Os pontos do vigário

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Ponto um. A previsível melancolia do Natal foi contrariada pela intervenção de Artur Baptista da Silva, autoproclamado economista, alegado alto funcionário da ONU, professor de uma prestigiada e inexistente universidade americana e consultor imaginário do Banco Mundial. Apetrechado destes títulos virtuais, o sr. Baptista da Silva participou numas conferências por aí, mereceu artigos elogiosos na imprensa, concedeu entrevistas a diversos media, plagiou uma suposta tese de doutoramento e, celebremente, participou numa emissão do Expresso da Meia-Noite, na SIC Notícias.

Ponto dois. Os órgãos informativos que engoliram as aldrabices do sr. Baptista da Silva mostram-se agora indignadíssimos com o indivíduo e, a título redentor, fazem questão de exibir o autêntico currículo dele: estada na prisão por burla, autoria de cheques sem cobertura, passagem por uma duvidosa direcção desportiva, autor do atropelamento de duas senhoras em Santo André, militância no PS e outras proezas do género. Nenhuma das televisões, rádios e publicações impressas cujo desleixo permitiu a trapaça se mostra inclinada a retirar autênticas ilações da falta de profissionalismo demonstrada.

Ponto três. O Expresso foi de longe o órgão que, sobretudo na pessoa do seu director adjunto, mais publicitou as opiniões do sr. Baptista da Silva. Após um artigo apologético e uma entrevista babada, ambos a cargo de Nicolau Santos, o Expresso, novamente através de Nicolau Santos, acaba por admitir com relutância que, conforme "tudo indica" (cito), o sr. Baptista da Silva "não exerce os cargos e as responsabilidades que dizia ocupar". Logo, num gesto sem precedentes, o semanário "resolveu despublicar" (volto a citar) no passado dia 24 a entrevista publicada no dia 15. Faltou explicar de que forma se processa tão ousado exercício. De qualquer maneira, a avançada tecnologia que permite "despublicar" uma entrevista pelos vistos ainda não permite "despublicar" um artigo e "destransmitir" um debate televisivo.

Ponto quatro. O sucesso inicial e fulminante do sr. Baptista da Silva prende-se somente com a sua capacidade em reproduzir fielmente os disparates de maior sucesso no País durante os últimos dois ou três anos, a saber: Portugal não tem de pagar nada a ninguém. Os alemães e a Europa em geral têm o dever de sustentar a nossa folia. A troika é má e injusta. A austeridade não se justifica. Etc. Ou seja, o sr. Baptista da Silva diz o que a vasta maioria dos especialistas verdadeiramente encartados tem dito sempre que chamados a propósito. E a conclusão inevitável é a de que a posse de diplomas a sério não confere maior lucidez do que os diplomas a brincar. A pior burla é a "legitimada".

Ponto cinco. Além de ter dissipado as últimas ilusões sobre a qualidade de certo jornalismo, o sr. Baptista da Silva teve graça. Desde logo, pelas artimanhas que engendrou. Depois, pelas ambições que revelou, aliás típicas da escala caseira. Os charlatães de nível internacional vestem fatos da Brooks Brothers e fazem por se infiltrar no jet set que paira em Saint--Tropez ou nos grupos de decisão que frequentam Washington, consoante os gostos. O charlatão indígena veste-se como Boaventura de Sousa Santos e sonha penetrar uns estúdios televisivos em Carnaxide. Ou, juro pela minha saudinha, pertencer à Academia do Bacalhau de Lisboa.

Ponto seis. No final de contas, o caso do sr. Baptista da Silva resume--se a uma vigarice sem especial gravidade, na qual um pobre diabo inventa os cursos e a carreira que nunca teve. Grave seria que um membro do Governo ou, imagine--se por absurdo, o chefe de um governo procedesse de igual modo. Felizmente, disso estamos livres.

Domingo, 23 de Dezembro

As lágrimas de Jorge Gabriel

Foi com algum atraso que soube da vigília em prol da Praça da Alegria. Em países menos exóticos, organizam-se vigílias pelas vítimas de massacres ou calamidades naturais no Terceiro Mundo. Aqui, o sentimento converge quase inteirinho para os conteúdos da RTP. Antes, houve o pesar face ao extermínio do Câmara Clara. Agora, temos a mágoa suscitada pelo êxodo do referido programa de variedades, forçado a mudar-se do Porto rumo à malévola capital. De tragédia humana em tragédia humana, os defensores do "serviço público" não se limitam a exigi-lo: reivindicam uma geografia específica para cada produto.

