Não aceitando o politicamente correto que procura impor-nos uma forma levezinha de dizer coisas pesadas e, daí, passando para excessos de linguagem em que confundimos a ofensa com a liberdade de expressão, acabamos a tolerar comportamentos que colocam em causa o Estado de direito. A imagem de um bando de doidos, sem máscara, a gritar para cima do vice-almirante , das pessoas que o acompanhavam e dos agentes da PSP que foram chamados para o proteger mostra bem o país sem lei em que nos transformámos. Mais ainda se pensarmos que aquela gente irresponsável estava igualmente a intimidar menores, na presença das autoridades..É também uma forma politicamente correta que não deveríamos aceitar, esta inação da PSP perante a evidente ilegalidade do comportamento daqueles imbecis (expressão usada neste texto ao abrigo do grandioso combate ao politicamente correto) que, inclusive, estavam a colocar em risco a saúde dos agentes da autoridade e de todas as outras pessoas a quem brindaram com gotículas (veículos de transporte para o vírus) para a proximidade das vias respiratórias das suas "vítimas". Estes imbecis (novamente fazendo uso da liberdade de expressão) cometeram todo o tipo de ilegalidades e tiveram o que queriam, que era aparecer na televisão a toda a hora ao longo de todo o dia..Acho muito discutível que, perante um caso grave de saúde pública, alguém possa recusar ser vacinado, mas dou de barato que assim seja, porque me parece evidente que há um largo consenso nacional para que assim continue a ser. Seja, só se vacina quem quer. Mas quando é que convencionámos que lhes acresce o direito de tentar impedir os outros de se vacinarem? É evidente que aqueles imbecis (força de expressão) não agem em nome de todos os que entendem não se vacinar e é muito provável que estejam, aliás, ao serviço de uma estratégia negacionista mais alargada, fazendo o jogo de uma extrema-direita que tem o seu testa-de-ferro contagiado, depois de recusar ser vacinado..Comportamentos contrários à lei em vigor no país, como o racismo ou a xenofobia, são tolerados pelas autoridades policiais e de justiça, pelo que nem chega a ser surpresa que o politicamente correto (falinhas mansas e tolerância máxima) seja igualmente a forma de lidar com pessoas com pouco discernimento (eufemismo para descrever um/a imbecil), quando elas colocam em risco a saúde ou mesmo a vida dos que estão à sua volta..É, portanto, tempo de exigir às autoridades deste país que se deixem do politicamente correto quando têm de lidar com imbecis (não me ocorre outra palavra) que se julgam no direito de impor a sua vontade criminosa a todos os outros. Vi a calma com que o vice-almirante lidou com aquela gente, que lhe encheu a cara de perdigotos, e devo dizer que não partilho os elogios que vi muita gente fazer-lhe. Um militar não é um diplomata e a liderança faz-se pelo exemplo, se esteve bem ao denunciar que é o negacionismo que mata, esteve bastante mal ao permitir que o seu trabalho fosse boicotado por gente que faz gala de não cumprir as leis da República..À atenção do comandante Magina: apesar da queixa do piquete de greve, imagino como possível que a PSP tivesse reagido, apenas com a força necessária, aos excessos dos grevistas dos STCP no final da semana passada, mas não consigo perceber que a mesma polícia se tenha vindo a mostrar tão tolerante com outros comportamentos ilegais, como os deste sábado na vacinação..Jornalista