BASTA UMA CAMINHADA pela Avenida da Liberdade, ali pelos passeios largos de calçada portuguesa, entre as pistas de rodagem dos automóveis, para já se poder vislumbrar os ciclos da natureza, as luzes do dia, as sombras do entardecer. Em cerca de um hectare de zona verde, estão ali plantados ulmeiros, plátanos, teixos e mais os canteiros de flores – as rosas e begónias -que trazem pontos de cor ao brilho branco das pedrinhas da calçada. Pequenos lagos e cascatas, e uma estatuária diversa pontuam o caminho, lembrando outros tempos em que aqui era uma vasta zona arborizada de Lisboa – antes era um bosque com trezentos metros de comprimento, o famoso Passeio Público, mandado construir depois de terramoto de 1755. Era aqui o principal sítio de lazer dos lisboetas, que se entretinham com festas e concertos e passeios. .Este tesouro verde da cidade transformou-se em 1874, quando o projecto de Ressano Garcia destruiu o célebre Passeio Público para dar lugar à avenida em 1882, que viria a tornar-se o ex-líbris da capital. Mas um aroma da natureza ainda está lá, sob cada sombra das árvores, no leve murmúrio da água corrente, na delicada pétala de uma flor de cor garrida que resistem e abafam o ruído ininterrupto do trânsito..E lá no alto da Avenida Liberdade, para além da Rotunda do Marques de Pombal, outro tom de verde agarra a vista – o Parque Eduardo VII, com a sua larga faixa central coberta de relva, ladeada por um passeio de calçada portuguesa com uma generosa largura de cem metros..O projecto deste parque, que recebeu o nome de Eduardo VII em 1903 por causa da visita do soberano britânico a Portugal, foi assinado por Henry Lousseau, arquitecto escolhido em concurso internacional em 1888, quando os terrenos foram municipalizados. De característica romântica, o traçado iria valorizar o relevo da zona que já recebia feiras e exposições desde 1898..Mas só em 1915 se iniciam os trabalhos de jardinagem, e em 1927 um novo arquitecto, Forrestier, iria concretizar o projecto de prolongamento da avenida e a construção do parque com jardins e campos de jogos. A configuração actual do parque data de 1942, quando Keil do Amaral projecta a larga faixa central. O arvoredo ao redor revela o seu perfil em frondosas espécies de carvalhos, amargozeira, eucaliptos, coqueiros-do-jardim e ameixoeira-de-jardim, um belo conjunto de castanheiros-da-índia, coloridos jacarandás, tílias-prateadas, incenso, pimenteira-bastarda e castanheiros-vermelhos..O relevo desigual, ora íngreme ora planície, conduz o caminho para uma variedade de recantos – cafés e esplanadas que nos surpreendem no Jardim Amália Rodrigues - parques infantis e restaurantes, um complexo desportivo com campo de ténis, ginásio e piscina, o Pavilhão Carlos Lopes e, claro, o oásis que é a Estufa Fria..Na verdade, o nome é Estufa Fria e Quente e estão localizadas quase no coração do Parque Eduardo VII. Foram construídas em 1930, sobre uma antiga pedreira onde havia uma grande nascente de água. É um dos mais belos viveiros naturais de vegetação exótica de regiões como a China, Coreia, África, Austrália, Brasil, Antilhas, Peru e México. Pequenos lagos, regatos, cascatas, nichos e um viveiro natural com espécies raríssimas transformam o local numa refrescante descoberta no meio de Lisboa..O jardim da GulbenkianSeguindo um pouco mais além, pela Avenida António Augusto de Aguiar e Avenida de Berna, encontra-se então um dos melhores espaços verdes abertos ao público e gratuito – o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. Entre as alamedas arborizadas, os terraços ajardinados, os canteiros de flores e os lagos e riachos do jardim da Gulbenkian estão mais de um século de história arquitectónica e paisagística da Freguesia de São Sebastião, uma zona nobre que foi Parque de Santa Gertrudes, propriedade da família Vilalva, desde a segunda metade do século XIX, Jardim Zoológico e de Aclimação de Lisboa (1884-94) e Feira Popular, de 1943 até 1957, data em que se transformou em sede da fundação. .Do design