Os primeiros anos da década de 1990 marcam no mundo a transição entre o exagero, a exuberância e a lycra caraterísticas dos anos 1980, em que imperou o new wave, para uma fase menos agressiva e selvagem dos jeans gastos, marcada pelo grunge..Nesta altura, para Cristina L. Duarte, socióloga, «a música afetava muitos dos comportamentos» e os ditadores de tendências eram, de facto, os músicos e não os modelos. Com o início da década, emergiam as bandas underground de Seattle como Green River, Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Mudhoney, The Melvins, Hole, Soundgarden, Stone Temple Pilots, nascia o grunge ou o seattle sound. .Camisas de xadrez de flanela, casacos folgados, jeans usados até se desintegrarem, roupas em segunda mão compradas em feiras de caridade e cabelo desgrenhado exteriorizavam a febre internacional de que se padecia..Ela, a febre, teve o seu pico em 1991, com o álbum Nevermind, dos Nirvana, e a música Smells Like Teen Spirit marcou a abertura do fenómeno grunge. No ano seguinte, a banda atua nos MTV Music Awards e Nevermind ocupa o primeiro lugar na Billboard 200. .Kurt Cobain, o vocalista da banda constituída pelo baixista Krist Novoselic e pelo baterista Dave Grohl (que entrou em 1990) ditou, juntamente com a sua mulher, Courtney Love, as tendências de então. O cabelo despenteado e sujo, as camisas largas e as calças de ganga gastas de Cobain tornaram-se moda, bem como os vestidos vintage, os cabelos descoloridos e a maquilhagem carregada de Courtney Love..O grunge passou dos músicos para os fãs e, depois dos fãs, aquela não-moda fez-se coleção. Em 1993, Marc Jacobs conquista o epíteto de guru do grunge, ao levar para a passerelle da Semana da Moda de Nova Iorque a coleção primavera-verão que desenhou para a marca Perry Ellis, claramente influenciada pela regra sem regras do início da década..Menos é mais.A par do desregrado grunge, surge também no centro do sistema o minimalismo. Marcado por uma simplicidade gritante, linhas retas e cores pastel, sob o lema «é preferível estar-se menos vestido a estar-se demasiado vestido». No minimalismo dos anos 1990, um claro contraponto aos exageros e à loucura dos anos 1980, os pormenores fazem toda a diferença. «A moda torna-se mais democrática e passa a expressar novas ideias», diz a socióloga Cristina L. Duarte..As supermodelos.Apesar de as tendências germinarem e brotarem em solo musical, os anos 1990 foram a grande colheita das supermodelos, essência da moda de então. Elle Macpherson (nascida em 1964), considerada the body (o corpo) em 1988 pela revista Time, foi modelo exclusivo da Victoria"s Secret, entrando inclusivamente em filmes como Alice, de Woody Allen. Cindy Crawford também era um fenómeno. .Stephanie Seymor posou para a revista Playboy em 1991 e nesse mesmo ano foi capa da edição inglesa da Glamour. Em 1993 repete novamente a Playboy e em 1994 é fotografada por Richard Avedon para a Versace Jeans..Claudia Schiffer entrou para o Guinness como a modelo que fez mais capas de revista em todo o mundo, ocupando atualmente o oitavo lugar na lista das modelos-ícones mundiais do site models.com. A ela juntam-se «a trindade» constituída por Christy Turlington, Linda Evangelista e Naomi Campbel. Ficaram assim conhecidas por serem frequentemente fotografadas juntas por Steven Meisel..Mas o início dos nineties é marcado pela ascensão de Kate Moss. Com um look que não tardou a ser catalogado de heroin chic, foi a antimodelo e, por isso mesmo, a grande modelo dos anos 1990..Até à ponta dos cabelos.No abrir dos anos 1990, também muito marcados pelo grunge, os cabelos «eram intencionalmente desgrenhados, despenteados e selvagens, com aspeto pouco tratado», salienta a cabeleireira Lúcia Piloto. Os penteados caraterizavam-se por uma linha «cheia de liberdades», em que, «através de um levantamento de raízes ou do uso de brilhantina em spray se conseguiam volumosas estruturas»..Imperava também o corte bastante curto e escadeado com risco ao meio, nucas suaves, desfiadas, com pontas picotadas. Os cabelos longos caraterizavam-se por ondulações fortes. .