Observam toda a gente, em qualquer lugar, e todos os detalhes interessam. Conseguem ver para lá do que está à vista e assim antecipam o futuro - dos comportamentos, do consumo, dos negócios. Tecnologia, moda, música ou até rebuçados e embalagens de mostarda, tudo pode depender das dicas destes caçadores de tendências, a nova base de uma pirâmide de empresas interessadas em conhecer as ambições dos clientes.Telemóveis que permitem pagar a conta do restaurante, galochas que carregam o telemóvel a partir da energia do movimento ou calças de ganga que combatem a celulite são «exemplos de ideias que não surgiram da mente brilhante de um empresário» mas de necessidades dos consumidores identificadas por caçadores de tendências, assegura Vanessa Trindade, de 35 anos, diretora-geral do TrendAlert, que se apresenta como a primeira comunidade nacional de observadores de tendências. Nestes casos, os «caçadores perceberam que as pessoas querem objetos que lhes sirvam duplamente» e as marcas limitaram-se a trabalhar nesse sentido. «Desengane-se quem acredita que estas ideias nascem nos departamentos de desenvolvimento ou marketing das empresas», diz Vanessa. O resultado pode bem ser, a médio prazo, um mundo feito à nossa medida, com carteiras que avisam a polícia se forem roubadas, ou telefones que conseguem dar ordem à Bimby para tratar do jantar e desmarcar a manicure sem que tenhamos de tocar no aparelho.O caso das redes sociais é paradigmático. Graças a elas, os clientes ganharam a possibilidade te ter as opiniões massificadas. Virais. As empresas já perceberam que não podem perder este comboio. «Quando estamos satisfeitos dizemos, quando não estamos também. Também dizemos o que queremos e o que não quereremos. E estamos sempre a dizer do que precisamos. O conceito de consumidor deixou de existir para dar lugar ao prosumer (consumidor e produtor de conteúdos, nas redes sociais ou em blogues) ou kissandteller (experimenta e manifesta a opinião publicamente). Isto é informação e é extremamente útil para as marcas», diz a responsável..Vanessa era consultora de marketing de uma multinacional quando tomou contacto com os primeiros relatórios de coolhunting. Nasceu assim uma paixão que a levou a mudar de vida, adaptando ao mercado português o que já se faz há alguns anos em países como os EUA ou Reino Unido. Em junho de 2011 nasceu o TrendAlert, um observatório de tendências que reúne a primeira comunidade nacional de caçadores de tendências. Em novembro, o site já estava a funcionar. «Antecipamos necessidades futuras, ideias que vão mudar os nossos dias e sobretudo antevemos oportunidades, através da observação próxima dos novos movimentos. Semestralmente produzimos relatórios para as marcas e agências com uma antevisão de novos comportamentos de consumo até dois anos.» Os nomes das marcas clientes, esses ficam no segredo do negócio.Nesta rede de novos negócios e empresas, os blogers surgem como um elemento forte: o TrendAlert conta com uma equipa de mais de cem colaboradores, muitos deles recrutados na web. «Quando estamos a fazer coolhunting, um dos nossos editores entra em contacto com alguém para convidar essa pessoa a participar», esclarece Vanessa Trindade. Estes «caçadores» não são remunerados, mas premiados, nomeadamente com formação. «São os primeiros caçadores de tendências em Portugal e ser o primeiro é bom. Verem os seus nomes e blogues associados ao coolhunting é uma mais-valia, que hoje pode não ser óbvia, mas será. Ser coolhunter é a profissão do futuro.».Sílvia Silva acredita que sim. «Aceitei o convite para colaborar com o TrendAlert porque era uma coisa nova e tive vontade de experimentar. Não o fiz com nenhum objetivo financeiro, porque na era digital a moeda de troca nem sempre é o dinheiro. Há coisas, como a propriedade digital, que têm muito valor mas não são propriamente mensuráveis», diz a engenheira de 34 anos, autora do blogue www.raparigascomonos.com. Sílvia trabalha a partir de casa