Quando nasceu, em 1953, em Villa Cisneros (hoje Dajla), Mansour Omar era um habitante da 53.ª província de Espanha. Vinte e dois anos depois, Marrocos apodera-se de parte do território na Marcha Verde impulsionada por Hassan II. Desde então os sarauís resistiram ao vizinho com a organização Frente Popular de Libertação de Saguia el Hamra e Rio d'Oro, mais conhecido como Polisário, e com ela Mansour: fez parte do primeiro governo, em 1976, e desde então tem alternado entre o papel de diplomata e o de governador ou de ministro. Esteve há dias em Lisboa, na Associação José Afonso, com vista para a Assembleia da República, para falar sobre a responsabilidade da ONU e da comunidade internacional face à última colónia de África..Em que ponto considera estar a luta sarauí? Os sarauís lutam contra um bloqueio de Marrocos de mais de 30 anos do plano de paz adotado pelas Nações Unidas em 1991. Como sabe, a proposta era organizar um referendo, e Marrocos aceitou, a comunidade internacional deu o apoio a essa proposta, e ficou como base de solução para o problema de descolonização do Sara Ocidental. Depois da identificação de votantes da comunidade marroquina que eles trouxeram com a invasão no Sara Ocidental começaram a recuar porque não tinham a segurança de ganhar essas eleições, apesar de terem vantagem no corpo eleitoral. E desde aquele momento procuraram como estratégia bloquear. Inventaram uma proposta em 2007 de proporcionar uma autonomia e esperavam que, com o apoio da França, essa autonomia poderia ser aceitada pelo Conselho de Segurança para substituí-la ao plano original do referendo. Contudo, essa autonomia não recebeu o suficiente apoio porque partia de uma base em que Marrocos a apresentava como uma iniciativa e não como fruto de um consenso, como foi a resolução do referendo. Durante todo esse período esteve a jogar com a comunidade internacional e sobretudo com a França para continuar com esse bloqueio de solução enquanto faziam o possível para fatigar a Polisário e fazer que renuncie ou aceite a proposta de Marrocos. Isso não funcionou, a Polisário não renunciou. Pelo contrário, em vez de se debilitar, reforçou-se. E prosseguiu uma política interna de democratização e de reforço das instituições sarauís. Mobilizou dentro do território ocupado a juventude sarauí para fazer uma intifada bastante intensa dentro do território ocupado. Durante este período nós recebemos também dentro de Marrocos o apoio de algumas forças políticas, mesmo que não sejam muito numerosas, mas têm muitos intelectuais, e de intelectuais marroquinos também no exterior, que contribuíram para fazer mais conhecida a causa sarauí..No entanto, nos últimos anos Marrocos parece obter mais apoios para as suas propostas. Não, realmente não conseguiram o apoio que queriam para a iniciativa de autonomia. Tiveram de fazer uma venda de princípios, um suicídio, porque em Marrocos, o rei é o chefe dos fiéis, e é o presidente do Comité Al-Quds de Palestina, o Comité de Jerusalém. Então, quando eles viram que a proposta de autonomia não tinha sinais de ser aceitada pela comunidade internacional, quiseram envolver [Donald] Trump através de seu genro [Jared Kushner] que é de origem judia, para fazerem uma troca: Marrocos reconheceria o Estado de Israel e abria uma embaixada de Israel no território marroquino e, em troca, Trump reconheceria a iniciativa da autonomia para o território do Sara Ocidental. No entanto, isso foi feito quando Trump já estava de saída da Casa Branca e Trump não fez uma declaração firme de reconhecimento por parte dos Estados Unidos. Fez um tuíte, e um tuíte de uma pessoa que estava a sair da Casa Branca foi mais publicidade do que realmente uma posição. Por isso, esse tuíte não foi seguido nem pelo Congresso dos Estados Unidos, nem pela administração. E no tuíte também se comprometia com a abertura de um consulado no território sarauí ocupado, o que não aconteceu. E a administração Biden, desde que começou, fez uma nova aproximação ao plano apresentado pelas Nações Unidas e repetiu em diversas ocasiões a posição de apoio ao plano que há nas Nações Unidas e à proposta já feita pelo Conselho de Segurança. A iniciativa que Marrocos tomou nesse sentido fracassou, porque eles pensavam que com um tuíte de Trump toda a comunidade internacional e a Europa iriam segui-lo. Mas não, a Europa tomou uma atitude diferente, afirmando sua posição de apoio à autodeterminação e apoio ao plano das Nações Unidas..Citaçãocitacao"Depois de terem pirateado o telemóvel dele, Sánchez disse que a iniciativa da autonomia era uma boa solução. Mas para Espanha o problema do Sara Ocidental é como o de Timor-Leste em Portugal.".Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, no entanto, agiu de outra forma. Depois de terem pirateado o telemóvel dele, o da ministra da Defesa, o da ministra dos Negócios Estrangeiros, e o do ministro do Interior. Marrocos sacou algum motivo de pressão e Sánchez disse que reconhece a iniciativa da autonomia como uma boa solução para o problema sarauí. Mas não teve consequências porque a opinião pública espanhola manifestou-se contra e no parlamento todos os partidos políticos mostraram oposição. Para Espanha, o problema do Sara Ocidental é como o problema de Timor-Leste em Portugal. Imaginem um partido vir dizer que não estava a favor de Timor. Depois de Trump, a iniciativa de Sánchez também deu em coisa nenhuma. Marrocos foi longe demais, quis chantagear a comunidade internacional com uma declaração do rei. A iniciativa da autonomia fracassou e desde novembro de 2020 e depois de várias violações do cessar-fogo por parte de Marrocos, começámos de novo uma guerra de desgaste contra as posições do exército marroquino em território sarauí..Recentemente houve novidades. Em setembro, a administração norte-americana, através do subsecretário de Estado para a África do Norte, Joshua Harris, teve um encontro com o secretário-geral da Frente Polisário e com a direção do Polisário para encontrar uma fórmula para relançar o processo das Nações Unidas. Marrocos estava contra a visita ao território ocupado, mas por fim deixou o enviado especial da ONU Staffan de Mistura ir ao território falar com ativistas de direitos humanos e com personalidades do território. Isto, em conjunto com um somatório de pequenos sinais nos últimos meses, fazem crer numa tendência no relançamento do processo de paz através de novas negociações à luz de uma nova resolução do Conselho de Segurança. Esta resolução espera-se até ao fim do mês na reunião anual para examinar o relatório do secretário-geral e das propostas do enviado especial..Há alguma abertura da Polisário para uma alternativa? A única forma de reconduzir o processo é regressar ao plano de paz de 1991, com a trégua e a realização de um referendo com duas hipóteses: independência ou integração em Marrocos. Marrocos atravessa um período difícil, da saúde do rei à economia, às relações com França, que não são as melhores, ao mesmo tempo que ao longo dos 2700 quilómetros da linha de defesa há bombardeamentos noturnos diariamente. O vazio não existe. Ou existe paz ou existe guerra. De 1975 a 1991 compreenderam que não podem ganhar uma guerra contra a Polisário. Entretanto crescemos e ganhámos apoios, temos 86 países que reconhecem a República sarauí. Não acreditamos que Marrocos possa manter esta posição. Se têm a certeza de que os sarauís querem ser marroquinos, o melhor método é fazê-lo pela via democrática e que os sarauís se expressem. Para nós os marroquinos não foram para o Sara Ocidental pelo amor aos sarauís. O Sara Ocidental é rico em recursos: fosfatos, pesca, ferro, ouro..Sobre a pesca, o Tribunal de Justiça da UE deu razão à Frente Polisário e o acordo de Bruxelas com Rabat foi anulado. Há meses, acusou alguns países europeus de cumplicidade com Marrocos. Referia-se apenas às pescas? As sentenças de 2018 e de 2021 reafirmam que o território marroquino e o território sarauí são distintos e que a questão do Sara Ocidental é uma questão de descolonização, pelo que Marrocos não pode fazer acordos sobre as águas territoriais. Os acordos caducaram em julho..Neste momento há algum país europeu a cometer essa ilegalidade? Não. O que se passa é que a Comissão Europeia, em conjunto de Marrocos e provavelmente Espanha recorreram contra a decisão do Tribunal. Em dezembro, o tribunal decide sobre o recurso e abre-se um novo capítulo..Há uns meses, Bruxelas mostrou-se preocupada com o possível uso de drones iranianos pela Frente Polisário. Qual o seu comentário? Marrocos tenta sempre fazer a acusação que pensam trazer-lhes mais apoio. Umas vezes dizem que os sarauís são amigos do Irão, outras que somos amigos de Cuba, qualquer país que tenha problemas com os EUA põem um etiqueta a dizer que a Polisário tem relações. De momento não temos qualquer tipo de armamento do Irão, muito menos drones. Mas estamos em guerra, e segundo o artigo 73 da Carta das Nações Unidas, o povo que luta pela sua defesa e na luta pela autodeterminação e independência, em legítima defesa podemos recorrer a qualquer tipo de armamento. Hoje em dia não é necessário procurar muito para conseguir armamento, pode-se comprar pela internet, que enviam de qualquer origem. Se não houver outra opção utilizaremos todos os meios possíveis e legítimos para nos defendermos e nos libertamos de Marrocos..Antes de o relatório anual da missão da ONU no Sara Ocidental ser apresentado no Conselho de Segurança, por estes dias a Assembleia Geral foi palco, no âmbito da quarta comissão de política especial e descolonização, de visões opostas sobre o caminho a seguir naquele território norte-africano. Ouviram-se sarauís deputadas em Rabat a criticarem "a junta" e a defenderem a autonomia proposta pelo reino e uma norte-americana de uma ONG a acusar a Polisário de fazer treino militar a crianças nos campos de Tindouf, de um lado; e do outro, ativistas europeus que chamaram à ocupação marroquina de apartheid, denunciaram as condições de educação a que os sarauís estão sujeitos nas zonas ocupadas, e criticaram os obstáculos criados pelos marroquinos por adiarem a visita do enviado da ONU Staffan de Mistura por dois anos..cesar.avo@dn.pt