Os segredos e bastidores de uma ditadura militar .Há dias assim em que circunstâncias mais ou menos fortuitas podem mudar a vida das pessoas. Foi o que aconteceu ao jornalista Elio Gaspari, quando, num gesto repentino, decidiu comunicar aos responsáveis do Wilson Center for International Scholars que desistia da bolsa que lhe fora concedida em 1984 para escrever um ensaio sobre a ditadura militar brasileira..De início, o objectivo de Elio Gaspari passava por explicar - numa tese com uma centena de páginas - as razões que tinham levado os generais Ernesto Geisel ('O Sacerdote') e Golbery Couto e Silva ('O Feiticeiro') a desmontarem os mecanismos da ditadura entre os anos de 1974 e 1979, quando a tinham ajudado a construir entre 1964 e 67..Ao fim de 30 páginas, Elio Gaspari desistiu. Tinha chegado à conclusão que "ou trabalhava muito mais" ou, então, "era melhor esquecer o assunto". .Imbuído desse espírito, decide bater à porta do director do Wilson Center. Simples cortesia de quem pretendia despedir-se. Mas a reacção de James Billington não poderia ter sido mais desconcertante "Você não sabe como fico feliz. É para isso que existe o Wilson Center. Para fazer com que uma pessoa saia das suas ocupações rotineiras e descubra que deve escrever um livro.".Duas décadas depois, aí estão os primeiros quatro dos cinco livros que Gaspari se propôs escrever nessa altura sobre o regime dos generais brasileiros A Ditadura Envergonhada; A Ditadura Escancarada; A Ditadura Derrotada; e A Ditadura Encurralada. (Sendo que o primeiro e o segundo volumes são subordinados ao tema As Ilusões Armadas e o terceiro e o quarto à relação entre O Sacerdote e o Feiticeiro. Fica a faltar um quinto volume, que ainda não tem data prevista de. "Falta escrever a história que vai da manhã de 12 de Outubro de 1977 até ao dia 15 de março de 1979, quando Ernesto Geisel, tendo acabado com a ditadura do Acto Institucional-5, tirou a faixa presidencial e foi-se embora para Teresópolis", explica Gaspari, no prefácio da Ditadura Envergonhada. "Como não tenho interesse pelo governo do general [João] Figueiredo, a sua administração ficará no esquecimento que pediu.").O resultado são mais 1200 páginas dedicadas a uma ditadura que começou por um mero pronunciamento de um general mais ou menos isolado - o de Olympio Mourão Filho - contra o Presidente João Goulart e que levou quase 11 dias a consolidar-se, justificando que, anos depois, um dos generais golpistas tivesse confessado ao autor "A verdade - é triste dizê-lo - é que o exército dormiu janguista no dia 31 [de Março de 1964]... E acordou revolucionário no dia 1 [de Abril]"..Uma forma subtil de dizer aquilo que Gaspari explica ao longo dos seus livros que alguns dos principais protagonistas do golpe que derrubou Goulart, como os generais Humberto Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Orlando Geisel ou Cordeiro de Farias, entre outros, esperaram vários dias, antes de se pronunciarem. .A partir daqui, inicia-se uma ditadura que viria a durar duas décadas e que levou centenas de brasileiros à prisão e ao exílio, pesadelo que apenas terminaria em 1985, com a eleição de Tancredo Neves para o Palácio do Planalto. (O que não invalida, contudo, que o trabalho de Elio Gaspari acabe alguns anos antes, uma vez que o essencial da sua análise incide sobre os bastidores da consolidação do regime, passando pelas contradições que se verificaram no seio dos militares, sem esquecer que o período mais feroz da repressão coincidiu com a vitória do Brasil no Mundial de Futebol de 1970 e com o milagre económico do país.).Uma análise que só foi possível porque Elio Gaspari beneficiou do acesso ao arquivo privado de Golbery Couto e Silva, e que o general sempre desmentira que existisse - 25 caixas de material, contendo "notas e rabiscos" do fundador do ServiçoNacional de Informações (SNI) e do seu secretário de então, o capitão Heitor Ferreira, que viria a trabalhar posteriormente com Ernesto Geisel, o ditador-presidente que daria início à transição para a democracia..Como se isso não lhe bastasse, Gaspari dispôs ainda de um acesso sem precedentes ao próprio Ernesto Geisel, com quem gravou duas dezenas de conversas com hora e meia cada..O resultado - que abrange igualmente centenas de outras entrevistas e depoimentos, além de documentação diversa - está à vista uma obra monumental, que começou a ser publicada em 2002 e que nunca mais deixou de constar da lista dos livros mais vendidos do Brasil, transformando-se em algo de absolutamente indispensável para quem queira compreender a história recente do país. .Com todas as vantagens que são conferidas pelo estilo da escrita de um jornalista como Elio Gaspari, permitindo que o leitor se sinta uma espécie de testemunha ocular dos episódios e acontecimentos mais marcantes dos 20 anos que durou o regime militar brasileiro..Um jornalista de investigação .Prémio Academia Brasileira de Letras em 2003 - devido aos dois primeiros volumes da série da Ditadura, que incidem sobre os meses que antecederam o golpe de 1964, terminando com a passagem do testemunho de Emílio Médici para Ernesto Geisel em 1974 -, Elio Gaspari é, hoje, essencialmente um colunista de imprensa. .E, a avaliar pela repercussão pública da sua coluna, em jornais como O Globo e a Folha de São Paulo, dir-se-ia que Gaspari, de 61 anos, é mesmo um dos colunistas mais influentes dos media brasileiros. .É o culminar de uma carreira como jornalista, que inclui também uma passagem pela revista Veja, antes de se ter dedicado à investigação da história mais recente do seu país, mergulhando nos bastidores do regime ditatorial imposto pelos militares.