Os estrangeiros em férias no NOS Alive

Quase 32 mil bilhetes foram vendidos fora de Portugal. Destes, mais de 15 mil vêm do Reino Unido. E fazem-se notar
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Há um conjunto de placas na zona de alimentação do Nos Alive que dão uma ideia da distância a que fica Lisboa de algumas das capitais da Europa, as mesmas cidades de onde vêm parte dos festivaleiros que começaram ontem a invadir o recinto no Passeio Marítimo de Algés. "Amamos festivais", diz uma rapariga norueguesa, que veio com seis amigas.

Noutra mesa, um grupo de dez ri-se, animado, copo de cerveja na mão. Alguns acabaram de se conhecer e apenas partilham a nacionalidade britânica, a mais fácil de encontrar. Segundo as contas de Álvaro Covões, 15 144 bilhetes foram comprados em terras de Sua Majestade. Eles surpreendem-se com os números e a conversa vai, quase inevitavelmente, parar aos euros. "Não é muito mais barato vir ao festival aqui, mas é mais barato", diz um deles, louro e cheio de sardas. Outro lembra a queda da libra no pós-referendo do brexit.

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Mas a questão não é pacífica. "Em Inglaterra, uma cerveja seria 8 libras, aqui esta foi 4 euros. Seria mais caro num pub", diz outro elemento do grupo. "E o preço de três dias de festival é o mesmo do que o de um bilhete para um concerto de Radiohead", sublinha. Alguns não conseguiram comprar bilhete para hoje, dia de Radiohead, o primeiro a esgotar, e pagámos "imenso". E sublinha o "imenso", sem entrar em detalhes.

Com um copo de vinho branco na mão, a norueguesa Lise Rafaels, jornalista, explica que em casa pagaria 10 euros por algo semelhante. "Aqui custou dois e meio." Uma semana de férias, alojamento e passe para os três dias dão quase 600 euros por pessoa. Foi o que ela e as amigas desembolsaram.

Ir a festivais como modo de vida

Lise e as amigas - Ine, Helene, Mina, Sira, Tuva e Nora (todas com apelidos impronunciáveis) - costumam viajar juntas. "Amamos festivais", diz uma delas. Depois do Coachella, nos EUA, e de Londres, há um ano, este ano decidiram vir ao Alive. "Comprámos os bilhetes em dezembro por causa do alinhamento." "O alinhamento do ano passado", continua Lise.

Conhecer festivais pode ser um modo de vida. "Sou um raider de festivais", diz Ario Amico, apontando para o pulso, carregado de pulseiras, depois de tirar uma fotografia com um cachecol da Itália natal e palco principal de fundo. Está com a namorada, norte-americana, Katherine, e é como se também estivesse em digressão como as bandas que vêm ver. Passaram por alguns no país de origem e pelo Primavera Sound, em Barcelona, Ario viu os Radiohead.

Todos querem Radiohead

Radiohead. Radiohead. Radiohead. É a banda que toca esta sexta-feira à noite que mais pessoas querem ver. Todos os estrangeiros com quem o DN falou disseram-no, exceto Ario, mais interessados nos Arcade Fire, no sábado. A banda passou pelo festival em 2013 e Álvaro Covões, dono da Everything is New, promotora do evento, não tem dúvidas: "Não há ninguém que, podendo, não tenha os Radiohead."

Festival com sol

E é como se fosse a afirmação mais banal do mundo que Hayhyn Lee, sul coreana, diz ao DN, o que veio ver ao Alive. "Radiohead, claro". Lee, 22 anos, terminou os estudos de psicologia em Inglaterra e anda a viajar pela Europa. Vai estar em Lisboa uma semana. Veio com uma amiga, Jin, 34 anos. O bilhete para o festival, comprado na Coreia do Sul, apareceu após uma pesquisa na internet pelo nome da banda, e depois de ter perdido o festival de Glastonbury. Que pode ser um dos festivais mais conhecidos do mundo, mas "tem lama". "Aqui não há disso", dizem as duas amigas, artilhadas de chapéu e óculos de sol, a cara cheia de protetor sol, a desfrutar dos 30º da tarde de ontem. A vinda a Portugal inclui passagens obrigatórias pela baixa, Alfama, depois de já terem estado em Belém, como denuncia o saco de pastéis que Lee segura.

Enquanto os portugueses procuravam a sombra, os estrangeiros aproveitavam todos os raios de sol. Poppy e Jem dizem que é isso que os traz ao Alive. Ela é galesa, ele é inglês e estudou no País da Gales, motivo de sorrisos, ontem, nem 24 horas passadas desde que Portugal eliminou o país no Euro2016 com dois golos. Ouviram o resultado do jogo no avião que os trouxe para Lisboa ontem, graças ao comandante, que foi mantendo os passageiros informados. Têm os bilhetes desde março, e diz que no Reino Unido "seriam 300 euros, aqui 119 euros".

Álvaro Covões diz que há 82 nacionalidades representadas no festival, considerando o país da compra dos bilhetes. Atrás do Reino Unido, vem Espanha com mais de 8500, depois França, com quase 2400, e a Alemanha com mil.

Carina e Matthias Buck são dois deles. Vieram da Alemanha, de carro, numa viagem de 18 dias, e em Espanha começaram a fazer a costa, desde Santander, um trajeto bastante diferente do que Matthias, filho de mãe portuguesa, lhe mostrou em anos passados. A viagem estava planeada quando começaram à procura de concertos e descobriram Biffy Clyro no cartaz do Alive há três meses. Tinham acabado de passar o controlo da entrada quando falaram com o DN, horas antes do jogo das meias-finais França-Alemanha, que vem à conversa. "Vai dar para ver o jogo?", pergunta ele. "Não destruam os meus sonhos", dispara, perante a resposta negativa, mas já conformado. "Ah, se quisesse ver o jogo ficava em casa". E não podia, porque o concerto de Biffy Clyro foi à hora da partida. E foi essa a razão para vir ao festival português.

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