O líder da oposição russa, Nikolai Ribakov, considera a invasão da Ucrânia, mais do que uma decisão do Presidente Vladimir Putin, consequência de um "sistema" pró-Kremlin que aceita a guerra e até, desde o conflito na Chechénia, alvos civis..Em entrevista à Lusa em Moscovo, Ribakov contrariou que tenham sido somente decisões de Putin a levar à invasão da Ucrânia a 24 de fevereiro do ano passado, apontando sim para o "modo do desenvolvimento do poder estatal ao longo dos anos".."Foi este sistema que conduziu ao deflagrar da guerra", diz Ribakov.."Já na guerra da Chechénia o exército fora usado contra a população pacífica. Tanto na primeira, como na segunda guerra da Chechénia, o emprego de armas contra alvos civis foi apresentado pelo regime como aceitável. Não se levantou, no país, nenhum movimento contra a guerra", disse à Lusa..Ribakov salienta que hoje "todos os partidos votam da mesma maneira, tanto na Câmara Baixa, como Câmara Alta" do parlamento, e também a comunicação social "ocupa o mesmo espaço político, apoiando Putin com maior ou menor agressividade"..O sistema judicial, sobretudo depois das alterações introduzidas na Constituição, "está em total dependência do poder", sublinha..Para o líder do Iabloko, havia sinais "há muito tempo" de que uma invasão poderia ocorrer e o partido alertava há muitos anos para a possibilidade.."O Iabloko avisou bem alto, já em 2014, para o perigo das tendências políticas de então. Uma das nossas diretivas era impedir o que aconteceu em 24 de fevereiro do ano passado. Como pessoas, esperávamos que não acontecesse; como políticos, apontávamos para o perigo", disse à Lusa..Ribakov sublinha que já no verão de 2021 Putin publicou no site do Kremlin um artigo, reproduzido por vários jornais, pondo em causa a "história e estatalidade da Ucrânia", mas "ninguém lhe prestou atenção, nem na Rússia, nem no estrangeiro".."O horror da situação decorre do facto de ninguém prestar atenção ao que Putin diz entrelinhas. Nós dissemos aos eleitores: vejam, o partido do Putin apresenta-se a eleições com uma lista encabeçada pelos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. Que mais era preciso para que entendessem? Putin não fala claramente, mas sabe dar a entender os seus planos e intenções", sublinha..A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro de 2022 pela Rússia na Ucrânia causou até agora a fuga de mais de 14 milhões de pessoas -- 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 8,1 milhões para países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)..Neste momento, pelo menos 18 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento..A invasão russa -- justificada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia - foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com envio de armamento para a Ucrânia e imposição à Rússia de sanções políticas e económicas..A ONU apresentou como confirmados desde o início da guerra 8.173 civis mortos e 13.620 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais..O partido russo Iabloko, que reclama ser atualmente o único que rejeita o Presidente Vladimir Putin, vai continuar a fazer oposição, apesar de os seus dirigentes serem alvo de processos-crime e até homicídios..Em entrevista à Lusa, o líder do Iabloko desde 2019, Nikolai Ribakov, afirmou que a "pressão" sobre o partido "é levada ao extremo", com seis dirigentes "assassinados devido à sua atividade política" em três regiões administrativas - Kamchatka, Iakútia e Khakassia - nos últimos anos..Três outros dirigentes estão acusados judicialmente de "desacreditação" do exército russo e o próprio Ribakov irá em breve à Sibéria e Extremo Oriente para participar no julgamento de um dirigente regional acusado de publicar artigos contra a "operação especial" lançada pelo Kremlin contra a Ucrânia há um ano..No próprio dia da entrevista à Lusa, um deputado da Duma acusou de extremismo o Iabloko, perante o Ministério da Justiça. Na base da acusação está o Plano de Paz que o partido apresentou em 2017.."Lamentavelmente, um deputado que ninguém conhece, resolveu chamar a atenção sobre si próprio, cinco anos após a divulgação daquele documento. Mas se, naquela altura, o nosso plano tivesse sido aprovado, ter-se-iam evitado muitas e muitas mortes", disse à Lusa.."É verdade que estamos a trabalhar sob pressão, o que não constitui novidade para nós, que há trinta anos trabalhamos envolvidos nesse ambiente", adiantou..Paralelamente, referiu Ribakov, as páginas do partido nas redes sociais são bloqueadas quando nelas se critica a política do Governo, o que limita fortemente a comunicação do partido com a população..Apesar da "pressão", Ribakov acredita que o Iabloko nas legislativas de 2026, irá alcançar "uma real representação na Duma", o parlamento russo, algo que lhe falta atualmente.."