O truque do populista

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No seu fabuloso livro Os Engenheiros do Caos, Giuliano da Empoli conduz-nos pelos labirintos do populismo moderno, explicando como e por que razão está a avançar de ambos os lados do Atlântico. Lendo este Tratado, fica bem mais fácil compreender a ascensão ao poder de personagens como Salvini, Orban, Trump e Bolsonaro, bem como a progressão eleitoral de outros como Marine Le Pen ou André Ventura.

O ponto de partida das teses de Da Empoli não podia assentar melhor ao momento português: o Carnaval. Não sendo uma festa oferecida pelas autoridades ao povo, como recordou Goethe a respeito do Carnaval de Roma, é um espetáculo que o povo dá a si mesmo, invertendo, de modo simbólico, as rígidas hierarquias do sistema. Assim, baralham-se, confundem-se e trocam-se as relações entre poderoso e servidor, homem e mulher, rico e pobre, sábio e ignorante, sagrado e profano. No fim dessa explosão, a fantasia completa-se com a eleição de um rei, que toma por momentos o lugar de autoridade máxima. Coincidência ou não, o período de pré-campanha eleitoral para as eleições legislativas de 10 de março atravessa justamente o Carnaval.

Da Empoli usa a metáfora do Carnaval para explicar como, interpretando o "outro" do espírito carnavalesco, é possível ativar dinâmicas de revolta, normalmente desorganizadas e divergentes, que, se somadas, ganham volume e podem fazer eleger o tal "rei". Esta chegada ao quotidiano das regras do Carnaval teve por base uns quantos ideólogos de extrema-direita que viajaram pela América e pela Europa a vender o seu produto: o caos, que tem por fim único abalar o establishment e as elites do poder instituído. Na América de Trump, foram Steve Bannon, Andrew Breitbart e Milo Yiannopoulos; na Hungria de Orban, foi Arthur Finkelstein; na Itália do Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo, foi Davide Casaleggio. Os aprendizes de populista depressa perceberam que tinham a ganhar se se associassem à cruzada, como aconteceu com André Ventura, que não cabia em si de felicidade quando posou com Matteo Salvini, Georgia Meloni ou Marine Le Pen.

A pedra de toque que acelerou esta cruzada, com sucessos eleitorais nos EUA, no Brasil, na Hungria, na Itália, na Argentina e no Brexit, foi a internet e as redes sociais. Os populistas perceberam que já não seria no contexto das instituições tradicionais da democracia - parlamento, partidos, comunicação social - que a luta se ganharia. Ignoraram os assessores de ciência política, e mobilizaram especialistas dos algoritmos e do big data, capazes de endereçar o eleitorado com uma granularidade que chega ao indivíduo. Se alguém gosta de touradas, então recebe mensagens que denunciam a tentativa de acabar com uma tradição secular por parte dos partidos ambientalistas. Se, pelo contrário, alguém não gosta de touradas, então receberá imagens dos touros a jorrar sangue, questionando porque não intervém o governo. O que importa é alimentar a raiva contra o sistema, segmentando e espartilhando, para depois passar à agregação sob a capa de uma força política "alternativa" e "salvadora".

Este exercício, que tem um léxico próprio e sistemático - Chega, Basta, Vergonha -, visa destruir o conceito de espaço político do centro democrático moderado, fazendo baixar o custo de adesão dos cidadãos comuns às ideias mais extremas. E está a funcionar!

O que fazer, então, perante o avanço dos engenheiros do caos? O filósofo inglês do século XIX John Stuart Mill dá a resposta: para triunfar, o mal apenas precisa da inação dos homens bons. Para ponderar até ao dia 10 de março.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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