paisagístico delineado por Jacob Weiss, jardineiro do duque de Palmela, no século XIX, ficou a localização do lago central que concentra todas a atenção dos visitantes. Todo o espaço além foi desenhado pelos arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Facco Viana Barreto, que em 1961, ao traçarem os primeiros esboços, consideraram as espécies vegetais mais notáveis já existentes – especialmente um enorme eucalipto classificado como notável em 2006 – as variações topográficas do terreno e a disposição dos edifícios, para criar uma articulação fluida por todo o jardim..Ribeiro Telles, aliás, viria a aperfeiçoar ainda mais a impecável obra – considerada o mais representativo exemplar de jardim moderno na cultura portuguesa – quando em 2005 introduziu novos percursos em que a luz, a sombra, o lago e as orlas do jardim adquirem uma dimensão extra, uma perspectiva maior, uma vivência única. .Os percursos pedestres apoiados nos grandes quadrados de betão – verdadeiros apeadeiros para apreciar melhor a paisagem – desdobram-se em outros caminhos pelo jardim onde os contrastes de sombra e luz, árvores e clareiras sugerem outra fruição. .Há agora percursos periféricos que desvendam novos recantos à volta da orla do jardim – recantos pontuados por árvores notáveis, como os antigos eucaliptos ou um desmesurado pilriteiro, que ganharam espelhos de água circulares rodeados por gravilha vulcânica, que marca um sítio para se estar descansado à sombra, sentado nos convidativos bancos semicirculares.Outros caminhos levam ao sossego sob as romanzeiras, ao verde das enormes espécies de ficus ou à ramagem exótica dos raros teixos, espécie protegida em Portugal. Anéis elevados de rega aérea trazem mais frescura à atmosfera, uma humidade propícia aos exemplares do Novo Mundo que vieram diversificar a paisagem. .Novos cenários manipulam com maestria a luz brilhante de Lisboa, zonas de sombra e semi-sombra criam um constante jogo de claro-escuro, surpreendendo a cada instante. E os relvados numa parte elevada do terreno transformam-se numa grande onda onde as crianças podem rebolar-se à vontade, mais divertidas do que a brincar num parque infantil..Suaves encostas estão povoadas por carvalhos, enquanto choupos, freixos e amieiros ocupam as depressões do terreno e os pinheiros-mansos e ciprestes convivem bem com os prados floridos que se abrem em clareiras, como o roseiral na fachada sul do edifício-sede da fundação. .Depois são os regatos, os tanques de água, os pequenos lagos com nenúfares e os espelhos de água aqui e ali. São os túneis verdes de bambus, de árvores e arbustos a camuflarem o caminho que vai dar ao coração do Jardim Gulbenkian. É ao lago que todos os percursos vão dar – aquelas águas tranquilas sobre as quais os patos deslizam e a luz brilha tão intensamente. É aqui no âmago do jardim que o tempo quase pára e a cidade é um sítio muito além, muito longe para se ouvir. É aqui que se revela ainda mais a maestria do arquitecto paisagista Ribeiro Telles, que criou um jardim que é na verdade suspenso, construído sobre os camarins e salas de apoio ao auditório da fundação..O Jardim Botânico da Faculdade de CiênciasOutro jardim excepcional é o Jardim Botânico da Faculdade de Ciências, ali na Rua da Escola Politécnica. Com mais de vinte mil exemplares de plantas, árvores e arbustos de várias partes do mundo – todos identificados cientificamente –, distribuídos por uma área de quatro hectares, este jardim data de 1858 e é fruto principalmente do trabalho de dois professores, Andrade Corvo e conde de Ficalho, que orientaram a sua organização e instalação. As primeiras plantas e sementes vieram do Real Jardim Botânico da Ajuda, dos Jardins da Real Associação Central de Agricultura Portuguesa, de jardins botânicos de outras cidades europeias e de jardins particulares. .Uma alameda delineada por palmeiras da América do Norte e do México anunciam o grande porte das árvores deste jardim e um enorme ficus da Austrália marca a entrada do primeiro plano do