O verdadeiro Capitão Haddock

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Tal como ansiamos por ver portugueses em notícias longínquas, os belgas procuram personagens de banda desenhada. Para eles, uma prancha imaginária (onde vivem Gaston Lagaffe e os Schtroumpfs, heróis belgas) vale tanto quanto um presidente americano ter condiscípulos, no liceu de Honolulu, cujos avós eram madeirenses. «Que coincidência!», dizemos, então... «Que coincidência!», exclamou o bruxelense Louis Francken, quando leu, entre a papelada deixada pela tia-avó Janet, que emigrara para a América, a lista de passageiros chegados ao porto de Nova Iorque em 26 de setembro de 1902. Assinava a lista o comandante do Germanic, o navio que levava os emigrantes: capitão Haddock. A partir de lá, Louis Francken fez um livro.

O livro chama-se O Verdadeiro Capitão Haddock e foi publicado no tempo certo. É que o verdadeiro capitão Haddock foi uma personagem de centenária atualidade: foi o primeiro comandante do Titanic, recebeu o navio nos estaleiros de Belfast, três semanas antes do encontro fatal com o iceberg. Capitão da companhia de transatlânticos White Star, Herbert James Haddock teve de passar o comando para o colega Edward J. Smith porque, à beira da reforma, este foi honrado com a viagem inaugural, de Southampton para Nova Iorque. Depois, a ponte de comando voltaria para Haddock, que, entretanto, ficou a comandar o navio irmão Olympic, também da White Star. Há cem anos, o Haddock real deve ter exclamado «com seiscentos milhões de caracóis!», ao saber que passara uma tangente à tragédia. Isso se ele tivesse a linguagem expressiva do amigo de Tintim, mas não tinha (era um homem sóbrio, contou a notícia necrológica no The New York Times, em 1946).

O Haddock do Tintim nasceu só na nona aventura do célebre repórter, O Caranguejo das Pinças de Ouro, em 1941. Já era capitão de navio, o cargueiro Karaboudjan, mas é um farrapo humano, com delirium tremens e visões (normalmente com a forma de garrafas de uísque da marca Loch Lomond). Depois do encontro, o capitão não vai perder mais aventuras com Tintim, acalma um pouco o vício da bebida mas nunca abandona a linguagem colorida e truculenta. O autor da série, o belga Hergé, só na 23.ª e última aventura, Tintim e os Pícaros, em 1976, deu nome próprio a Haddock: Archibald. Mas nos seus arquivos há uma lista que indica que ele encarou a hipótese do nome Herbert, como o capitão do Olympic e do Titanic...

Se tardou a dar nome próprio à sua mais interessante personagem, Hergé cedo lhe deu um antepassado: duas aventuras depois de aparecer no cargueiro Karaboudjan, o capitão Haddock quase rouba o protagonismo ao seu amigo Tintim, em dois álbuns seguidos, O Segredo do Licorne e O Segredo de Rackham, o Terrível. Neles, descobre-se que o capitão descende do cavaleiro François de Hadoque, nobre francês do século xvii, que combateu sob a bandeira do Rei Sol. Foi natural tornar francês, Hadoque, um nome de consonância inglesa, Haddock, porque as bandas desenhadas foram publicadas no jornal Soir, em 1943 e 1944, numa Bélgica ocupada pelos alemães. Ficava mal pôr um tão popular herói descendendo dos inimigos ingleses. No entanto, houve mesmo um almirante inglês, Nicolas Haddock (1686-1746), que combateu a armada de Luís XIV, o Rei Sol, e que tem um quadro no Museu Marítimo de Greenwich, onde posa com uma luneta e uma nau ao fundo. Como, em O Segredo do Licorne, o antepassado do capitão Haddock...

Mas se era antiga a tese de que a inspiração de Hergé bebera no almirante inglês, a ligação do amigo de Tintim, Archibald Haddock, ao primeiro capitão do Titanic, Herbert Haddock, é uma boa malha. Outra versão, também antiga, diz que a escolha de Hergé foi feita por razões triviais: gostava de haddock, como se chama, quando fumado, ao églefin, uma espécie de bacalhau. Pode estar aí outra pista. Juntando a carne e osso com as espinhas, o capitão Haddock é capaz de ser filho de um pescador de Aveiro que ia para a faina na Terra Nova. Estou a ouvir mais depressa gritar-se «Semente de valdevinos!» num bacalhoeiro do que num salão com a Kate Winslet. E o haddock pode ter vindo do pai do pescador, avô do capitão, que sabia latim, era padre e constituiu família ad hoc.

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