enquanto cuida das filhas e fala do que gosta na internet. «Escrevo sem grandes preocupações. Depois haverá um conjunto de pessoas que se identificam comigo. São os nichos. Hoje, as massas são compostas por pequenos nichos. A moda e as rock stars já não ditam coisa nenhuma. São as pessoas que o fazem a uma velocidade tão estonteante quanto a da comunicação na internet.»Admitindo fazer trabalho não remunerado como caçadora de tendências, Carolina Almeida, de 28 anos, defende que a retribuição devia integrar os orçamentos das empresas. «É um trabalho tão legítimo quanto o de um analista ou consultor. Submeto-me a pequenos trabalhos sem remuneração por ser impossível contrariar esta "máquina" e porque desejo ter o máximo de experiência para ser melhor e apresentar um trabalho cada vez mais fiável», justifica a jovem licenciada em Ciências da Comunicação e com uma pós-graduação em Análise e Investigação de Tendências de Moda. Para ela, caçar tendências é ser «uma espécie de detetive de estilos de vida e comportamentos e um eterno observador da realidade, com um olho treinado para captar determinados fenómenos, padrões ou atitudes». Não se trata de adivinhar o futuro. É uma questão de perceber «as subtilezas dos consumidores», descortinar «para onde vão e de que forma o estão a fazer». Carolina é jornalista freelancer e caçadora de tendências «por paixão e a tempo inteiro». Até porque «a apetência pela procura do novo e do cool não é um botão que se ligue e desligue. Estou constantemente atenta a tudo: às roupas, ao que as pessoas fazem nos transportes públicos, como se movimentam, como se juntam com os amigos, como conjugam as roupas, as cores que mais utilizam, os sítios que mais frequentam e como os frequentam».O seu alvo preferencial de observação são os locais onde habitualmente se movimentam as pessoas que ditam tendências, os trendsetters, ou seja, «aqueles que lançam determinados comportamentos ou forma de vestir que depois evoluem para tendências através do contágio com outros círculos sociais». As comunidades criativas, onde se incluem designers, estilistas ou arquitetos e a comunidade gay são exemplos de círculos onde se movimentam muitos trendsetters, garante, explicando que faz «pequenos trabalhos, monitorizando tendências em diversas áreas, produzindo relatórios de análise e escrevendo artigos para publicações como a revista DIF, o site da Vogue Portugal e o TrendAlert»..Bruno Brazão, de 30 anos, considera-se um caçador de tendências profissional e também «está sempre a observar», tendo no bloco de notas e na máquina fotográfica acessórios fundamentais para registar ideias e acontecimentos. Licenciado em Relações Públicas e Publicidade e com um master em Cool Hunting do Instituto Europeo di Design, em Milão, Bruno vive entre Portugal e Itália a analisar o comportamento dos consumidores e a ganhar dinheiro com isso. Uma média mensal de dois mil euros, revela. O trabalho é feito «diretamente para algumas marcas» e agências de consultoria de tendências. «Uma agência que esteja a preparar o próximo festival de verão, por exemplo, precisa de saber quais as bandas que garantirão sucesso e adesão. O papel de um caçador de tendências, neste caso, é observar vários fatores do panorama musical e fornecer essa informação à agência, para que estes saibam o que o seu público alvo quer ouvir e garantir um cartaz apetecível e chamativo.»E como é que se faz isso? «Observam-se todas as pessoas. E tudo é importante: as roupas, os assuntos de que falam, como se comportam, o tipo de música que ouvem, os sítios que frequentam, as atitudes, os seus interesses. Primeiro observa-se, depois identifica-se, interpreta-se e por fim implementa-se. Estas são as linhas de atuação de um coolhunter», esclarece. O também coordenador do curso de CoolHunter na escola de moda PulpFashion, em Lisboa, diz não existirem zonas privilegiadas para monitorizar tendências: elas tanto nascem em zonas de luxo como num bairro social. «O