Os novos prazeres de Reininho

<br />Num bar no bairro lisboeta da Bica, Rui Reininho come um croquete e bebe um copo de vinho branco – a tapar os olhos com a mão direita, desde que a médica lhe descobriu uma pedra nos rins e o avisou de que «vinho, nem vê-lo». Conversa descontraída sobre prazeres e não só, em ambiente decorado pela história do cinema, que atravessa a trajectória do artista. <br />
Publicado a
Atualizado a

Como Rick, personagem interpretada por Humphrey Bogart em Casablanca, Rui Reininho tem muitos amigos. Reencontrou músicos como Armando Teixeira e fez novas amizades, como JP Simões e Slimmy, para fazer o álbum Companhia das Índias, a solo depois de mais de vinte anos de GNR. Argumenta que queria dizer coisas para as quais não conseguia transportar os «capangas» dos GNR e confessa não ter a segurança da presença dos brothers para os espectáculos.
Rui Reininho foi movido pela paixão. «Andei de casa em casa para fazer esse disco, a aprender outra vez. Vinha de comboio do Porto para Lisboa aos fins-de-semana. O disco está personalizado nos meus gostos musicais e apresenta uma nova geração de músicos, um panorama do que os portugueses produzem na actualidade e muitas vezes não se escuta nem vê. Fazer um disco é como viver uma paixão, fui movido por estar apaixonado.»
Dispara a cantar «água fria, da ribeira, água fria que o sol aqueceu», ao encarar com um cartaz de Beatriz Costa em Aldeia de Roupa Branca, o mesmo filme em que o velho Ti Jacinto tapa os olhos quando bebe um copo, por ordem do médico: «Vinho, nem vê-lo!»
O cantor recorda os filmes de Joselito e Marisol, que explica terem formatado a estrutura das actuais novelas mexicanas, e cita Aniki-Bobó como obrigatório. «Cresci nos bares da Ribeira do Porto e ouvia música em festas nas casas das famílias inglesas, que traziam para Portugal o que havia de mais actual no rock and roll. Já ouvia Led Zeppelin quando muitos ainda descobriam os Beatles.»
El Al, um instrumental de um minuto e dez segundos de autoria de Armando Teixeira, abre Companhia das Índias. «É como dizer: sentem-se, atenção, o disco vai começar, fumem ou não. Eu tentei que fosse possível ouvir várias coisas nesse disco, uma viagem interior e não apenas um single. Hoje em dia, as pessoas pulam as faixas sem qualquer critério, não ouvem o conjunto de músicas que compõem uma obra. Eu tinha acabado de lançar o disco e já estavam a perguntar-me quais os próximos projectos.»
Os íntimos tratam-no por Braga, o apelido do pai; Reininho veio da mãe e Rui Kingness é graça do amigo Rui Veloso. «Cheguei a um bar e estava lá o Rui, já com os copos, e disse-me: “Então, senta aqui Rui Kingness.” Demorei a perceber, uma brincadeira com Reininho, como Little King». Ele não sabe ao certo a cor dos seus olhos. No dia da entrevista estavam castanho-claros. Uma namorada dizia que quando estão verdes é sinal de má disposição.


Veio estudar cinema para o Conservatório de Lisboa para conhecer pessoas e gozar com a arte. Ia para as ruas filmar sem película, que na altura custava «um balúrdio». «Pedíamos às pessoas para se beijarem ou  simulávamos acidentes em frente ao hospital. Depois tínhamos de explicar que éramos da escola de cinema.» Verdes Anos, de Paulo Rocha, um marco do Novo Cinema, de 1963, é referência na formação do artista Reininho. Ao colega Edgar Pêra, que hoje faz cinema com película, elogia o que chama «loucuras» do realizador de A Cidade de Cassiano, vencedor do Prémio Crítica do Festival de Montreal, em 1991.

