Os avistamentos do modesto Passos (Episódio 28)

<strong>FICÇÃO POLÍTICA. A CGD? "Uma trapalhada", escrevia o editorialista. A Caixa Geral de Depósitos? "Uma trapalhada", dizia o político no painel da TV. A Caixa? "Uma trapalhada", encolhia os ombros o Sr. Gomes, da farmácia...</strong>
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Portugal debatia à sua maneira a Caixa Geral de Depósitos. A tal maneira portuguesa já tinha sido desancada por Camilo, século e meio antes, criticando os lugares-comuns usados pelas gazetas. Buscando só exemplos airosos: antepunha-se ao substantivo, ou pespegava-se a seguir, um adjetivo, e o prelado era virtuoso, o comerciante honrado, a viúva inconsolável e o poeta inspirado. Ou tinha havido animado baile, robusto menino, lauto jantar, eloquente discurso... Em vez de se explicar e relativizar, cravava--se um elogio à situação ou a alguém e assim ficava para sempre. Ou, quando os jornais eram corajosos e os atingidos fracos, lançavam-se estigmas também definitivos. O pior desses lugares-comuns foi ter-nos acentuado a falta de gosto pela discussão e o muito apetite pela classificação.

A Caixa Geral de Depósitos, aquele mastodonte que se impunha à cidade sem um gostinho para os cidadãos, haveria de ser também alguma coisa. Mas o quê? Por helicóptero, parecia ter claustros e árvores, mas vista pelos lisboetas era muralhas que convinha evitar, como em tempos, aos moscovitas, a Lubianka, a sede e prisão do KGB. Então, o que ferrar à CGD? Era Caixa, na forma quadrada do termo, Geral, na sua poderosa grandeza e era de Depósitos, como os armazéns de adidos - não podia, pois, ter por muleta um simples adjetivo. Tinha de ser coisa, substantivo. Tão palpável como aqueles muros eram para os infelizes vizinhos. Encontrou-se: a trapalhada da Caixa Geral de Depósitos, a trapalhada da CGD ou a trapalhada da Caixa. Três opções e só essas.

Claro que nos devíamos só congratular por essa marca condensada. Dois anos antes, o mais famoso jornalista económico-financeiro nacional tinha tranquilizado o país, à hora nobre de um telejornal, confessando a pena por não ter poupanças para investir em ações do BES. E explicou por A mais B, com detalhada sabedoria, cheia de palavras com w e hífenes que costumavam aparecer no Financial Times. Nesse fim de semana, o banco faliu. Mais valia (ah, como ele nos explicava as mais-valias!) ter-nos mostrado um molho de ações acabadinhas de comprar por ele. Ao menos teria havido algo de moral na queda do império Espírito Santo.

[destaque:Passos foi visto no IKEA, escolhendo um sofá. Saltou sobre as molas, embora sobriamente. Simples, ele falou com um qualquer casal que ia ao mesmo. Ponderado, não comprou]

Depois do período pedofilia (as crianças não mentem), seguido do período Maddy (mães bonitas que não choram são suspeitas) - que nos deram ciência duvidosa sobre coisas complicadas -, os portugueses passaram os últimos anos em especialização intensiva de finanças. Esta última fase, se não os fez doutorados, pô-los aptos a não aturarem mais manchetes sobre como compor os conselhos de administração de um banco público. Tudo o que você gostaria de saber sobre a ida de Octávio Machado para o CA da CGD e nunca teve a quem perguntar... Ainda se tentou explicar isso mas era mesmo desconhecer a nossa incapacidade genética de eleger a mesa para uma reunião de condóminos... Enfim, os jornais pouparam-nos, em plena estação parva, de mais uma parvoíce.

Chegou-se, então, à fórmula certa. A CGD? "Uma trapalhada", escrevia o editorialista. A Caixa Geral de Depósitos? "Uma trapalhada", dizia o político no painel da TV. A Caixa? "Uma trapalhada", encolhia os ombros o Sr. Gomes, da farmácia... Os mais sábios dos portugueses comuns deram-se conta de que em finanças, bancos e essas trapalhadas eles continuavam sem saber nada, mas deram-se conta de que o mesmo sucedia aos especialistas.

Se eles continuassem a instruir-se a tal velocidade, até podiam começar a aprender a ler jornais. No mesmo fim de semana, todos os jornais - não tanto nos títulos, que alertariam a suspeita, mas naquelas secções de sobe e desce, mais maneirinhas de ler e de passar mensagens - apontavam estes e aqueles ministros e secretários de Estado como próximos remodelados. A notícia não era eles caírem, era todos os próximos futuros "ex" governantes serem do mesmo setor... Se houvesse memória, a confirmação da notícia ilustraria os jornais. A não se confirmar, saber-se-ia para que setor a oposição preparava o combate ao governo. Mas valia a pena guardar a memória para confirmar truques?

Entretanto, o líder da oposição Pedro Passos Coelho era modesto. O modesto Passos - diria Camilo que diziam as gazetas, se por cá andasse. Porque os avistamentos eram muitos e ele, em todos, comedido, decoroso, parco, recatado. Enfim, modesto, contavam os jornais. Foi visto no IKEA, escolhendo um sofá. Saltou sobre as molas, embora sobriamente. Simples, ele falou com um qualquer casal que ia ao mesmo. Ponderado, não comprou, foi para casa pensar. E foi visto à porta de um restaurante em Campo de Ourique, conversando. Mas atencioso e cívico, pois estava ali como sentinela, se não da pátria, dos seus concidadãos: alertava-os para a caca de um cão.

Continua amanhã. Leia os episódios anteriores do Folhetim de Verão.

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