O calor sufocante que se fazia sentir já depois das dez da noite foi subitamente interrompido por uma descarga de chuva torrencial, acompanhada de trovões e relâmpagos de proporções épicas. "As tempestades são lindas no Texas", dizia uma mulher ao namorado, saltando poças para buscar refúgio num bar da 6th street. "Isto não é bem Texas", pensei. "Isto é Austin." A capital do segundo estado mais populoso da América tem um mote que traduz bem o que se passa lá dentro: "Keep Austin Weird." Austin é uma cidade estranha, e isso percebe-se assim que se chega ao aeroporto. Toda a gente é tão simpática que chega a ser desconcertante. Nas espeluncas de beira de estrada come-se das melhores iguarias locais, os donos tratam-nos por "doçura" e oferecem garrafas de água para o caminho. Não sei que bruxaria é esta, mas bastou abrir o porta-bagagens da carrinha para aparecerem dois homens vindos sabe-se lá de onde a oferecerem-se para transportar uma secretária prédio acima. Assim, sem pedir nada em troca. Só mesmo para ajudar..O cúmulo da estranheza foi quando o condutor do Uber que me apresentou à nova área da moda em Austin, The Domain, disse que também tinha karaoke para o caso de os passageiros quererem cantar. A Uber e a Lyft tinham desaparecido da cidade há um ano, quando foram aprovadas regras mais rigorosas de seleção dos condutores. Essas regras foram invalidadas na semana passada e as duas empresas de boleias voltaram a estar disponíveis dentro da cidade. Imaginem isto: o serviço que entretanto floresceu para compensar a ausência das apps de transporte chama-se Ride Austin e não tem fins lucrativos nem cobra um cêntimo aos condutores. Este, que tem um sistema de karaoke no carro para entreter os clientes, trabalha para várias apps de boleias ao mesmo tempo. E não é só karaoke que ele oferece. O carro tem uma bola espelhada de discoteca que projeta cores por todo o lado, uma bolsa cheia de pulseiras néon para quem quiser levar e um diário onde os passageiros podem confessar segredos, "Ride confessions". Já vai no terceiro volume. Onde, senão em Austin, seria possível encontrar boleias destas?.Quando a chuva torrencial começou a bater, quase toda a gente correu para o bar ou varanda mais próxima, porque estas tempestades são fortes mas não duram muito tempo. Nem todos, no entanto. Da varanda do bar na 6th street, que ao fim de semana é fechada ao trânsito para acolher a multidão que procura bebidas baratas e diversão noturna, via-se um homem a atirar frisbees a quem passava. Literalmente, a jogar frisbee no meio da rua, com uma chuva tão forte que mal se via um palmo à frente. O mais estranho? Toda a gente entrou na brincadeira..Esta zona de diversão no coração da cidade fica paredes-meias com o centro de apoio aos sem-abrigo. Há muitos, mais do que eu esperava. Estão nos cruzamentos e nos sinais vermelhos, dormem à porta dos bares, vendem peluches na beira da estrada. Os esforços da cidade para reduzir esta população sem teto, mais de duas mil pessoas, tiveram resultados encorajadores em 2016. Mas Austin atrai cada vez mais gente, e os preços das rendas e das casas estão a subir exponencialmente..O fenómeno é interessante: milhares de pessoas estão a mudar-se de Los Angeles, Califórnia, para Austin, Texas. Os motivos prendem-se essencialmente com os preços insustentáveis de LA, onde a renda média de um T1 ronda os 1700 euros por mês, além do tráfego insuportável e dos impostos que sobem de ano para ano. Só que esta invasão de californianos, que são alvo de desdém dos texanos (existe uma relação "difícil" entre os dois estados), está a provocar o mesmo efeito nos maiores centros urbanos do Texas - com Austin à cabeça. Poder-se-á dizer-se que Austin é uma versão texana dos valores progressistas e liberais de São Francisco e Los Angeles. Embora Donald Trump tenha esmagado Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016 no estado do Texas, Austin votou em larga escala pela candidata democrata, dando-lhe 65,8% dos votos. É um bastião democrata num estado vermelho..Além disso, a cena tecnológica está a explodir na cidade, onde a Dell Technologies tem a sua sede e onde há um enorme campus da Apple. O Norte de Austin faz lembrar São José, o antigo epicentro de Silicon Valley, com quilómetros e quilómetros de empresas tecnológicas em paralelo com comunidades residenciais onde vivem os engenheiros e as suas famílias. E toda a gente sabe o que a expansão das gigantes tecnológicas fez aos preços em São Francisco, certo?.Mas rapidamente se percebe que isto não é a Califórnia. Os avisos à porta de bares contra o porte dissimulado de armas de fogo, a humidade constante e a proibição draconiana de canábis servem para lembrar que isto, apesar de tudo, é o Texas. Um Texas que se estranha, e que talvez nunca se chegue a entranhar.