O seu livro Terra Americana, que conta a história de Lydia e Luca, mãe e filho cuja família é toda morta por um cartel e decidem fugir do México para os EUA, foi um sucesso até ser acusada apropriação cultural. Como foi enfrentar esta onda de comentários duros e negativos? Foi brutal. Eu sei que há pessoas que gostam deste tipo de controvérsia, mas eu não sou uma delas. Foi muito desconfortável para mim. Quando somos escritores, temos de ter esta estranha combinação na nossa personalidade em que somos ao mesmo tempo hipersensíveis ao mundo à nossa volta e insensíveis às críticas. Isso não existe. Portanto temos de desenvolver o lado que não temos naturalmente. Eu desenvolvi o ser insensível. Mas não é natural em mim. Escrevi este livro porque me preocupo com este assunto. E foi inacreditavelmente doloroso. Sobretudo porque as críticas não eram sobre o livro - isso eu posso suportar, as pessoas podem odiar o meu livro o quanto quiserem -, eram sobre mim. Sobre a minha identidade, a minha etnicidade, a minha integridade..Temos visto esse tipo de crítica, por exemplo, no cinema também, quando um ator heterossexual interpreta uma personagem homossexual... E onde é que isso nos leva? Quer dizer que atores gays só podem interpretar personagens gays? É uma loucura! Além disso, não deixa espaço para pessoas cuja identidade não é simples. Como eu. Como a maior parte das pessoas nos EUA, a maior parte das pessoas no mundo, na verdade..Passou cinco anos a fazer investigação para este livro, foi até à fronteira com o México Fui mesmo ao México, onde visitei abrigos para migrantes e orfanatos, falei com todos os especialistas, pessoas que sabiam muito mais do que eu sobre o assunto. Falei com pessoas que documentaram abusos de migrantes ao longo do caminho, advogados que trabalham pro bono a defender crianças desacompanhadas, pessoas que gerem os abrigos. Falei com muitos migrantes, pessoal humanitário. Eu queria compreender mais profundamente as realidades dos migrantes no terreno, o que têm de enfrentar para chegar a um local seguro..Depois de tanto trabalho, sentiu que eram ainda mais injustas as críticas que lhe fizeram? Não é que tenha sido injusto. Foi chocante. Nada na vida é justo. Não é justo que eu tenha conseguido um grande contrato para este livro, não é justo que tenha uma vida fácil, mesmo antes de Terra Americana. A lotaria de onde nascemos no mundo determina tanto as oportunidades que vamos ter - só o estarmos seguros, já nem falo de Educação, de sucesso. Não foi uma questão de justiça, foi mais que eu não estava preparada para tal. E fiquei furiosa, porque durante uns momentos antes da publicação, depois da Oprah [colocar o livro no seu Book Club], tive uma plataforma sem precedentes para chamar a atenção para as questões dos migrantes, falar desta crise. Mas esse momento foi obliterado pela controvérsia, foi aproveitado por pessoas que não são migrantes..No México terá ouvido muitas histórias - de violência, violação, mas também amor. Usou essas histórias para dar vida às suas personagens: Lydia, Luca, Soledad ou Rebeca? Não usei uma história específica, foi mais o sentido geral de mergulhar naquelas histórias que infundiu o livro. Especialmente a de Soledad e Rebeca que é a típica história de migrantes. Demograficamente. A migração compulsiva envolve mais vezes pessoas da América Central do que mexicanos. E geralmente são jovens que estão a fugir da violência dos gangues. Por vezes têm apenas 10 ou 12 anos quando são alvo dos gangues. E só têm três opções: juntar-se a eles, fugir ou morrer. Tragicamente, é uma história comum..Quando olhamos hoje para os EUA vemos um país muito polarizado - política, racial, economicamente. Há também um choque de culturas? Sem dúvida. É engraçado