"A luta do povo pelos seus direitos". A voz ecoa. As palavras atravessam o vale. Há gente que entreabre as janelas. Alguns saem das casas penduradas na montanha, de um lado e do outro das encostas, para ver de onde vem aquela pregação pausada. O ladrar dos cães, assustados, mistura-se. "Para que o povo possa ter força, temos de dar força ao povo das zonas altas". A voz vem do distante viaduto. "Os direitos não caem do céu, os direitos conquistam-se". Há um homem de pé, de microfone da mão. Há outro junto ao carro branco parado com os quatro piscas ligados. As palavras ecoam por alguns minutos. "Muito obrigado por me terem escutado"..Aquele modo de falar, e aquele tom, parecem-me conhecidos. Pego no telemóvel e ligo. O homem do microfone atende. "Edgar Silva?", pergunto. O candidato da CDU às eleições regionais, que em 1997 deixou o "ministério sacerdotal", e que recentemente concluiu um doutoramento em história (Vendaval de utopias. Do socialismo social ao compromisso político em Portugal. Os católicos da Revolução e o PCP), acena do outro lado..Minutos depois, num viaduto adiante, alcançamos o carro de propaganda da CDU. Edgar Silva está prestes a começar nova "pregação". E o uso que faço da palavra tão pouco o incomoda. Um sorriso. "É propagar a justiça, protestar contra a injustiça", diz enquanto pega no microfone ligado a "uma corneta"..O antigo candidato do PCP às presidenciais de 2016, nascido na freguesia de São Martinho no Funchal, que em 1996 falava do "recurso à deslealdade e à mentira" por parte do PSD Madeira, e a quem Jardim chamava de "agitador", explica que "aqui, não há nada, nem um pequeno parque infantil. O que falta? Esgotos, acessos, transportes públicos. Há uma dificuldade em ter o que é elementar para uma vida digna". "Felizmente", acrescenta antes de retomar a campanha, "e apesar de tudo, a pobreza descalça, a mais miserável não é muita aqui. Aqui há muita mistura"..Dias depois, na Estalagem da Encumeada Jorge Cordeiro, do secretariado do PCP, momentos antes do comício com o secretário-geral, haveria de dizer-me que "tem sido normal esta forma [a de Edgar Silva] de fazer campanha eleitoral"..Em Feiteirais-Serra d"Água (Ribeira Brava), na Encumeda, o parque de estacionamento está praticamente cheio. O tempo daqui está "invernoso", diz-me. Chove, há nevoeiros nos picos das serras, e a temperatura nada tem a ver com a do Funchal..Paulo Raimundo só vai estar algumas horas na Madeira. Chega para o jantar-comício e vai embora na manhã do dia seguinte. Durante a tarde teve reuniões partidárias..Há três autocarros parados. Outros mais chegariam nos minutos seguintes. Só depois chegaria o secretário-geral, em passo acelerado, ladeado por Edgar Silva. Lá dentro, já há alguns minutos estão Ricardo Lume, o único deputado do PCP na Assembleia Legislativa Regional, e os candidatos da CDU. E 310 militantes do partido, alguns deles vieram de barco de Porto Santo. "Quase metade dos militantes comunistas na Madeira", dizem-me..À entrada gritos de "CDU, CDU", palmas e um acenar de bandeiras. Paulo Raimundo vai cumprimentando os camaradas. Ricardo Lume, o primeiro a discursar, projetando a voz, disse ver ali a força do partido na Madeira, mas não esqueceu de sublinhar que "nestas eleições regionais está colocado um enorme desafio: transformar o reconhecimento e a simpatia depositada na CDU em expressão eleitoral" - as sondagens, até agora divulgadas, colocam em dúvida a manutenção do partido na Assembleia Regional..Edgar Silva, no seu tom habitual, pausado, recordou a "prece" de Miguel Albuquerque, na Senhora do Monte, que "implorava para que tudo se ficasse na mesma", para concluir que "só quer que fique tudo na mesma quem tem a barriga cheia",.E os da "barriga cheia", são aqueles "5% dos mais ricos que detêm 58% da riqueza criada nesta terra" enquanto "ao nível nacional" o valor é de "42%"..No seu discurso, Paulo Raimundo, para além das referências habituais ao "aumento de salários e pensões", a um partido que "está ao lado do povo e dos trabalhadores", apelou ao "voto útil" [a mensagem de transformar "o reconhecimento e a simpatia" em votos nas urnas] para que o PCP seja a "grande surpresa da noite eleitoral"..Restam duas dúvidas. Se é tão importante o apelo ao voto [ as sondagens não são favoráveis ao PCP] porque veio o secretário-geral somente umas horas à Madeira? E que "forças subterrâneas" são essas que é preciso "combater"?.A resposta ficou adiada para depois do jantar-comício. Ordeiramente, seguindo indicações, cada "mesa levanta-se à vez" e forma fila para o self-service. "É assim na Madeira", diz-me um velho comunista, "não é uma coisa nossa"..Aguardo por Paulo Raimundo que chega, tranquilo, para fumar "um cigarrito". O que são as "forças subterrâneas", pergunto. "É toda aquela história de que o PCP é a favor da guerra, que o PCP quer é a guerra. É precisamente o contrário, mas pegam nas coisas mais básicas das pessoas e puxam isso para cima". Insisto. E são esses os argumentos aqui? "São, é que não há outros. Quais são os outros? Não há nenhuma luta que seja desenvolvida aqui na Madeira pelos direitos dos trabalhadores e