É difícil fazer planos para daqui a três anos, mas sinto-me otimista", disse à Lusa..O partido está já a elaborar as listas eleitorais, enquanto se concentra nas eleições presidenciais do próximo ano.."Como partido, entendemos claramente, de antemão, que [as eleições] não são sérias, nem livres, nem democráticas. (...) Mas continuamos a participar e não desistimos, pois é nossa obrigação para com os eleitores dar-lhes a conhecer uma plataforma política única, muito distinta das existentes", adiantou.."Por brincadeira, costumamos dizer que, na Rússia, há dois partidos: o de Putin, que engloba todos os outros, e o nosso, o Iabloko", afirmou o líder da oposição..Com todas as formações políticas com assento na Duma alinhadas com Putin, o Iabloko assume-se como o único que não apoia o Presidente.."Sabemos que só há duas formas de mudança de poder: ou por via eleitoral ou por via revolucionária. No entanto, somos resolutamente contra esta segunda via, pois ainda nos lembramos ao que conduziu a história do nosso país", disse à Lusa, numa referência aos sangrentes golpes de Estado registados no século passado..O Iabloko não tem representação na Duma, embora tenha eleito 11 deputados para assembleias legislativas regionais (Moscovo, São Petersburgo, Carélia e Pskov)..O partido de Putin, o Rússia Unida, detém a maioria absoluta na Duma - 326 deputados -- muito à frente do Partido Comunista, que tem 57 representantes..Questionado sobre o papel do Partido Comunista, Ribakov não tem dúvidas de que se tornou num aliado de Putin.."Não sou eu que o digo, mas o próprio Putin, que declarou há tempos serem os comunistas os seus maiores aliados na 'operação especial'", a designação do Kremlin para a invasão da Ucrânia, há um ano..Travar a 'operação especial' é agora objetivo principal do Iabloko, pois sem isso, a "sociedade vai-se degradando cada vez mais"..O Iabloko mantém contactos com a diplomacia russa, com o Ministério da Defesa, com o responsável dos Direitos Humanos, nomeadamente para libertar os prisioneiros de guerra, nalguns casos com sucesso..O líder do partido russo Iabloko (oposição), Nikolai Ribakov, alertou em entrevista à Lusa para as tendências no país de "separação da Europa" e "recuperação de métodos estalinistas e bolchevistas".."A política de [Vladimir] Putin [Presidente russo] arrastou a sociedade para um ponto tal que, mesmo quando nos apercebemos de uma qualquer realização positiva, encaramo-la como uma insignificância, sem influência no quadro geral", disse Ribakov em entrevista à Lusa.."As tendências gerais na Rússia, que influenciam todos os ramos da vida, orientam-se para separação da Europa, do Mundo Ocidental, para os meios repressivos contra os cidadãos, para a recuperação de métodos estalinistas e bolchevistas... Vemos que esta via de desenvolvimento do país é errada e conduz à degradação, tanto da sociedade, como da economia", adiantou..Para Ribakov, uma sociedade moderna "não pode evoluir quando se isola do resto do mundo", o que "leva à saída de muitos jovens do país, a parte da sociedade capaz de construir o futuro"..O facto de o país estar "em direção a tempos recuados", admite, faz com que as próprias propostas do partido, que incluem o alargamento de acesso ao gás ou habitação, além de inovações pedagógicas -- vão no sentido contrário..Exemplo da "separação" russa da Europa, afirma, é o ensino, onde está a pôr-se em causa a participação russa no Processo de Bolonha, o que pode fazer com que diplomas das universidades russas deixem de ser reconhecidos no estrangeiro.."Como se não quisessem que estudantes estrangeiros venham cá estudar e saiam com diplomas prestigiados no mundo inteiro. Quer dizer, estamos a recuar para o sistema existente na União Soviética. Por conseguinte, os jovens que se diplomarem na Rússia ficarão a saber que não poderão fazer uso dos seus conhecimentos em outros países", disse à Lusa.."A ideia de fazermos como dantes está a ser implantada. Os nossos dirigentes insistem que terá êxito, o que é uma falsidade. O mundo evolui a grande velocidade, e nós vamos ficar na berma. Não se pode progredir, bloqueando páginas da Internet ou bloqueando direitos sociais, no fundo trata-se de isolar os cidadãos da informação. Isto não levará a nenhuma mudança positiva, como o demonstra o êxodo dos nossos jovens. O poder encara esta fuga argumentando que só são precisos os que cá ficam. Isto não é maneira de tratar os cidadãos do nosso próprio país", adiantou..Ribakov, nascido em São Petersburgo há 44 anos, é economista de formação, mas também "político, pedagogo, ecologista, defensor dos Direitos Humanos e pintor"..Entre 2010 e 2015, foi redactor-chefe da edição eletrónica do jornal Bellona, de tendência oposicionista..O líder do Iabloko disse à Lusa que vai recandidatar-se à presidência do partido e que este vai concorrer às presidenciais, mesmo "percebendo que as eleições na Rússia não decorrem como em Portugal".."As eleições não se resumem à contagem dos votos, mas ao que acontece durante seis anos, o espaço temporal entre elas. Se os cidadãos estiverem privados da totalidade da informação, não há contagem de votos que espelhe o que eles realmente querem e pensam", adianta.."Mesmo que Putin passe à história, o retorno à normalidade não seria rápido: levaria muito tempo a mudar o sistema, a restabelecer relações normais com os outros países. Por enquanto, os interesses dos cidadãos são subjugados pelos interesses do Estado", acusa Ribakov.