Todos sabemos que os rankings escolares não constituem um retrato da qualidade do trabalho das escolas. Mas providenciam informação relevante sobre o desempenho dos alunos em provas de aferição e de exame, que os cidadãos têm o direito de conhecer. Fazem-no com indicadores que cada vez mais vão tendo em consideração a diversidade de contextos educativos e a superação conseguida por aqueles que recebem maiores percentagens de alunos com carência económica..Todos os anos vemos que as escolas pior classificadas são invariavelmente as públicas (nível socioeconómico médio mais baixo e maior diversidade). E que, entre estas, as piores são sempre as que têm maior percentagem de alunos vulneráveis, oriundos de famílias mais pobres e com pais menos qualificados. Algumas destas escolas, porém, conseguem obter resultados acima do esperado. Mesmo com 30% a 50% de alunos carenciados e filhos de pais com baixas qualificações, conseguem ficar ao nível de outras em que a percentagem de alunos carenciados não vai além dos 10%..São casos que obviamente faz sentido analisar. O que fazem de diferente estas escolas? Como se organizam? Como trabalham os seus professores? O que justifica esses resultados, que vão para além do esperado tendo em conta o perfil socioecónomico da população escolar? Estas perguntas são importantes e merecem resposta, tal como é importante a análise dos indicadores de superação das escolas públicas que recebem elevadas percentagens de alunos carenciados..Esta é, porém, uma discussão perigosa, porque não só normaliza a pobreza, como responsabiliza as escolas e os professores como os únicos agentes intervenientes na correção dos seus efeitos ao nível dos resultados escolares os alunos. Claro que as escolas desempenham um papel essencial no esforço quotidiano para garantir igualdade de oportunidades..Mas se toda a literatura científica acumulada ao longo de décadas mostra que o estatuto socioeconómico e a escolaridade dos pais (em especial da mãe) são os mais fortes e consistentes preditores do desempenho escolar dos alunos, a erradicação da pobreza e a elevação dos rendimentos das famílias deveria constituir a mais relevante estratégia de combate ao insucesso escolar. Porque a pobreza e a privação contam, tendo um fortíssimo impacto nos resultados escolares..É inaceitável que quase 30 anos depois da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, o país tenha 43% de pobres, antes das transferências sociais. É inaceitável que 72% da população ativa tenha rendimentos mensais iguais ou inferiores a 1000 euros. É preocupante que tenhamos assistido a uma queda vertiginosa da vantagem salarial dos licenciados no mercado de trabalho..Há muito para pensar, reorganizar e melhorar na educação escolar. Mas se há coisa que os rankings mostram é que a escola e os professores estão longe de ser o principal problema..Professor do Ensino Superior