porque os EUA não são o melting pot que as pessoas acham. São antes um conjunto de ingredientes separados, não há muita mistura. Mas eu cresci numa comunidade não só muito diversa como incrivelmente integrada. Só soube que era diferente quando fui para a faculdade e o meu campus era muito segregado. Foi a primeira vez que, como jovem adulta, tive de lidar com a minha própria identidade, com o facto de ser uma pessoa de etnicidade mista. Nunca tinha pensado nisso antes. Na minha infância não era algo com que os meus colegas se preocupassem - não tinha maioritariamente amigos brancos, como não tinha maioritariamente amigos negros, era uma verdadeira mistura, a nossa rua era como as Nações Unidas. Tínhamos famílias negras, famílias mistas, famílias porto-riquenhas, judias, coreanas, japonesas, chinesas. Todos nos dávamos bem, casávamos uns com os outros. Na altura achava que o mundo inteiro era assim, mas os EUA não são assim, de todo. À medida que cresci, comecei a ter consciência da minha etnicidade. Quando eu era miúda, não tínhamos a palavra latino. Sempre nos identificámos como porto-riquenhos. E irlandeses. Mas na primeira vez que a palavra latino apareceu nos Censos americanos eu usei-a. Mesmo que sempre me tenha sentido mais à vontade a usar porto-riquenha do que latina. Depois de Terra Americana fui acusada de mudar a minha identidade porque era conveniente, para mim, explorá-la nesse momento. Tretas. Nunca mudei a minha identidade. Por vezes mudei a forma como articulei a minha identidade, como todos nós na última década, porque alguns termos nem existiam quando eu estava a crescer e tive de aprender a usá-los..Como foi crescer numa casa porto-riquenha e irlandesa. Tinham tradições de um lado e do outro? Aprendeu a falar espanhol? Falávamos espanhol em casa até o meu irmão ter dificuldades com o inglês na escola e os meus pais decidirem parar. Deixámos de falar quando eu tinha uns 5 anos e acabei por perder quase tudo. Mas tenho tentado recuperar nos últimos anos. Não sou fluente, mas falo espanhol. Mal .[risos] Uma das histórias engraçadas que gosto de contar é que o meu pai tocava música folk quando éramos miúdos. No St. Patrick"s Day, ele vinha à minha escola e fazia um espetáculo: tocava guitarra e cantava canções irlandesas, mas usava uma guayabera. Portanto eu achava que todos os cantores folk usavam camisas guayaberas. Não percebia que o meu pai era um misto de culturas, como era a minha família. Uma realidade que percebi com a polémica em torno de Terra Americana é que a minha porto-riquenhidade não é a típica porto-riquenhidade americana. A minha família não é nuyorican..Nuyorican? É um termo usado para designar as comunidades de porto-riquenhos a viver há gerações nos EUA, que nasceram nos EUA. E a cultura destes porto-riquenhos do continente é muito diferente da cultura dos da ilha. A minha avó era de Porto Rico, o meu pai passou metade da infância em Porto Rico..A família do lado do seu pai é porto-riquenha e a do lado da sua mãe é irlandesa? O meu pai é meio irlandês e meio porto-riquenho. É ainda mais confuso! Mas o meu pai andou na escola em Porto Rico, mudou-se várias vezes entre os EUA e Porto Rico na sua infância. Por isso, a exposição da nossa família às tradições de Porto Rico não era uma versão nova-iorquina dessa cultura. Isso é estranho para as pessoas. Muitos olham para mim e não reconhecem o que pensam ser uma porto-riquenha, mas se for a Porto Rico vai ver muitas pessoas que se parecem comigo, falam como eu, têm tradições como as minhas. É um pouco confuso..O seu marido é irlandês e foi imigrante ilegal nos EUA durante dez anos, essa experiência marcou a forma como encara este assunto... É uma forma aterradora de viver: não ter documentos nos