Os militares não são responsabilizáveis?

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Entrei pela primeira vez num quartel para fazer a inspeção. Notoriamente, não me conheciam: fui considerado "apto". Depois, já como recruta do Serviço Militar Obrigatório, coube-me nas sortes uma unidade militar muito perto de casa. Muitos do meu pelotão não tiveram o mesmo privilégio. Um grupo de açorianos passou três meses fechado no quartel, com pequenas saídas aos fim de semana para umas passeatas pela cidade, por impossibilidade de viajarem até às ilhas. Um camarada que vivia em Chaves passava a maior parte dos fins de semana livres no comboio, ou a caminho de casa ou no regresso ao quartel.

Os primeiros quinzes dias de recruta foram passados dentro do quartel. Desses tempos lembro--me disto: um quartel, mesmo no meio de Lisboa, é um sítio fora do mundo. O ambiente lá dentro é igual, seja no centro de uma grande cidade ou seja no topo da mais inóspita serra. O que está à volta de um quartel não entra lá dentro. Lá dentro vive-se num universo distante, imune a pressões externas: todos vestidos de igual; todos de cabelo rapado; todos sempre em grupo e impossibilitados de um momento de isolamento; total ausência de mulheres (na altura ainda era assim); comunicação limitada ao estritamente necessário e muitas vezes aos berros (como se houvesse uma relação direta entre autoridade e volume da voz); desprezo profundo por manifestações de pensamento minimamente intelectualizado; e uma permanente doutrinação para a ideia de que os militares são uma casta à parte - e superior - ao mundo (profano, diria) dos civis, visto como sinónimo de irresponsabilidade, individualismo, incompetência e hedonismo.

Ora, é esse mundo fora do mundo que transparece nas reações militares - centenas, para não dizer milhares , basta ler as redes sociais - ao facto de o chefe do Estado-Maior do Exército ter decidido suspender cinco oficiais superiores de Tancos. Aparentemente, é pura e simplesmente inconcebível para estas vozes - que vibram sempre que veem um político ser judicialmente penalizado - que os militares sejam eles próprios responsabilizáveis por guardar material militar que está numa unidade militar. E percebe-se que há castas dentro das casta: não haveria nenhuma gritaria nem generais a demitirem-se se o sancionado tivesse sido um soldado que adormeceu na guarita ou um sargento que organizou mal as escalas.

Para quem tem a obrigação de nos defender a todos nós, e é pago para isso, e voluntariamente o faz, e recebe uma arma, isto é preocupante.

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