciativa, quando Otelo ainda se encontrava em Cuba. .Envolvidos num braço-de-ferro dentro do exército, por causa da representação deste ramo nas diferentes instâncias da revolução, o PCP viu Otelo opor-se, como revelou Gomes Mota [A Resistência], às tentativas de afastamento dos moderados, assegurando-lhes que não "consentiria nesses escandalosos e inoportunos saneamentos". .Mas nem os comunistas nem a esquerda militar em torno de Vasco Gonçalves tinham perdido ainda as esperanças, razão pela qual tanto Rosa Coutinho como o próprio Álvaro Cunhal não deixariam de ir receber Otelo ao Aeroporto da Portela, fazendo-se acompanhar por alguns trabalhadores que desejavam saudar o comandante do Copcon. .Só que os dados deste jogo já tinham sido, entretanto, lançados para cima da mesa.