conceito do MP3, com a sua larga capacidade de armazenamento de música em formato digital, surgiu para dar resposta a uma necessidade sentida num bairro social ocupado por pessoas que transportavam grandes rádios com fitas de música deterioradas pelo uso», recorda..Natacha Calado, que abandonou a psicologia para abraçar o TrendAlert, prefere indicar locais específicos na busca por novas tendências. As universidades, os aeroportos, os festivais de verão, os concertos, as feiras de artesanato e o Martim Moniz, o Chiado e Cais do Sodré, em Lisboa, «são bons spots para a observação de rua», sustenta a coordenadora editorial, de 37 anos. «Caçar tendências passa principalmente por saber observar o que é diferente, inovador e disruptivo, em busca de ideias diferenciadoras e novos comportamentos.» No Porto, o centro das atenções será o quarteirão das artes, na zona da rua (Miguel Bombarda) que concentrava galerias de arte e cresceu para as imediações com lojas de design, moda alternativa e crafts, e onde apenas entra o que não se encontra habitualmente nos shoppings.«O David mudou e já não pode ser ignorado pelo Golias. São as pessoas que influenciam as marcas», assegura Joana Carravilla, diretora da E.life portuguesa, uma empresa brasileira de monitorização de media sociais que se instalou em Portugal há cinco anos. Neste setor, o trabalho é diferente e não há intermediários: a E.life dispõe de um software para acompanhar tudo o que é dito nas redes sociais abertas ao público, monitorizando o que se escreve sobre as marcas suas clientes. A E.life conta com «uma equipa muito grande de especialistas em tecnologia, gestores e analistas de mercado, cuja missão é olhar para milhares de comentários e ver o que interessa aos clientes», explica a diretora, licenciada em Comunicação e como uma pós-graduação em Gestão. No fundo, trata-se de tirar o pulso às redes sociais, fazendo estudos de mercado em tempo real. «As marcas querem ouvir as conversas de café, a que nunca tiveram acesso, e agora podem fazê-lo através dos comentários espontâneos das redes.».O resultado deste trabalho pode ser o lançamento de um produto específico para determinado país ou a alteração de determinados detalhes de uma embalagem criticada. Foi o caso da marca italiana Mentos, que apenas tinha embalagens com rebuçados de três sabores e desenvolveu uma apenas de morango, exclusiva para o Brasil, depois de inúmeros pedidos nas redes sociais brasileiras. Também a Hellmans, criticada no Brasil por ter uma embalagem de ketchup menos funcional do que a da mostarda, não esteve com meias medidas: «Mudou de embalagem e mandou-a a um internauta, com uma carta. Foi com base numa experiência de consumo que estava a correr mal que a marca alterou a embalagem», diz Joana Carravilla. Em Portugal, a E.Life trabalha para a Galp, a Zon, a Volkswagen ou o Continente. A marca de hipermercados recorre à monitorização das redes sociais «há três anos», para ouvir os clientes, nomeadamente na escolha de novos produtos, explica João Paulo Seara, diretor de marketing da Sonae MC. «As pessoas passam muito tempo nas redes e aproveitam para passar mensagens às quais devemos estar atentos. Revelam tendências, preocupações e a forma como se relacionam com as marcas. Não podemos deixar de as ouvir.» O lançamento de um iogurte do Continente com sabor a algodão doce, por exemplo, foi escolhido numa votação dos fãs do Facebook. Outro caso é o do relançamento do gelado Fizz limão, depois de um apelo nostálgico do mediático Nuno Markl no programa da Rádio Comercial Caderneta de Cromos. Mais de 47 mil pessoas tornaram-se fãs de uma página de Facebook que pedia o regresso do gelado de gelo por fora e creme por dentro e a Olá relançou o produto.