Crianças-soldados. PRIMEIRO PROCESSO EM HAIA."Alguns alunos eram recrutados e levados, eu fui um dos que foram para os campos militares. Isso aconteceu quando eu saía da escola. Eram soldados de Thomas Lubanga. Estavam armados e eram mais numerosos que os meus amigos e eu." O primeiro testemunho no julgamento do ex-comandante das milícias da União dos Patriotas Congoleses (UPC) teria sido perfeito, não fosse o facto de a antiga criança-soldado ter voltado atrás com a palavra e negado tudo no último momento. .Um importante revés naquele que é um julgamento histórico no Tribunal Penal Internacional de Haia. Sete anos após a criação deste tribunal permanente para julgar crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, senta-se pela primeira vez no banco dos réus um homem acusado de recrutar crianças para as suas milícias e usá-las em combate na República Democrática do Congo (RDC). "A milícia de Lubanga recrutou, formou e utilizou centenas de jovens crianças para que matassem, roubassem e violassem", disse o procurador Luis Moreno-Ocampo no início do processo.."Não, eu não estive num acampamento de treino militar", afirmou a primeira testemunha em suaíli, a sua língua natal. O jovem, cuja idade não foi divulgada, tinha a voz distorcida e sentava-se atrás de um painel, de forma a que a sua identidade continuasse escondida do público. Mas no banco dos réus, Thomas Lubanga, vestido com um fato preto e gravata vermelha, podia vê-lo e não pôde evitar sorrir. ."São falsas", acrescentou o jovem em resposta à pergunta do presidente do tribunal, o britânico Adrian Fulford, sobre a veracidade das suas primeiras declarações. O medo de ter sido reconhecido por Lubanga, de estar numa sala de tribunal cheia ou de poder ser acusado pelos crimes que cometeu quando regressar à RDC falaram mais alto. São estes medos que podem minar este julgamento e todos aqueles que abordem o mesmo tema no futuro..No pico do conflito na região do Ituri (2002-2003), a ONU estima que 30 mil crianças tenham lutado como soldados. Observadores locais acreditam que dos 15 mil membros da milícia UPC, pelo menos 40% eram menores - alguns eram recrutados com apenas sete anos. Eram tantos que a UPC era conhecida como "um exército de crianças". .Hoje, os menores continuam a lutar em mais de uma dúzia de países no mundo. As crianças são alvos fáceis para os recrutas, porque são manipuláveis e raramente os responsáveis enfrentam sanções. É esse aspecto que se espera possa mudar com o julgamento de Lubanga, que arrisca uma pena de 30 anos de prisão. Um processo que está dependente dos testemunhos de ex-crianças-soldados e outros combatentes, como o que falou na sexta-feira: "As crianças estavam dispostas por companhia, batalhão, brigada ou pelotão. Eles eram como militares."|