«As mulheres mais sofisticadas e glamorosas optavam pela tradicional mise sobre um cabelo comprido e ondulado à imagem das atrizes Ava Gardner ou Rita Hayworth, numa homenagem à cultura americana», acrescenta. Surgem também nesta altura as colorações «vibrantes, quentes e contrastantes, como o vermelho, o cobre, o louro quase platinado, o dourado ou o acaju.» .O corte e a costura portugueses .Na década de 1990 em Portugal conviviam vários estilos e marcas, que acabavam por delimitar as tribos urbanas. A grande maioria dos adolescentes saía à rua com as suas Converse All Star nos pés, as Levi"s 501 e o blusão Duffy..Também havia quem não prescindisse das suas botas Dr. Martens ou dos bicos pronunciados das botas à Tieta do Agreste..No ano de 1992, segundo Rita Silva, senior client executive da GCI, o modelo mais vendido da Converse no nosso país foi o Chuck Taylor All Star, nas cores branco, preto, azul e vermelho..Estes acompanhavam com as Levi"s 501, calças retas, de cintura alta e bem azuis que eram o must-have dos anos 1990. Queriam-se gastas e podiam servir, no final da sua vida, como calções curtos. .E com os Duffy, blusões de penas de várias cores, vendidos no Centro Comercial Apolo 70, que hoje custariam aproximadamente 150 euros. Nascidos em 1986, estenderam-se até ao ano 2000. Para Beatriz Serrano, responsável pela marca, «estes blusões tornaram-se moda nacional por serem diferentes. Talvez por isso estejamos a procurar reavivar os Duffy», adiantou a responsável pela Pato Rico. .Também nesta altura de internacionalização do grunge se procuravam as botas Dr. Martens, que se aproximam, no nascimento, às calças Levi"s: foram criadas para serem resistentes e poderem ser calçadas pela classe trabalhadora. Pouco a pouco converteram-se em objeto de cobiça..Numa particularidade nacional «proliferam no nosso país nos anos 1990 as botas de bico muito pronunciado», informa Paulo Gonçalves, daAssociação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos. Foi uma consequência direta do sucesso que a novela brasileira Tieta do Agreste, de Jorge Amado, conquistou em Portugal..Os mais conservadores e bem comportados distinguiam-se pelas calças Levi"s, botas Panama Jack e camisa aos quadrados, os mais sombrios e metálicos usavam calças justas pretas e elásticas, T-shirts e pins das bandas e cabelos compridos..A ModaLisboa.Em 1991, pelas mãos de Eduarda Abbondanza e Mário Matos Ribeiro, surge no nosso país a ModaLisboa, após um convite feito pelo pelouro do turismo da câmara municipal da capital. A semana da moda de Lisboa surgiu depois das grandes capitais, Paris, Milão, Nova Iorque, Londres, e entre 1991 e 1993, a ModaLisboa recebeu duas edições por ano (primavera/verão, outono/inverno). Estas edições ocorriam em paralelo com os desfiles do concurso Sangue Novo, onde ficou conhecida Maria Gambina, por exemplo, vencedora das edições de 1992 e 93..Paulo Pires, um dos modelos portugueses que mais se distinguiram nos anos 1990, participou na ModaLisboa «desde o primeiro ano e fez praticamente todas as edições» do certame. «Era o início da moda em Portugal, faziam-se muitos espetáculos de moda, catálogos no Porto e editoriais em Lisboa», refere. .Em outubro de 1990 surgiu também no país a revista K, dirigida por Miguel Esteves Cardoso, que apesar da sua curta existência tratou a moda e a fotografia de forma pouco habitual.Na altura sobressaíam nomes como Ana Salazar, José António Tenente, Manuel Alves & José ManuelGonçalves ou Nuno Gama. .Este último apresentou em 1991, na ModaLisboa, a sua coleção de final de curso, que se inspirava «na tradição atlântica dos portugueses», cujas cores «oscilavam entre o azul, o cinzento e o verde-alga» e cujos tecidos eram «marcados pelo chenille tipo veludo e pelas malhas grossas», explica Nuno Gama..A roupa dos vizinhos.Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990 abrem-se no nosso país as portas ao grupo espanhol Inditex, constituído pela Zara, Zara Home, Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho e Uterqüe. A primeira loja abriu na cidade do Porto em 1988, detendo o grupo atualmente um total de 344 espaços em território nacional. A C&A abriu também a sua primeira loja em Portugal no ano de 1991. Atualmente, a marca alemã conta com 18 lojas espalhadas pelo país..O grunge é atual. Sai à rua no corpo de Rihanna, Katie Holmes ou Alice Dellal. Assiste-se continuamente a um reinventar do que foi ontem e guardar o que vestimos hoje é uma escolha acertada para seguirmos as tendências de amanhã. Vinte anos depois, as músicas dos Nirvana continuam a ser a banda sonora da vida dos adolescentes com bom ouvido. A moda tem memória curta e repete-se.