Reininho seria actor se tivesse seguido uma carreira no cinema. Gosta da ideia de que os actores não têm de se preocupar com o que vestir ou como comportar-se na altura das filmagens, quando prevalece a personagem. Em Companhia das Índias, Reininho veste a pele da personagem. É viajante, ilusionista, compositor, defensor de causas, conjunto e síntese que compõem o músico. «O momento do espectáculo é de encanto, a própria noção está ligada à tragédia grega. É uma viagem que remete para os sítios onde já estive, para as pessoas que conheci e uma metáfora da aventura portuguesa rumo ao desconhecido.» Os chifres na capa são uma referência ao seu envolvimento na causa pelo fim das touradas. «Até a tradição tem de avançar e transformar-se, as touradas provocam o sofrimento do animal. É preciso deixar de se bater nas mulheres e o fim da escravidão de todos os tipos. O disco e a personagem usam outra linguagem.»


O músico diz que se tornou difícil ser enfant terrible em 2009, quando não se formam exércitos pela falta de causas. Afirma-se anarquista, no sentido utópico, evocado por Proust, «o homem livre sem as estruturas de poder e autoridade». Perante o horror que há tão pouco tempo se assistiu em Gaza, pergunta-se como podem as pessoas em seu redor estar preocupadas com a falta de dinheiro no multibanco ou uma falha da rede no telemóvel. «Algumas pessoas mobilizam-se quase como um descargo de consciência, “ah, é pelo cancro de mama, então assino”.» Afirma que o Portugal dos políticos e dos partidos não é o seu. Reivindica o Portugal da língua portuguesa, que disseminou o idioma e ajudou a criar o samba e a bossa nova.


O Reininho que canta Vamos viajar sem sair do lugar/ vamos encalhar se o motor não pegar/ vamos lá subir sem tentar decair/ vamos naufragar e morremos a rir/  é o Rui que pensa que as mudanças sociais precisam de tempo para se efectivar, mas que pondera sobre o receio provocado pelo «novo». «Se calhar daqui a cem anos as pessoas ficarão perplexas com o facto de termos exércitos e partidos políticos nos dias de hoje.» O estudante que parava no Cais do Sodré a pedir dinheiro para a revolução iraniana é o artista que lutou para impedir o Coliseu do Porto de se transformar num templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Lembra-se do tempo em que o jazz não era apenas música  «para as meninas do Ministério da Cultura», mas também uma causa. Levantou o punho em saudação quando Charlie Haden, contrabaixista que acompanhava Ornette Coleman no 1.º Festival de Jazz de Cascais, em 1971, dedicou o tema Song for Che aos movimentos de libertação em Angola e Moçambique. «É difícil assumir que se defende o IRA, a ETA e o Baader Meinhof, algumas das suas ideias, o que não significa os seus métodos. Os temas que abordo estão cada vez mais simples, mas nem sempre se compreende o que eu escrevo, mas eu não sou um homem fácil.»


Rui também pára, literalmente deixa o zumbido da música e do mundo de lado e ouve o silêncio. Escuta a própria circulação, o seu ritmo cardíaco. Já esteve em coma, duas ou três vezes, e garante que é um estado «fantástico porque desliga-se de quase tudo». A memória traz-lhe Fala com Ela, do espanhol Pedro Almodóvar, «o melhor cineasta português da actualidade, pois conta histórias típicas da aldeia onde há a tia, a prostituta, a senhora da padaria e a freira». Gosta da versão Woody Allen fora de Manhattan, como Match Point, encenado em Londres. Se calhar, «ele cria as temáticas para estar ao lado daquelas beldades».
Em Companhia das Índias, Rui Reininho concretiza sonhos, projectos e prazeres: uma viagem interior num disco a solo, tocar com músicos da nova geração e fazer espectáculos menos aparatosos, onde a banda caiba num táxi. Tem planos, mas ao estilo de E Tudo o Vento Levou pensará nisso amanhã, depois do café, sem saber o que virá depois.  