EUA, saber que um dia nos podem mandar encostar e que um polícia demasiado zeloso podia mandá-lo embora para sempre. Mas o meu marido tem o privilégio de andar por aí com o aspeto que tem, de falar com sotaque irlandês, de fazer parte da comunidade de imigrantes mais amada nos EUA. Cada polícia que o mandava parar tinha uma avó na Irlanda e criava uma ligação com ele em vez de o deportar. Também percebo que mesmo a forma como ele chegou à América - apanhou um avião para o aeroporto JFK e esperou pela bagagem, entrou no país e deixou expirar o visto - até pode ser a forma como a maioria dos imigrantes ilegais entram nos EUA mas não era a história que eu queria contar. Compreendo as grandes diferenças entre as personagens sobre as quais estava a escrever e a experiência do meu marido. O que não significa que aquele medo não tenha moldado a forma como eu escrevi o livro. Houve uma altura em que eu e o Joe estávamos casados há uns dez anos e fomos de férias ao Arizona, só os dois. E ele estava momentaneamente sem documentos, enquanto pedia a cidadania. É um processo terrível e opaco o do pedido da cidadania, ou qualquer outro ligado à imigração nos EUA. Durante o processo de pedido de cidadania dele, a carta verde expirou, mas o advogado disse para não a renovar porque isso ia sobrepor-se ao pedido de cidadania e seria preciso recomeçar. Por isso houve um período de quase um ano em que ele voltou a estar sem documentos. E nessa altura já tínhamos a nossa casa, dois filhos, um cão, uma vida a sério. Foi tão assustador. Durante esse ano ele não pôde ir a casa, não podíamos sair do país. E eu ficava aterrorizada sempre que éramos mandados parar. Daquela vez no Arizona perdemo-nos. Encostámos para olhar para o mapa e demos meia-volta. Mal o fizemos, um carro-patrulha chegou e mandou-nos parar. Eu tinha estado no México e no ano anterior tinha conhecido lá uma mulher que tinha sido deportada por ter prestado falsas declarações. Um agente perguntou-lhe se era cidadã americana e, num momento de medo, ela disse sim. E acabou deportada e proibida de entrar nos EUA até ao fim da vida. Tem três filhos que são cidadãos americanos, é casada com um US Marine, mas não pode regressar. Por isso eu sabia que o Joe não podia, nunca, dizer que era cidadão. Disse-lhe: "Não fales, deixa-me falar eu". Quando o agente chegou à janela, perguntou porque tínhamos voltado para trás, eu disse que estávamos perdidos e estávamos a olhar para o mapa. E ele perguntou se éramos cidadãos, eu disse sim. E ele: "OK, tenham um bom dia". Esse foi o momento. Percebi que se eu fosse diferente, se parecesse mais porto-riquenha, se o meu marido não fosse irlandês, teria sido o fim da nossa vida juntos. Naquele momento, fomos salvos pelo nosso privilégio de brancos. Sem dúvida..Há cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA, a situação na fronteira com o México continua complicada. Com Joe Biden a retórica é muito diferente da dos anos Trump. Mas vê alguma mudança nas políticas de imigração? Não. Estou tão desiludida com a Administração Biden. Penso que a retórica é importante e que o facto de já não estarem a usar aquele discurso de ódio significa que potencialmente as pessoas já não se sentem tão encorajadas a praticar atos de violência contra imigrantes, mas as políticas continuam desumanas. O motivo é que há demasiado em jogo, politicamente, de ambos os lados. Esquerda e direita estão a usar a imigração - ninguém tem mesmo interesse em resolver o problema. Há coisas que podíamos fazer já para ajudar e não as estamos a fazer. Precisamos de mais juízes de imigração - não podemos pedir a mulheres e crianças vulneráveis que esperem durante dez meses na fronteira, onde estão a ser violadas e mortas, para serem ouvidas em