Oliveira: uma família de empresários, atletas e artistas

Memória de uma família do Porto cujo membro mais destacado é o cineasta Manoel  de Oliveira. Um clã de atletas e empresários  destemidos, que perderam tudo na Revolução.  Distinguiram-se nos automóveis e no cinema.
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A fábrica de passamanarias - galões, fitas e outros artigos para adorno de vestuário - estava em plena reestruturação quando o 25 de Abril lhe mudou o destino para sempre. A ideia de transformar a velha unidade fundada em 1904 por Francisco Oliveira numa fábrica de produção de malhas nunca chegou a ver a luz do dia.

Na altura, era o cineasta Manoel de Oliveira, o filho mais novo de Francisco Oliveira, quem estava a remodelar a empresa que herdara anos antes. Ali tinha empenhado todos os bens da família, mas, de um momento para o outro, ficara sem nada. Oliveira tinha sido preso antes do 25 de Abril pela PIDE, mas isso não impediu que, poucos dias depois de a Revolução eclodir, recebesse um telegrama com um anúncio terrível: as instalações da fábrica tinham sido ocupadas. A premonição era trágica, não haveria futuro para o negócio da família.

"Seguiu-se o descalabro: os ocupantes deixaram de pagar salários e venderam materiais e máquinas para a nova indústria, com a conivência do Banco de Fomento, a quem as mesmas estavam hipotecadas. Só o material cinematográfico foi poupado. E a dívida era de cinco mil contos, mas acabámos por pagar mais de 25 mil", contou Manoel de Oliveira no livro Famílias Tradicionais do Porto.

Os Oliveira eram uma família da classe média do Porto. Viviam bem, sem grandes luxos, como era habitual na época, mas encarnavam o espírito dandy e boémio, tradição familiar desde o século XIX.

Francisco Oliveira teve 14 filhos, entre os quais Francisco José de Oliveira, um destemido empresário que não tinha medo de arriscar. Em 1904, criou uma fábrica de passamanarias, que alguns anos mais tarde ganhou a medalha de ouro da Exposição Internacional de Bruxelas.

Várias vezes, Francisco apostou todas as economias da família em nome de negócios em que depositava uma fé inabalável. Na década de 20, criou uma empresa hidroeléctrica que veio a resultar na CHENOP - Companhia Hidro-Eléctrica do Norte de Portugal.

Persistente e intuitivo, Francisco Oliveira fundou a primeira fábrica de lâmpadas em Portugal antes de a electricidade chegar a todo o País. O negócio só não pegou porque o povo português demorou mais do que os outros europeus a aderir à electricidade. Dois anos após abrir as portas, a fábrica de lâmpadas da família Oliveira encerrou.

A hidroeléctrica tinha sido um sonho antigo do empresário que empenhou todo o seu dinheiro no projecto. Como a jornalista Alice Rios escreveu no seu livro Famílias Tradicionais do Porto, o clã ficou endividado à conta da empresa e foi com esforço que Francisco conseguiu comprar uma máquina de filmar ao filho Manoel, na altura com 23 anos.

A primeira coisa que fez, como forma de agradecimento ao seu pai, foi filmar a hidroeléctrica do Ermal. Francisco ainda viu o filme, mas, seis meses após a inauguração da unidade hidroeléctrica, morreu, deixando o seu legado empresarial aos filhos, tendo o mais velho, Casimiro, tomado as rédeas do negócio.

Os dois rapazes eram boémios e desportistas e famosos na sociedade portuense. Casimiro distinguiu-se na década de 30 como praticante de automobilismo e Manoel foi campeão nacional de salto à vara. Hoje, aos 101 anos, Manoel de Oliveira conta no currículo com 28 longas-metragens. Quanto a Casimiro, a sua paixão pelos carros era tão grande que nem acidentes graves como os que sofreu em Casablanca e Dakar o afastaram das competições. Nos anos 50, era um ídolo dos jovens que apreciavam altas velocidades. Disputou competições taco a taco com os melhores: Alberto Ascari, Villoresi e Castellotti.

Casimiro morreu em 1970, de doença cardíaca, deixando ao irmão mais novo os negócios do clã. Quatro anos depois, quando a Revolução chegou, a família perdeu o legado construído 70 anos antes por Francisco Oliveira.

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