Há pessoas que chegam preparadas aos cargos. Outras, a maioria, vão estagiar em funções de enorme responsabilidade. Vão ganhar experiência, até ao dia em que atingem o ponto de equilíbrio, a altura em que sai tudo com mais naturalidade e, talvez, alguma qualidade. Muitos ficam pelo caminho. As circunstâncias revelam-se mais exigentes do que as suas capacidades. Fracassam. Com Marcelo Rebelo de Sousa não é assim, não será assim..O novo Presidente da República assumiu ontem funções perante um Parlamento demasiado radicalizado e empobrecido. Assumiu funções num momento em que a angústia dos portugueses se mistura com a expectativa provocada pela eleição de um novo governo. Assumiu funções numa altura em que a União Europeia recua, a zona euro vacila, o mundo compete por recursos escassos e a incerteza corrói a confiança..Neste contexto politicamente explosivo, socialmente brutal, Marcelo nomeou os problemas um a um, enfrentou-os, definiu-os num estilo suave, não confrontacional, não culpabilizante, não agressivo, não paternalista, procurando alinhar o que hoje parece tão irreconciliável. Assistimos ontem ao triunfo do tom - um pequeno grande passo nos tempos raivosos que correm, nem uma oitava acima ou abaixo do ideal. Marcelo não foi extraordinário, foi apenas Marcelo, genuíno e pessoal, inclusivo..Embora fosse o dia mais importante da sua vida política, não foi um momento do eu, nem do ego, não foi um show do professor Marcelo, não foi uma aula, nem um exame, nem sequer uma manchete fácil. Foi o momento do nós e da comunidade que somos e podemos ser. E o que somos, disse o Presidente, tem de ser complementar. A esquerda e a direita, Portugal e a Europa, Portugal e África, Portugal e o Brasil, Portugal e o Atlântico, Portugal e Espanha, a economia de mercado e a economia com objetivos sociais, sem esquecer as diferentes religiões. Não é nada de novo, mas será nesta capacidade para juntar as diferentes visões do mundo - nesta mundividência, nesta moderação - que se encontra uma parte do caminho a percorrer..Nos anos 80, Hernâni Lopes e Mário Soares identificaram a urgência de os empresários crescerem também fora do país. O poder político criou as bases para que isso se tornasse possível: orientou-os no sentido adequado. A Europa veio a seguir e pareceu resolver depressa problemas antigos, fazendo-nos esquecer em parte quem somos, a língua que nos singulariza, os recursos - sociais, financeiros, culturais - de que este universo multicontinental dispõe..A Europa faz parte de nós, integra este todo, mas não esgota a portugalidade e as nossas aspirações naturais. Acima de tudo, não pode impedir que Portugal cultive estes laços, como está a acontecer com a nova lei financeira da UE que amputa escandalosamente a ligação dos bancos portugueses aos africanos. Nem uma palavra se ouve sobre isto, como se fosse destino ter apenas grandes bancos espanhóis, como se já não existissem grandes empresários nacionais com capacidade para competir e um país para os acompanhar..Marcelo Rebelo de Sousa é uma voz de esperança contra este statu quo do declínio. Conhece a História de Portugal, não se limitou a lê-la, compreendeu-a. Sabe que toda a mudança começa com o envio de uma mensagem clara. Ontem ela chegou límpida aos destinatários: a solução começa em nós, os portugueses. Ele, Marcelo, ajuda, ajuda muito, não resolve sozinho.