Primeiro foi a declaração de apoio ao seu antigo vice-presidente Joe Biden para as eleições de novembro, onde ao falar da Casa Branca que este terá criticou veladamente aquela que existe atualmente. Depois, o telefonema que veio a público onde atacou diretamente a resposta de Donald Trump à pandemia de coronavírus. Barack Obama voltou à arena e parece estar para ficar - este sábado houve mais um episódio, com o ex-presidente a dizer que a pandemia de covid-19 nos EUA "enterrou em definitivo a ideias de que os nossos responsáveis sabem o que fazem". Trump tem contra-atacado no Twitter sobre a forma do hashtag #Obamagate.."Votem", limitou-se a escreveu Obama nas redes sociais na quinta-feira, numa altura em que o presidente exigia que o seu antecessor fosse ouvido no Senado. Trump acusou Obama de cometer "o maior crime político e escândalo na história dos EUA" e deu gás à teoria de que Obama trabalhou com a sua equipa para inventar as acusações de que ele estaria de conluio com a Rússia para ganhar as presidenciais de 2016..Entre aqueles que foram erradamente acusados estaria o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Michael Flynn, que em 2017 admitiu ter mentido ao FBI durante as investigações sobre a interferência russa nas eleições. No dia 7 de maio, o Departamento de Justiça deixou cair a acusação de perjúrio, com o procurador-geral, William Barr, a alegar que a investigação não era justificada e logo a admissão de culpa de Flynn não devia ser tida em conta..Trump congratulou-se com a decisão, incentivando a teoria do Obamagate, com o presidente a escrever ou partilhar centenas de mensagens com esse hashtag no Twitter. "O Obamagate faz com que o Watergate pareça coisa pequena", escreveu na segunda-feira..Para os críticos, é uma forma de desviar as atenções da pandemia do coronavírus, mas a Casa Branca nega que seja uma tentativa de distrair as pessoas. Os EUA têm cerca de 1,5 milhões de casos confirmados e 90 mil mortes..O apoio a Biden.Obama só declarou oficialmente o apoio à candidatura do seu ex-vice-presidente depois da desistência do seu último adversário, Bernie Sanders. Num vídeo de 12 minutos, publicado nas redes sociais a 14 de abril, Obama defendia que "o Joe tem todas as qualidades que precisamos num presidente agora". .Numa crítica velada a Trump, Obama disse ainda que Biden se vai rodear de pessoas boas, de "peritos, cientistas e oficiais militares que verdadeiramente sabem como lidar o governo, trabalhar com os nossos aliados e pôr sempre os interesses do povo americano acima dos seus próprios interesses"..Antes, depois de falar do coronavírus e do desafio que este representa, defendeu uma liderança "guiada pelo conhecimento e pela experiência, honestidade e humildade, empatia e graça", dizendo que este tipo de liderança "não pertence apenas aos capitólios estaduais ou aos gabinetes de presidentes da câmara, mas pertence também à Casa Branca"..Obama defendeu ainda que o futuro dos EUA depende das eleições de novembro: "Porque uma coisa que já todos aprendemos é que os republicanos que ocupam a Casa Branca e lideram o Congresso não estão interessados em progresso. Estão interessados em poder.".O telefonema.O mais recente ataque do presidente contra Obama surge depois de a Yahoo News ter divulgado um telefonema em que este ataca a resposta de Trump ao coronavírus. No telefonema, com antigos membros da sua equipa, Obama apelida a resposta dos EUA à pandemia de "desastre absolutamente caótico"..Na crítica mais explícita de Obama contra Trump até agora, o ex-presidente invoca a resposta à crise sanitária para justificar a necessidade de escolher bons dirigentes e apelar aos seus conselheiros para integrarem a campanha de Joe Biden.."A próxima eleição é muito importante a vários níveis. Não enfrentaremos apenas um indivíduo ou um partido político", disse Obama, salientando que o verdadeiro adversário são "as tendências a longo termo, como ser tribal, criar divisão e ver os outros como inimigos"..Obama comentou ainda o caso de Flynn. "Não há precedente que se possa encontrar para que uma pessoa acusada de perjúrio saia impune. Este é o tipo de situação que podemos começar a temer na nossa leitura básica de um estado de Direito. Quando seguimos este caminho, ele pode ir rapidamente para outros lugares", alertou..