Lacerda Sales, presidente da comissão de inquérito à TAP, pediu ao ministro da Cultura para se retratar. Pedro Adão e Silva recusou. E foi até mais longe na resposta ao deputado socialista: "Até posso elaborar mais sobre a leitura que faço do que foi a CPI". E elaborou: "Ofender a Assembleia? Eu não vejo porquê. O Governo responde perante a Assembleia, mas não está escrito em nenhum lado que os ministros devem suspender o seu espírito crítico em relação ao funcionamento do parlamento"..Mas não ficou por aqui. O ministro reforçou tudo o que pensa e disse na entrevista à TSF e ao JN. E as novas declarações surgem alicerçadas, para além do "espírito critico" que reivindica, no facto de as criticas de Lacerda Sales "vincularem apenas o presidente da comissão de inquérito", disse ao DN fonte parlamentar, e não os deputados socialistas da CPI ou até mesmo o grupo parlamentar..Aliás, nem todos partilham, apurou o DN, da leitura do ex-secretário de Estado da Saúde que "abriu mais um caso sem necessidade"..E se Alexandra Leitão, na CNN Portugal, e Isabel Moreira, no Twitter, alinharam nas "dores" de Lacerda Sales - expressão usada por um deputado ao DN - "muitos" são os que concordam com a "abordagem" do ministro da Cultura que "verbalizou o que muitos de nós, talvez a grande maioria, pensamos. O [Pedro] Adão e Silva teve até o cuidado de dizer que há análise política a fazer sobre o que se passou no Ministério das Infraestruturas, e isso é óbvio, mas dizendo que nada disso era matéria para a comissão parlamentar", referiu ao DN fonte parlamentar..Alexandra Leitão tem precisamente a visão contrária. E para além de considerar que as declarações de Pedro Adão e Silva foram "francamente infelizes para um ministro da República" fez notar que "são declarações que um ministro da República não faria se não tivesse maioria absoluta".."Diria mesmo", sublinhou a antiga ministra socialista, "que muitas das circunstâncias mais complexas que aconteceram na comissão foram proporcionadas por eventos que aconteceram no quadro do próprio Governo"..Já Isabel Moreira limitou-se a um "muito bem" ao facto de Lacerda Sales dizer que as declarações do ministro da Cultura são "uma falta de respeito"..Pedro Adão e Silva, ontem, ao reafirmar o que disse na entrevista, e recusando pedir desculpas, insistiu na ideia de que "não se compreendem inquirições noite fora, apreensões de telemóveis em direto, perguntas sobre com quem está a trocar mensagens de SMS naquele momento e o tom inquisitório"..E o que disse o ministro que tanto irritou Lacerda Sales? "Inquirições em noites sem paragem, em saber se se falou ao telefone às 10 horas ou às 10 e cinco, se foi antes ou depois, em que os deputados são uma espécie de procuradores do cinema americano de série B da década de 80". Ou seja: "A degradação do ambiente político.".O ministro que acredita que a sua opinião "é partilhada por muitos portugueses" insiste, por isso, no argumento de que "houve alguns momentos que não edificam a democracia" e até deixa conselhos a quem o critica por não "suspender o espírito critico".."Da mesma forma que os membros do Governo têm de estar totalmente disponíveis para serem criticados todos os dias em todos os momentos, não vejo por que motivo não podem criticar e fazer reflexões críticas sobre o funcionamento de outros órgãos", sustenta..Pedro Adão e Silva questiona mesmo o motivo pelo qual "fazer observações críticas passou a ser uma falta de respeito" concluindo que "é mesmo um exemplo e sintoma daquilo que é alguma evolução muito negativa que eu vejo na relação entre as instituições políticas e a comunicação social"..E para os "que se habituaram a fazer carreira com declarações redondas, em que não dizem nada" deixou uma certeza: "Não contem comigo para declarações redondas e que nada dizem"..Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do BE, considerou que as declarações do ministro, e a reação de Lacerda Sales, são parte de um desviar das "atenções" porque se aproxima a discussão do relatório da CPI.."Esta é a cultura da coordenação política do Governo: não resolve os seus próprios problemas nem os do país e acha que somos parvos",afirmou..O líder do PSD, por seu lado, acusou Pedro Adão e Silva de "arrogância e pedantismo intelectual" dizendo que "não é novidade" porque "há anos que discorre pretensa independência de opinião mas nunca deixou de ser funcionário da narrativa socialista"..O dia de ontem ficou ainda marcado por outro desacerto no governo envolvendo o ministro da Cultura e o da Administração Interna..Pedro Adão e Silva considera que "o humor e o cartoon devem ser um espaço que deve gozar de particular autonomia e de não interferência editorial"..José Luís Carneiro fez saber que falou "com o presidente do Conselho de Administração da RTP para manifestar desagrado". .Em causa, um cartoon alusivo à realidade francesa [o caso Nahel] que mostra um polícia a fazer tiro ao alvo "sem que o alvo que representa um homem branco seja atingido, e com o alvo que representa um homem negro cravejado de balas"..PSD já questionou Administração da RTP, Chega propôs a audição dos responsáveis do canal público e da ERC, PSP e sindicatos apresentarem queixa-crime no MP.