Seis milhões, quatrocentas e sessenta e nove mil, novecentas e cinquenta e duas. Este é o número total de pintas de dálmatas que uma equipa de animadores da Walt Disney teve de desenhar nos cães de Os 101 Dálmatas quando o filme foi feito, em 1961, e ainda não existiam computadores para executar estas penosas tarefas. O cão Pongo tem 72 pintas, a cadela Perdita, 68, e cada um dos 99 cachorrinhos, 32. E o filme, 77 minutos de duração.."Quando acabámos, estávamos quase doidos", recorda um dos animadores no documentário Como Se Fez 'Os 101 Dálmatas', um dos muitos extras da edição especial em dois discos do filme agora lançada em Portugal, com novo restauro digital de imagem e som, e que estará à venda apenas por tempo limitado. . Desde 1991 que o filme não é visto em cinema, e a primeira edição em DVD data de 1999, não tendo voltado depois a sair dos cofres da Disney..Em finais da década de 50, Walt Disney estava ocupadíssimo a supervisionar a expansão do seu império, dedicando-se à recém-inaugurada Disneylândia, ao novo programa de televisão com o seu nome, em que aparecia semanalmente a apresentar, e à produção de filmes de imagem real. Alguns dos seus próximos tinham-no aconselhado a desistir dos filmes de animação e a concentrar-se naquilo que daria menos trabalho e mais dinheiro aos estúdios. .Ainda por cima, a sua mais recente longa- -metragem de animação, A Bela Adormecida, estreada em 1959, não tinha tido o sucesso de bilheteira esperado, obrigando ao despedimento de centenas de pessoas do departamento de animação, que sofreu uma redução drástica. .Escolha decisiva.Mas Walt Disney tinha entretanto lido a obra infantil Os 101 Dálmatas, da autoria da escritora inglesa Dodie Smith, um dos best-sellers da altura, e decidiu que o livro daria um excelente filme animado. .Os 101 Dálmatas surgiu, assim, quando os estúdios Disney estavam numa encruzilhada tecnológica, económica e estilística. E acabou por se tornar num das longas-metragens animadas mais marcantes da sua história, tutelada pelo trio de realizadores formado por Wolfgang Reitherman, Clyde Geronimi e Hamilton Luske, e benefici-ando do talento de uma equipa de desenhadores e animadores da qual faziam ainda parte vários dos nomes "históricos" da casa. Entre eles estava Ub Iwerks, para muitos o verdadeiro criador do Rato Mickey, que contribuiu com o seu génio técnico..Este foi o primeiro desenho animado da Disney passado num ambiente contemporâneo - a Londres do início dos anos 60 - e a afastar-se dos enredos de contos de fadas e livros infantis tradicionais. Nele foi estreada a técnica animada da xerografia, que poupava trabalho e dinheiro ao estúdio, mas à qual Disney começou por pôr reservas estéticas. .O filme adoptou também uma personalidade visual mais "moderna" e estilizada, que divergia do estilo clássico, "romântico" e "redondo", de Walt Disney, e tem uma banda sonora muito jazzy, com menos canções do que era habitual nas produções animadas do estúdio. Outro dos seus grandes trunfos foi a cadavérica e estridente vilã Cruella de Vil, concebida pelo veterano Marc Davis, que se tornou numa das figuras mais populares do universo da Disney..Os 101 Dálmatas obteve um estrondoso sucesso crítico e comercial. Além de ter sido o filme mais lucrativo de 1961, foi responsável pelo novo fôlego da animação da Disney. Em 1996 e 2000 surgiram duas versões em imagem real, com Glenn Close no papel de Cruella de Vil..Além do referido documentário sobre a produção do filme, com depoimentos, entre outros, de Brad Bird, o realizador de Os Super-Heróis e Ratatui, os numerosos extras desta nova edição de Os 101 Dálmatas incluem uma feature sobre a criação de Cruella de Vil, e uma dramatização da correspondência trocada entre Walt Disney e Dodie Smith, com base nas cartas que foram encontradas nos arquivos do estúdio. .Em 1967, Smith escreveu TheStarlight Barking, uma continuação de Os 101 Dálmatas. Mas Walt Disney tinha morrido um ano antes, e o livro nunca foi adaptado ao cinema. |