«As redes sociais vieram acelerar, e muito, a possibilidade de observação dos consumidores, massificando o poder das tendências e da sua observação», diz Luís Rasquilha. «Mas sempre foram as pessoas que influenciaram as marcas. Os clientes sempre dominaram e as marcas sempre acharam ser dominantes», acrescenta o responsável da AYR Consulting, uma consultora internacional, criada há três anos para «aplicar as tendências à estratégia das empresas», e que trabalha dentro das marcas e com elas na área da consultoria estratégica. «São as pessoas normais que hoje têm o poder, porque postam, comentam, criticam e, mais importante, são credíveis. Os clientes são mais exigentes, informados, impulsivos, desconfiados e emotivos. Quem conseguir entrar neste modelo de emoção-experiência consegue ter sucesso enquanto marca.».Os novos modelos de influências.Observar, identificar, interpretar - são estas as tarefas de um caçador de tendências, que depois transmite as informações de relevo às marcas ou empresas que tratam estes dados e filtram o que é verdadeiramente relevante para cada cliente. A Science of the Time, fundada em 1992, é uma das mais antigas e conceituadas agências de observação de tendências do mundo. Tal como o site trendwatching.com, que identifica tendências em 170 países..Os provadores de roupa interativos estão a chegar.Entrar num provador com quilos de roupa é algo tipicamente feminino. Mas homens e mulheres conhecem o incómodo. Elas fartam-se de abrir a cortina seminuas para pedir o que falta, eles ficam com ar de frete com tanto despe e veste. Alegrem-se ambos: os InteractiveFittingRooms são uma das tendências emergentes do momento.A inovação, revelada pela diretora-geral do TrendAlert, consiste em provadores equipados com um espelho touchscreen onde se vê um catálogo de artigos e a sua disponibilidade em stock. «Podemos pedir à assistente de loja que leve outro modelo, tamanho ou cor sem ter de correr a cortina e gritar para o meio do estabelecimento», descreve Vanessa Trindade.O «digital» e a «realidade aumentada» são já fortes apostas do mercado e trarão novos resultados a curto prazo. «A acessibilidade aos smartphones, aos touchscreens nos espaços comerciais e a ascensão dos QR codes levam-nos ao passo seguinte. Por todo o mundo começam a surgir indícios de mudança que se enquadram na linha das compras em realidade aumentada», assegura Vanessa Trindade. Atualmente já é possível ver em realidade aumentada produtos das lojas online. «Basta instalar um plugin de AR sugerido pela loja, imprimir um marcador (que no futuro será o cartão de cliente) e colocar-se em frente da câmara do computador ou do telemóvel, mostrando esse marcador», descreve Vanessa Trindade.Os grandes grupos do retalho mundiais também começaram a introduzir nos seus espaços gadgets que «virtualizam os vários momentos do processo de compra, com informações sobre o local dos produtos, preços e quantidade em stock», descreve Vanessa. «A grande revolução está a dar-se no momento de testar o produto, com os Virtual Makeup Mirrors: um espelho que faz o upload da nossa imagem em tempo real e a maquilha. O espelho é sensível ao movimento, por isso a cliente estará desmaquilhada, mas a ver-se com maquilhagem.».Outra das evoluções é conseguir fazer (quase) tudo, a partir de qualquer lugar, com o telemóvel ou o computador. «Toda a informação como a conhecemos estará digitalizada e acessível através de sincronização entre equipamentos», garante a diretora do TrendAlert. Luís Rasquilha, da AYR Consulting, aponta como exemplo de produtos criados com a influência direta de caçadores de tendências «o Realtime Web, da IBT». A tecnologia «revolucionária» leva «o verdadeiro real time para todos e já está a tornar a web em algo vivo», diz o gestor. Foi criada em Portugal, através da Macro-Trend Empower Me e «o seu poder é tal que está a gerar duas derivações que em breve serão macrotrends: a Augmented Social Reality e o Augmented Product Knowledge», diz Luís Rasquilha.Com escritórios em Lisboa, São Paulo, Miami e Madrid e presença em mais de trinta países, a AYR está ligada a novos conceitos a surgir em breve em Portugal: um hotel, um carro, um shopping e produtos de decoração.