do povo que não tenha o ânimo e influência do PCP", responde dando exemplos da "ação do partido" e criticando "a ideia de que vamos desaparecer". Não vão? "Sinceramente acho que não". E não é esta uma eleição para si, um teste à sua liderança? "Não, não... eu vou ficar muito satisfeito pelos nossos resultados aqui se forem positivos. Se forem negativos, cá estaremos para o combate"..Não era importante para o PCP da Madeira que o secretário-geral estivesse aqui, nas ruas, a fazer campanha na semana decisiva? "Podíamos ter feito uma agenda, mas não fizemos. E não foi para me salvaguardar. Para mim era uma satisfação enormíssima. Mas é assim. É a agenda. Não há outra razão que não essa". Insisto várias vezes, durante alguns minutos, na mesma questão. Paulo Raimundo responde sempre falando da agenda nacional que tem "efeito aqui". Não vale a pena insistir mais, pois não?, digo pela última vez. O secretário-geral do PCP solta um riso..-.Iniciativa Liberal fala em campanha acima da expectativas.O cabeça de lista da IL às eleições legislativas da Madeira afirmou ontem que a campanha eleitoral tem corrido acima daquilo que eram as expectativas, apontando que as pessoas já estão a perceber que o partido apresenta soluções "plausíveis". "Começam a perceber aquilo que nós queremos dizer, que temos ideias, que temos soluções plausíveis, não são disparates ou coisas ditas da boca para fora. Somos disruptivos e, acima de tudo, reformistas", salientou Nuno Morna. O candidato falava no decorrer de uma arruada no concelho de Santa Cruz, que contou com a presença do líder nacional da IL, Rui Rocha, e de alguns deputados do partido à Assembleia da República. Nuno Morna realçou que as pessoas têm recebido "muito bem" a candidatura da IL nas ruas. "Tirando um episódio do qual não me orgulho", ressalvou, referindo-se a uma discussão que teve com um popular na quinta-feira, no Funchal, na qual o cabeça de lista se exaltou..Chega critica incapacidade do Governo para falar com a Banca.O cabeça de lista do Chega às legislativas da Madeira, Miguel Castro, disse ontem que a "perda de poder económico" é o que mais preocupa os madeirenses e defendeu que o Governo tem de "conversar com a banca". "As pessoas começam a ficar desesperadas e não veem capacidade nos governos. O Governo [da República] não consegue conversar com a banca, não consegue articular medidas de proteção à sociedade", disse, alertando para o novo aumento das taxas de juro em 25 pontos base, anunciado quinta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE), o décimo consecutivo. Numa ação em Machico, Miguel Castro apontou ainda como principais preocupações dos madeirenses a elevada carga fiscal e a perda de poder de compra, sublinhando que isso agrava o problema da habitação. "Mesmo as pessoas que têm casa sentem muito medo de a poder perder. As pessoas sentem-se aflitas. Há pessoas que pagavam 700 e poucos euros de mensalidade de casa e que agora pagam 1300", alertou..Bloco diz que desapareceu "verniz" que disfarçou jardinismo.O cabeça de lista do Bloco de Esquerda (BE) às regionais na Madeira, Roberto Almada, acusou o PSD e CDS-PP de utilizarem meios públicos na campanha, considerando que desapareceu "o verniz" usado para tentar apagar o passado jardinista. "É uma vergonha e o Bloco não se cansa de denunciar que os meios do Governo Regional e da região não são da coligação PSD/CDS", declarou o candidato no único almoço que a candidatura do BE vai fazer nesta campanha, no Concelho de Câmara de Lobos. Roberto Almada falou das promessas que o cabeça de lista da coligação PSD/CDS, o social-democrata Miguel Albuquerque, que se recandidata a um terceiro mandato como presidente do Governo Regional, tem feito em inaugurações de "estrada e supermercado". "Miguel Albuquerque é o novo jardinismo", afirmou o candidato, considerando que "o verniz democrático com que tentou apagar o passado jardinista já desapareceu", numa referência a Alberto João Jardim, que liderou o Governo Regional da Madeira durante 37 anos..JPP defende pacto de regime para baixar preço da habitação.O cabeça de lista do Juntos Pelo Povo (JPP) às legislativas da Madeira, Élvio Sousa, defendeu um "pacto de regime" entre o Governo Regional e as autarquias para colocar habitação no mercado a preços acessíveis, evitando que mais madeirenses caiam na pobreza. "Atacar a habitação é colocar oferta pública no mercado dentro de dois anos, mas é o próprio Governo e as câmaras a construir. O Governo deve fazer protocolos abertos, livres, com todos os municípios e fazerem um pacto de regime", disse, acrescentando que, caso contrário, "os madeirenses ou vão ganhar para ir ao supermercado, ou vão ganhar para arranjar um sítio para viver". Élvio Sousa falava após uma arruada da candidatura do JPP, na cidade de Machico, na zona leste da ilha, onde os candidatos contactaram com populares, comerciantes e taxistas, enquanto distribuíam esferográficas e panfletos. "É importante não empobrecer a classe média, porque, infelizmente eu temo, dado o preço a que estão as habitações, isso vai arrastar mais madeirenses para a pobreza", disse..artur.cassiano@dn.pt