jardim, um espaço onde se divisa a estufa e logo recortados canteiros de várias ervas, incluindo espécies aromáticas, que contornam um lago cheio de plantas aquáticas e nenúfares. Magníficas espécies de whashingtonia robusta e palmeiras do México convivem com magnólias, e a espantosa gingko biloba, um fóssil vivo, datável do tempo dos dinossauros, uma das primeiras plantas na história da evolução a reproduzir-se por sementes. Uma elegante escadaria dupla delimitada por um belo cedro, uma sequóia e estrelícias conduz o itinerário para a segunda plataforma do jardim, num declive do terreno. .Logo adiante fica a Rua das Palmeiras e um grande arvoredo que se estende por todo o terreno. Os exemplares mais destacados são uma figueira-dos-pagodes, original da Ásia tropical, planta sagrada para os hindus e budistas, e que serviu de motivo inspirador para o logótipo do Núcleo de Educação Ambiental.Com o mapa do jardim nas mãos, não é difícil reconhecer cada espécie – a engraçada paineira-barriguda, o curioso cipreste dos pântanos, com suas raízes cilíndricas e ovais a emergirem do solo alagado, o teixo, árvore rara que pode durar mais de 1500 anos e que em Portugal é protegida, ou mesmo a única palmeira portuguesa – a palmeira-das-vassouras ou palmeira-anã, cujas folhas são usadas para fazer papel, cestos, alcofas, vassouras e cadeiras. .Pelas alamedas circulares ainda se encontram o lago do meio e o lago de baixo, onde está um grande castanheiro-da-índia. Mais adiante, num aglomerado de árvores de grande porte como o cipreste do México, a nogueira preta, a sequóia-sempre-verde e um enorme metrosídero, uma árvore da Nova Zelândia cuja imensa copa está apoiada por pilares de ferro devido à incrível inclinação do tronco, e cujas raízes aéreas assumem um tom avermelhado pela manhã..Bambus da Ásia e da América do Sul, dragoeiros das ilhas atlânticas, cactos e aloés, cicas do Japão, África do Sul e Austrália, e canforeira, originária da Ásia, Sul da China e Japão, confirmam a variedade da flora deste jardim. E ainda escondida no meio do verde está uma estufa de borboletas, o Lagartagis, recentemente reaberto ao público, com os seus canteiros floridos para deleite das borboletas..O romântico Jardim do Príncipe Real Construído em 1830 após várias tentativas de ocupação desde o século XV – inclusive as ruínas da construção de um palácio em finais do século XVII pelo filho do marquês de Alegrete, a tentativa de construção de uma nova Sé Patriarcal e até uma lixeira do Bairro Alto em 1740 –, o Jardim do Príncipe Real recebeu o nome de Praça do Príncipe Real em 1859, em homenagem ao filho primogénito de D. Maria II. .O nome permanece, apesar das mudanças ocorridas em algumas décadas do século XX – quando foi chamado Largo de D. Pedro V e Praça do Rio de Janeiro – e da homenagem ao jornalista republicano França Borges, em 1915. O ex-líbris do jardim é um imenso e centenário cedro do Buçaco, com vinte metros de diâmetro, que domina o cenário, a par do lago central, do Museu da Água, dos quiosques e da esplanada e parque infantil. Em alguns finais de semana decorre aqui uma feira de produtos biológicos. .Jardim da Praça do ImpérioOnde no século XVII se encontrava uma zona de praia – a praia do Restelo – foi desenhado um dos mais belos e históricos jardins de Lisboa – o Jardim da Praça do Império, em Belém, mesmo à frente do Mosteiro dos Jerónimos e do Centro Cultural de Belém..Com sua Fonte Monumental – cujos repuxos de água se iluminam à noite e em que se destaca um conjunto de 32 brasões recortados entre os arbustos e pequenas flores, numa técnica de cultura-mosaico, representando as antigas províncias do império –, o jardim respeita uma traça ao estilo dos jardins greco-romanos e foi construído no decorrer da Segunda Guerra Mundial..O jardim foi palco de grandes comemorações, especialmente em 1940, data da Exposição do Mundo Português, quando foram assinalados o oitavo Centenário da Independência de Portugal e os trezentos anos da Restauração da Independência.