tribunal. Se gastássemos uma fração nos tribunais de imigração do que gastamos em militarizar a fronteira, podíamos fazer uma verdadeira diferença e aliviar o sofrimento destas pessoas. Segundo os políticos e os media mainstream, esta parece uma questão muito polarizada, mas não é. Se for ao terreno e falar com as pessoas, como fiz nos últimos anos do Iowa a Los Angeles, de Nova Iorque ao México, vai ver que há muito roxo, entre o vermelho (dos republicanos) e o azul (dos democratas). Ninguém quer que tiremos crianças dos braços das mães na fronteira. A maioria dos eleitores nos EUA gostaria de ver mudanças nesta questão. Mas os políticos não querem. Com algumas exceções notáveis, como [o ex-congressista do Texas] Beto O"Rourke..O seu livro de memórias A Rip in Heaven centra-se numa história real: a violação e morte das suas primas e a tentativa de assassínio do seu irmão. Escrever sobre um momento tão traumático foi uma forma de processar o que aconteceu? Sem dúvida. A ideia não foi minha, foi do meu irmão. O psicólogo disse-lhe que ele devia escrever sobre o que lhe aconteceu, recuperar a sua voz. Porque na altura houve um grande foco nos quatro perpetradores do crime e as mortes das minhas primas Julia e Robin estavam a ser relegadas para segundo plano. O Tom, o meu irmão, tinha perdido a capacidade de articular a sua própria verdade. Para ele foi uma forma de recuperar a sua voz. Ele veio ter comigo e pediu se o ajudava a escrever. De início não queria. Nós temos uma família grande, não queria ser a sua voz. E não queria mergulhar nos pormenores daquela noite. Eu tinha 16 anos. Estava bastante feliz por não saber os pormenores. Mas ao escrever o livro, tive de os conhecer. Acabei por ser convencida pelo meu irmão. Achei que ele tinha o direito de contar a sua história. E que tendo eu capacidade para o ajudar, não lhe podia negar isso. Também senti que era a coisa certa a fazer pelas minhas primas, que lhes podia devolver algo das suas vidas, mesmo que fosse só uma ínfima parte de quem elas eram..Os seus dois primeiros romances - The Outside Boy e The Crooked Branch - exploram a história da Irlanda, ou seja, o outro lado das suas raízes. Foi importante para si mergulhar nessa herança? Eu vivi uns anos na Irlanda quando tinha 20 e poucos anos. Acho que escrever o meu primeiro romance, The Outside Boy, foi uma espécie de reação a ter escrito A Rip in Heaven. Aquele livro era tão pessoal, tão doloroso e eu vivi aterrorizada de ter cometido algum erro, por isso decidi que nunca mais ia escrever não-ficção. Assim decidi escrever sobre um miúdo de 12 anos, na Irlanda, nos Anos 1950, de uma família de viajantes. Tendo vivido na Irlanda eu estava fascinada com aquela comunidade e com a forma como foram tratados. Havia uma animosidade tremenda entre as populações fixas da Irlanda e os viajantes. Achei isso muito interessante até porque a cultura irlandesa baseia-se na hospitalidade, em dar as boas vindas a qualquer estranho. Mas os viajantes não são bem-vindos. Fiquei interessada em explorar isso. Já The Crooked Branch evoluiu naturalmente a partir daí. Tinha acabado de ter o meu primeiro bebé, que não foi exatamente aquilo que eu esperava. Achava que iam ser arco-íris e unicórnios e afinal estava exausta, doía-me tudo e ela não parava de chorar. The Crooked Branch é sobre a maternidade, aprender a vivê-la. E sobre como a longa linhagem de mães que vieram antes de nós nos pode ensinar muito sobre nós próprias..O seu próximo livro, será sobre Porto Rico? Mais ou menos. Estou a escrever uma história muito vagamente baseada na da minha família. Sobre três gerações de uma família porto-riquenha. E mais não posso dizer, para já....TERRA AMERICANA Jeanine Cummins Edições Asa 19,50 euros 448 páginas