Eis uma invulgar história verídica: o filme Gran Turismo, produção anglo-americana dirigida pelo cineasta sul-africano Neill Blomkamp, retrata a odisseia do jovem inglês Jann Mardenborough (fará 32 anos no dia 9 de setembro) cuja agilidade como praticante, ainda adolescente, do videojogo com a mesma designação o conduziu à condição de piloto profissional..Graças à sua experiência na PlayStation, Jann começou por ganhar o GT Academy, um concurso patrocinado pela Nissan. A sua premissa decorria de uma aliança promocional que suscitou o entusiasmo dos profissionais do marketing, mas também as reticências de fabricantes e técnicos dos automóveis: os melhores praticantes do videojogo (Jann ganhou a um total de 90 mil concorrentes) teriam direito a entrar no mundo das corridas de Gran Turismo ou, mais exactamente, Super GT. Jann começou por se distinguir numa prova no Dubai, conseguindo um surpreendente lugar no pódio da edição de 2013 das 24 Horas de Le Mans: foi terceiro na classe LMP2. No filme, a sua personagem está entregue a Archie Madekwe que nas cenas de maior velocidade teve como duplo o próprio Jann..Em termos cinematográficos, eis a questão: através da vertigem dos carros, que está a acontecer no espectáculo oferecido pelas salas? Mais ainda: tendo em conta que a atualidade global dos mercados se apresenta dominada pelo inusitado sucesso de Barbie e Oppenheimer, que trunfos tem Gran Turismo num contexto em que o domínio cultural dos super-heróis parece estar a ser (finalmente!) desmantelado?.Ainda que resistindo a apresentar qualquer "tese" sobre o assunto, Gran Turismo coloca-se no centro de uma questão que, de formas muito diversas (das análises mais sérias até à banalidade do pitoresco), tem pontuado os nossos tempos seduzidos, e também assombrados, pelas maravilhas da tecnologia. A saber: qual o nosso envolvimento com o mundo virtual? Ou mais especificamente: de que modo, ou até que ponto, as componentes desse mundo nos afastam da complexidade do real?.Jann é avisado do desafio que enfrenta. Primeiro, pelo pai, Steve Mardenborough (Djimon Hounsou, nosso conhecido desde 1997, como protagonista de Amistad, de Steven Spielberg); depois pelo seu treinador, Jack Salter (David Harbour). Ambos lhe chamam a atenção para o facto de uma corrida a sério envolver perigos que estão muito para lá do "realismo" de qualquer videojogo, questão que, em boa verdade, o filme encena de modo paradoxal: por um lado, tais perigos tornam-se bem sensíveis através dos percalços que Jann enfrenta, incluindo a morte de um espectador resultante de um aparatoso acidente com o seu carro; por outro lado, tudo se passa como se, para ele (e para a sua geração?), o virtual já não exista como uma "alternativa" lúdica ao real, sendo antes habitado como uma nova configuração tecnológica desse mesmo real..Observem-se, em particular, os belos momentos em que, aplicando elaborados efeitos visuais, o filme "visualiza" a dialética que faz funcionar a mente de Jann: logo nas cenas iniciais, quando, sentado em frente do ecrã caseiro, é "transportado" para um carro que se edifica em torno da sua cadeira; depois, já numa corrida, através de um efeito semelhante, sendo "devolvido" ao ambiente acolhedor de sua casa..Blomkamp é, obviamente, um realizador com um apurado sentido de composição - lembremos Distrito 9 (2009), filme de ficção científica que o projetou internacionalmente -, em parte enraizado numa agilidade de enquadramento e montagem que provém da sua formação na área da publicidade. A energia visual, e também sonora, de Gran Turismo beneficia desse know how, ainda que o filme saia diminuído pelo facto de haver cenas e planos cuja função principal, algo obscena, consiste apenas em expor mais um logotipo de algum patrocinador (além da PlayStation e da Nissan que, objetivamente, fazem parte da história que está a ser contada)..Lamenta-se também que o argumento resolva algumas situações de forma dramaticamente simplista, ainda que nada disso seja estranho aos desequilíbrios do próprio elenco. Se Madekwe sabe sustentar a personagem de Jann sem ceder a qualquer estereótipo juvenil e Harbour, mesmo quando se limita a debitar um monólogo algo esquemático, confirma o seu estatuto de notável secundário (lembremos a sua composição no sublime Revolutionary Road, 2008, de Sam Mendes), Orlando Bloom nunca consegue instilar genuíno dramatismo na personagem do homem do marketing da Nissan..Feitas as contas, Gran Turismo não deixa de ser um curioso acontecimento neste tão desconcertante verão cinematográfico, a fazer lembrar (para lá das muitas diferenças...) o filme Grande Prémio com que, em 1966, John Frankenheimer transfigurou de forma radical os modos tradicionais de filmar as corridas de Fórmula 1. Mais ainda: Gran Turismo serve para demonstrar que a grandiosidade do IMAX não pode ser entendida como uma coutada exclusiva das estafadas retóricas de super-heróis & afins. Será que isso o aproxima do génio narrativo de Oppenheimer? Claro que não, mas como Jann aprende à sua própria custa, ninguém é perfeito..dnot@dn.pt