#Obamagate.As acusações de Trump contra Obama não são novas: o presidente sempre rejeitou qualquer conluio com os russos na campanha de 2016 e sempre disse que era alvo de perseguição. A investigação do procurador-especial Robert Mueller concluiu que houve interferência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas para beneficiar Trump, mas não encontrou provas suficientes de que a campanha do republicado estivesse de conluio com os russos..Desta vez, Trump acrescentou apenas um hashtag às acusações, não especificando, por exemplo, que crime político o seu antecessor terá cometido. Quando foi questionado na segunda-feira sobre quais tinham sido os crimes de Obama, Trump respondeu aos jornalistas: "O Obamagate está a acontecer há muito tempo. Está a acontecer ainda antes de um ter sido eleito e é uma desgraça o que aconteceu." Numa resposta a outro jornalista disse: "Vocês sabem qual é o crime. O crime é óbvio para toda a gente.".As revelações em torno do caso de Flynn, que mentiu sobre os contactos que teve com o embaixador da Rússia durante o período de transição, serviram como rastilho para a versão mais recente das acusações contra Obama. Isto depois de documentos do FBI sobre a investigação que foram divulgados em abril revelarem uma nota, manuscrita, no qual se questionava se o objetivo de interrogar Flynn era apanhá-lo numa mentira para depois o poder acusar e levar à sua demissão..Os advogados de Flynn, que a determinada altura chegou a colaborar com a investigação de Mueller, usam o documento como prova de que ele foi alvo de uma armadilha. Algo que o procurador William Barr concordou, deixando cair a acusação de perjúrio..A lista que envolve Biden.Para juntar às provas de Obamagate, há ainda uma lista de responsáveis da Administração de Obama (divulgada pelos republicanos no Senado) que terão tido acesso a informações sobre Flynn durante a transição. Entre eles o vice-presidente Joe Biden (sem se saber se terá ou não lido a informação)..Flynn foi apanhado em escutas da Agência de Segurança Nacional aos responsáveis russos, sendo que é preciso autorização para aceder aos nomes dos norte-americanos envolvidos porque esta agência não tem jurisdição nos EUA..É algo de rotina quando é preciso perceber o que está em causa --entre agosto de 2015 e agosto de 2016, cerca de nove mil cidadãos viram a sua identidade revelada neste processo, em 2018, mais de 16700, segundo o site Vox..Mas Trump está a aproveitar a informação para acusar o adversário de conspirar para cometer um crime. "Isto foi tudo o Obama. Isto foi tudo o Biden", disse Trump numa entrevista à Fox Business na quarta-feira. "Estas pessoas eram corruptas. Tudo era corrupto. E apanhámo-los. Apanhámo-los.".A campanha de Biden não indicou se ele foi um dos que pediu para que o nome da pessoa que tinha falado com o embaixador fosse revelado ou se apenas teve acesso à informação desse pedido, que terá sido feito por 16 pessoas..O candidato democrata à Casa Branca disse numa entrevista à ABC na terça-feira que não sabia de nada das tentativas de investigar Flynn. "Isto é tudo uma diversão. É um jogo que este tipo [Trump] joga a toda a hora", acrescentou..Investigação no Senado.O líder da Comissão de Justiça do Senado, Lindsay Graham, indicou na quinta-feira que haverá uma investigação à investigação sobre a Rússia, mas afastou a hipótese de chamar Obama a depor, como o presidente Trump queria.."Acho que não é a altura de fazer isso. E nem sei se é possível", indicou ao Politico, dizendo que seria preocupando estabelecer um precedente. "Percebo a frustração do presidente, mas é melhor ter cuidado com o que deseja", acrescentou o senador republicado.."Ambos os presidente são bem vindos se quiserem testemunhar diante da comissão e partilhar as suas preocupações um sobre o outro. Se nada mais, daria um excelente momento de televisão. Contudo, tenho dúvidas sobre se isso seria o melhor para o país", acrescentou.