O encontro com Amália

«A recordação do encontro com a Amália é recente, fui buscá-la quando lembrava a história dos GNR, do primeiro disco.» O disco era Independança, o ano 1982 e o cenário um estúdio em Paço de Arcos. Reininho está tenso, «cantar é sempre pela primeira vez, tudo precisa de ser feito, começa do zero a zero» e sai em busca de uma bebida enquanto são gravados os sons instrumentais.
Abre a porta da cozinha e depara-se com um grupo a jantar, o prato era massa e a presidir à mesa estava Amália Rodrigues. A diva, firme e simpática, dirige-se a Reininho: «És tu que estás a gravar lá em cima? A que horas acabas? É que nós vamos gravar a seguir, pá!» Ele pedia desculpa, enquanto pensava se era cantor ou mesmo se tinha voz. «A Amália Rodrigues ia gravar e eu estava a empatá-la. Foi simpatiquíssima, tratou-me por tu, convidou-me para jantar e disse que bebia um copo da minha garrafa, se não fosse vodka e sim um “isquizito”.»


A diva do fado e o ícone do pop-rock concordam no facto de os portugueses serem «difíceis». «O que é fácil é desinteressante, a dificuldade enriquece, o mistério é feito também de silêncio. Não há nada mais perturbante do que o silêncio entre as pessoas.» Rui aponta a situação do país como causa da falta de sorrisos actual. «O desemprego gera depressão e as pessoas ficam em casa. Estamos a ficar uma pequena Suécia, onde faz mau tempo e as pessoas sofrem, mas não temos os benefícios sociais do Estado. Se calhar voltamos a sorrir na Primavera...»


Memórias de palco


Trata-se de uma confidência, mas o que Rui Reininho diz, está dito. «A sensação anterior à entrada no palco é como ir encontrar a mulher de quem se gosta. É terrível e não se pode sentir isso todos os dias. Depois de acasalarmos, de cantarmos, é preciso uma pausa.» Há dias que não lhe apetece cantar, mas sim ficar em casa, com a cadela Brownie, para a qual procura um namorado, ou a rever Lawrence da Arábia.
Vestir a máscara, incorporar a persona, é a estratégia do artista Reininho. Depois dos shows há o êxtase, mas não só, adverte o músico. «Há muitas frustrações e delas muitas vezes não se fala, é difícil fazer centenas de apresentações por ano e nem sempre as coisas correm bem. Um espectáculo dói, no corpo e no coração.»
No princípio, quando não liam os contratos que acordavam aparelhagem trifásica, os GNR rebentavam com a electricidade nas terras mais pequenas. Uma vez no Alentejo, «entusiasmado» pelo vinho local, Rui cumprimentou o público com um «boa noite, Campo Maior, terra de contrabandistas!» «Ficaram todos em silêncio, aquilo era para mim um elogio, mas no fim da noite a porta da residencial estava trancada», lembra.
Nos Açores, uma tempestade impediu um concerto dos GNR na Terceira e a banda viu-se em apuros para sair da ilha. Outra vez teve de ser protegida do público e dos organizadores pela Guarda Nacional Republicana. «Queriam que tocássemos duas horas. Eu explicava que não fazemos aquela coisa de bar de tocar várias vezes a mesma música. O repertório acabou e com ele a apresentação, mas o produtor não aceitava. As pessoas são generosas, sem dúvida, mas vida de músico não é só glamour.»



Os filmes que mais prazer dão a Rui Reininho

Lawrence da Arábia, de David Lean, está entre os seus filmes predilectos. Sabe de cor diálogos inteiros e colecciona revistas sobre o filme.

Julieta dos Espíritos, do italiano Federico Felinni, faz parte da colecção do músico.

Fanny e Alexandre, do sueco Ingmar Bergman, é uma obra colorida daquele que considera um mestre.

Recomenda «tudo» do americano John Ford; duas sugestões são Cavalgada Heróica e A Desaparecida.

Não consegue optar entre os filmes de Billy Wilder, recomenda Quanto mais Quente Melhor e O Pecado Mora ao Lado.
 
Feios, Porcos e Maus, do italiano Ettore Scola.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt