Os segredos de Carolina

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Uma das mais curiosas reacções ao livro de Carolina Salgado foi a de algum desprezo a que certos analistas votaram as informações contidas, susceptíveis de esclarecer casos concretos sobre as dimensões mais sinistras do mundo do futebol e dos negócios correlativos em Portugal.

Já há muito que sabemos que algumas sociedades têm culturas diferenciadas perante a lei e a cidadania, um dos aspectos de mais difícil resolução para a qualidade da democracia e dos indicadores de desenvolvimento. Assim, cada vez que qualquer denúncia de ilegalidade, corrupção ou outra coisa qualquer tende a ser feita no "espaço público", há logo um pequeno grupo que tende a denunciar as motivações "profundas" do que denuncia, secundarizando a gravidade do exposto. Tal movimento é natural, mas há quantidade que se transforma em qualidade e é aqui que as coisas mudam e são indicadores interessantes, particularmente quando o "espaço público" desempenha uma função central na modelação das atitudes que os portugueses têm perante quem os governa e administra a justiça. Ora, parte deste "espaço" está cheia de exemplos infelizes.

Todos sabemos que, desde os primórdios da organização social, "pecados mortais" conhecidos são motor de muita coisa, mas, enquanto estes podem motivar romancistas e psicólogos, é o produto final que nos deveria interessar. Na ainda jovem democracia portuguesa há exemplos passados pouco edificantes, mas o ambiente foi melhorando desde os tempos em que Rui Mateus, um ex--dirigente do PS, escreveu um livro sobre os meandros da vida do seu partido e foi quase crucificado na comunicação social.

Nas estratégias de combate à corrupção, e à criminalidade em geral, a denúncia, os modelos de "protecção de testemunhas", a quebra de conceitos de "honra" e "familismo" arcaicos são modos legítimos e úteis, que deveriam ser acarinhados pela comunidade e pela cidadania. Mas nem perante a sucessão de impunidades que têm caracterizado a vida de uma parte do futebol português uma parte da elite se condoeu, resolvendo antes sublinhar os "motivos" da ex- -companheira de Pinto da Costa. Neste como em outros casos, fazê-lo foi, para o melhor e para o pior, um traço de modernidade e uma contribuição para uma sociedade mais aberta. O resto é com a justiça.

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