O xadrez israelo-palestiniano

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Reacendeu-se a chama da violência entre Israel e a Palestina, com troca de mísseis e pessoas a morrer de ambos os lados da barricada. A razão aparente terá sido a intenção de colonos israelitas expulsarem famílias palestinianas do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, para ocuparem as suas casas, alegando que as mesmas haviam pertencido no passado a grupos judeus. Independentemente do lado em que está a razão, se é que é possível descortinar no tempo longínquo a origem desses direitos, o argumento parece frágil, sobretudo quando se conhece que há muitos anos acontecem situações similares sem que o efeito vá para além de escaramuças pontuais.

Qual poderia, então, ter sido o motivo para este súbito estado de guerra? A confiança mútua entre as duas partes tem vindo a degradar-se continuamente, com a comunidade internacional a assistir a tudo de braços cruzados. Até à semana passada, antes do início do atual conflito armado, a questão israelo-palestiniana vinha perdendo centralidade nos planos regional e global, algo que era mais da conveniência de Israel do que da Palestina. Para muitos observadores internacionais, apenas um evento disruptivo poderia recolocar o tema na agenda.

Os anos de 2019 e 2020 foram aqueles em que ocorreram menos episódios de terror e violência. Aquilo que algumas forças do lado israelita designam por "terrorismo estratégico palestiniano", referindo-se a ações armadas do Hamas, está muito contido em Gaza e praticamente foi eliminado na Cisjordânia.

Por outro lado, os colonatos israelitas continuam a aumentar, quer em número de pessoas, quer em construções. Esta expansão não encontra reflexo do lado palestiniano, pois a precariedade da sua situação económica tem gerado ondas de emigração, com muitos a tentar chegar à Europa em frágeis embarcações ou então ao Egito. A segregação entre as duas comunidades na Cisjordânia e em Gaza é muito profunda, tornando virtualmente impossível o processo de reconciliação, considerado, no Tratado de Oslo, condição fundamental para a solução de dois Estados.

Tudo indica que existe, no terreno, um movimento na direção de um Estado único, algo considerado por muitos como uma impossibilidade. Israel vai paulatinamente estabelecendo soberania, recorrendo a leis e a outras formulações mais criativas, como ordens militares, o que aumenta a complexidade formal e legal ao ponto de, provavelmente, impedir a solução limpa de dois Estados.

Neste quadro, o curso dos acontecimentos só poderia ser alterado por duas vias: ou um evento hostil, de natureza bélica, ou um evento interno que alterasse as lideranças e o posicionamento político de alguma das partes.

É aqui que entram as eleições palestinianas, marcadas para maio (Parlamento) e junho (presidência). Mahmoud Abbas, o líder da Autoridade Palestiniana, decidiu-se pelo seu adiamento, usando como argumento o facto de Israel não permitir que se votasse em Jerusalém. Sem discutir o mérito da razão invocada, a verdade é que Abbas, de 85 anos, conhece esta dificuldade há demasiado tempo para fazer depender dela a realização de eleições democráticas. A última votação parlamentar palestiniana aconteceu em 2006, pelo que há 15 anos que o quadro político formal se mantém estático.

O adiamento das eleições tem como efeito prático impossibilitar o tal evento interno que poderia agitar a questão israelo-palestiniana. Resta, por isso, a opção musculada, que está agora ao rubro e promete deixar marcas de ódio ainda mais profundas. Acredito que, quando as cinzas da destruição começarem a pousar, a diplomacia internacional perceberá que tem de avançar. E em força.

Deputado e professor catedrático.

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