Demasiada gente em Portugal olha para a Europa como quem olha para uma tia velha e rica. Estão disponíveis para a visitar pontualmente, mas não a querem lá enfiada em casa; louvam-lhe os atributos e exibem proximidade, mas sobretudo querem-lhe o dinheiro. Se adoecem e a tia não aumenta a mesada, queixam-se da velha que é forreta. Se a tia padece de algum mal e precisa de conforto, afastam-se..Neste conto infantilizado, António Costa, como qualquer Primeiro Ministro, é o sobrinho que recebe a mesada e Rui Rio o que nunca recebeu nada e por isso prefere que nem se fale da velha..Tudo isto é infantil, mas é difícil descrever de outra forma o que pode passar pela cabeça do líder do maior partido da oposição quando acha uma perda de tempo o primeiro ministro ir ao Parlamento explicar o que vai fazer a Bruxelas quando se reúne com os outros chefes de Estado e de Governo, para além das duas vezes que são as cimeiras formais anuais (uma das propostas do pacote de reformas da Assembleia da República que apresentou)..Não interessa se Rui Rio não gosta de parlamentos, de estar ao mesmo nível dos restantes partidos que não são os maiores da oposição ou se apenas acha que sairá irremediavelmente a perder de um debate em que o primeiro ministro terá sempre mais informação. Todas as explicações são legítimas, no desenho da sua estratégia, mas nenhuma é válida para quem gosta de responsabilização na política..A Europa é uma discussão distante em Portugal, quando não é uma discussão de mão estendida. Tudo começou com os bons alunos que Delors disse que éramos. Era um elogio em forma de passar a mão pelo pêlo. Portávamo-nos bem, fazíamos o que Bruxelas dizia e em troca recebíamos mais biscoitos. Essa ideia perdurou. Erradamente, mas perdurou. Erradamente, porque não é assim que se ganham biscoitos em Bruxelas, e porque, afinal, até temos tido algumas oportunidades de ser relevantes sem ser apenas bons alunos. Mas também temos enormes responsabilidades na má forma como aproveitámos o que havia para aproveitar. E não foi só dinheiro..A política europeia é a continuação da política nacional, e um lugar no mundo. O que Rio, ou outro partido qualquer, devia propor era que o primeiro ministro fosse ao Parlamento antes e depois de cada Conselho Europeu, dizer ao que vai e o que foi que acordou. Assim como cada ministro sectorial, das finanças ao mar, deveria ir à Assembleia antes de se reunir com os seus pares em Bruxelas. Para que não cheguem a cantar vitórias que são partilhadas ou a culpar Bruxelas do que negociaram e aceitaram..Isto seria importante para escrutinar os governantes, mas também para que os partidos da oposição respondessem pelas posições dos partidos europeus de que fazem parte..Considerando o lado do hemiciclo onde se senta, se Rui Rio não sabe o que há-de perguntar ao primeiro ministro, telefone a Paulo Rangel, ou leia os seus artigos no Público se não se falam muito, ou pergunte ao representante do seu ex-parceiro de coligação, o deputado do CDS João Almeida, se tem alguma pergunta a mais que lhe empreste..Pertencer à União Europeia é muito mais que ir lá buscar dinheiro ou ficar sujeito a obrigações. Há quem calcule que dois terços da legislação nacional nascem na legislação europeia. Achar que não vale a pena discutir como isso começa ou acaba não é pouco patriótico ou pouco europeu, é pouco, simplesmente.