Espantosamente ou se calhar nem por isso, a vigília em questão juntou, segundo as notícias, diversas, e supostas, celebridades. Todas inconsoláveis, claro. O bispo emérito de Setúbal, Manuel Martins, confessou "sentir uma raiva muito grande", aliás o seu estado natural, e acusou o Governo de "esvaziar a voz do povo". Um cozinheiro aparentemente famoso, Hélio Loureiro, assegurou que "deslocalizar um programa que representa uma grande fatia dos nossos emigrantes é perder um pouco da nossa cultura". Emocionado, rezam os relatos, o apresentador da Praça da Alegria, Jorge Gabriel, lembrou os "milhares de idosos solitários que nos assumem como a sua única família".

Perceberam? Eu também não. Se um programa passa a ser realizado em Lisboa por troca com o "Porto" (na verdade, Vila Nova de Gaia), o povo perde o pio? Os emigrantes são incapazes de sintonizar emissões lisboetas? Só existem idosos acima do Douro? E, aproveito para sugerir, não se convoca uma vigília pelos velhinhos cuja família se resume a uma sucessão hertziana de "rubricas" de aconselhamento (digamos), conversa fiada e as cruéis cantorias do padre Borga ou similares? Como já aconteceu com boa parte da nossa classe política, o alegado Norte continua a exportar porcarias para o Terreiro do Paço e, misteriosamente, não festeja a proeza.

Eu, que sou do Norte a sério (na perspectiva de um transmontano, o Monte da Virgem situa-se praticamente na Mauritânia), não me ofendo nada com a transferência da Praça da Alegria e a supressão da RTP Porto. Embora reconheça que a perfeição implicaria o fim da RTP em geral. É possível que alguns ainda a chorassem. Mas ninguém ficaria a rir-se - excepto os contribuintes.

Terça-feira, 25 de Dezembro

Eu tenho um sonho

O pior nem é a greve da CP, perpetrada por indivíduos cujos salários estão muito acima da média nacional e cujos talentos nem tanto. O pior é o regozijo dos sindicatos, que em vez de lidarem discretamente com a coisa apontam o "sucesso" da "paralização" e, no limiar da pirraça, congratulam-se com as respectivas consequências. Ou seja, o contribuinte não se limita a pagar um serviço que vê suprimido por decisão dos seus prestadores: estes fazem questão de marcar a afronta para uma quadra susceptível de prejudicar os mais necessitados e, depois, insistem sem decoro na celebração dos danos causados.

Até agora, tudo o que de positivo as greves dos comboios alcançaram foi relativizar a ladainha oficiosa que, nas larguíssimas costas da ecologia, procura evangelizar as almas sobre as vantagens das empresas estatais de transporte. Da imprevisibilidade à dependência de extorsões, as vantagens estão à vista. Antes que as pessoas abdiquem, voluntariamente ou não, do direito à locomoção autónoma, convém lembrar que o automóvel é uma bênção e uma garantia de liberdade. É caro? Não sentiríamos tanto o custo se os impostos que financiam grevistas ficassem do lado de cá.

De resto, nos meus raros eflúvios de optimismo, sonho com o dia em que, mediante boleias, partilhas, empréstimos e oferendas dos meios de transporte privados, os cidadãos tornem irrelevantes os transportes públicos, e isto se os grevistas não o conseguirem primeiro. É a luta deles, não é? Com certeza, mas já vai sendo tempo de começarmos a nossa.

'E pur si muove'

O primeiro-ministro escreve umas banalidades no Facebook e a notícia são as banalidades e não o facto, hoje corriqueiro e deprimente em partes idênticas, de um estadista comunicar através das ditas redes sociais. Jerónimo de Sousa criticou trivialmente as banalidades e a notícia foi a crítica em geral e não o pormenor de esta incluir uma raríssima, quiçá inédita, lamúria pelo, cito, "empresário arruinado", espécime que súbita e aparentemente deixou de ser um alvo dos comunistas para se tornar um seu protegido. Se afastarmos a hipótese de gafe, eis um sinal de que, contra todas as expectativas, o PCP, afinal, move-se. Só que o faz tão devagar que ninguém repara.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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